CADERNO B

Jequitinhonha: lítio e luta

Exposição 'Zona de sacrifício: do ouro ao pó', sobre efeitos da mineração em Minas Gerais, acontece no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular

Por CADERNO B
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Publicado em 03/07/2026 às 13:15

Alterado em 03/07/2026 às 13:17

Famílias convivem com o progresso da extração intensiva de lítio nas 54 cidades do Vale do Jequitinhonha Foto: Isis Medeiros

A fotógrafa mineira Isis Medeiros entrelaça arte, política e memória social em sua trajetória como documentarista. Autora do fotolivro “15:30” (2020), leitura sensível do desastre-crime provocado pelo rompimento da barragem da Samarco/Vale-BHP em Mariana (MG) – que integra os acervos do MASP, da Biblioteca Nacional da França (BnF) e do Instituto Moreira Salles (IMS) –, é idealizadora da premiada série “Mulheres Cabulosas da História” (Medalha Clara Zetkin). Essas rotas, na vida e na arte, se deram no Vale do Jequitinhonha. A artista visual registrou, ao longo de dois anos, a extração colossal do lítio na região. O lítio é o mineral essencial na fabricação de baterias para carros elétricos, celulares e sistemas de armazenamento de energia. Formado por 54 cidades, o Vale do Jequitinhonha detém 85% do mineral no Brasil.

As imagens captadas por Isis Medeiros formam a exposição “Zona de Sacrifício: do ouro ao pó”,  inaugurada nessa quinta-feira (2) na Galeria Mestre Vitalino, no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan). “Zona de Sacrifício: do ouro ao pó” é um projeto autoral de longa duração, fomentado pelo Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia (17ª edição). O projeto se desdobra em fotografia documental, audiovisual, pesquisa, escuta de territórios e uma exposição itinerante. No dia da abertura será exibido o documentário “Chico”, de Augusto Gomes e Isis Medeiros, sobre os impactos humanos, ambientais e afetivos desse novo ciclo extrativista. 

Segundo a curadora da exposição, Carol Lopes, a prática fotográfica de Isis Medeiros “se constrói na criação de redes e no tempo partilhado”. “Esse gesto se materializa no encontro entre sua pesquisa, saberes cultivados pelos mais velhos e as vozes da juventude do Vale. Em suas fotografias, a paisagem se revela em camadas. À noite, o ruído das máquinas e a iluminação das mineradoras anunciam uma presença perturbadora. Durante o dia, emergem montanhas de rejeitos, crateras no solo e o pó que adoece. ‘Zona de Sacrifício: do ouro ao pó’ desloca a discussão para além das falsas promessas de progresso”, analisa a curadora. Todo o projeto está no site.



O Vale do Jequitinhonha detém 85% do lítio de todo o Brasil. Para a extração, mineradoras brasileiras e estrangeiras mudam o cenário do lugar com explosões, poeira e doenças como silicose Foto: Isis Medeiros


Chico do Poço das Antas Foto: Isis Medeiros

 

Nesta sexta-feira (3), às 16h, acontece a Roda de Confluências, com a participação de Ana Carolina Nascimento (Antropóloga, coordenadora técnica de pesquisa e projetos especiais do CNFCP), Sandra Benites (Funarte), Chico (liderança comunitária de Piauí Poço Dantas, de Itinga – MG)), Tatiana da Costa Sena (IFNMG) e Helena Taliberti (ICLT). A mediação será de Gabriela Sarmet (cosmopolíticas). Conhecido pela importante tradição de ceramistas, o Vale do Jequitinhonha está amplamente representado no acervo do Museu de Folclore Edison Carneiro. Por isso, algumas peças do museu fazem parte da exposição, conectando saberes da cultura popular ao contexto documental.

“Zona de Sacrifício: do ouro ao pó” propõe ampliar o debate público sobre o modelo de desenvolvimento baseado na extração intensiva. Questiona, por exemplo, as ameaças aos modos de vida de comunidades rurais e tradicionais. O país ocupa atualmente o 6º lugar no ranking mundial de reservas do mineral, considerado estratégico para a transição energética global.

 

“Nos últimos anos, tenho acompanhado de perto o avanço da mineração de lítio no Vale do Jequitinhonha, um território que aprendi a amar profundamente por sua cultura, pelas pessoas e pela força das comunidades que vivem ali”, diz Isis Medeiros. “O que me inquieta é a forma dessa nova corrida mineral ser apresentada como parte de uma ‘transição energética verde’, enquanto no território o que aparece são poeira, explosões, pressão sobre a água e impactos diretos na vida das pessoas”, critica.

O projeto fundamenta-se no conceito de "zonas de sacrifício", isto é, áreas em que a exploração econômica é priorizada em detrimento da vida e do meio ambiente. Historicamente marcado por ciclos que vão do ouro ao diamante, o Vale do Jequitinhonha reencontra-se no centro de uma disputa global. De acordo com Rafael Barros, o diretor do CNFCP, o trabalho de Isis Medeiros é fundamental sob vários aspectos. “É um trabalho sensível, possível de ser realizado graças à cumplicidade e proximidade entre a artista e as comunidades tradicionais do Vale do Jequitinhonha. Essas comunidades enfrentam a sanha predatória da exploração do lítio, que fere de morte os seus saberes e seus conhecimentos, além de sua dinâmica existencial inserida nesse território, de valor imensurável para a cultura popular brasileira”, enfatiza.

A realização da exposição “Zona de Sacrifício: do ouro ao pó” conta com apoio do Instituto Federal Norte de Minas Gerais, Cáritas Diocesana Araçuaí, Instituto Camila e Luiz Taliberti, Movimento pela Soberania Popular na Mineração, Observatório da Mineração, cosmopolíticas, Associação de Amigos do Museu de Folclore Edison Carneiro, Artmosphere e Fundação Nacional de Artes.

Zona de Sacrifício: do ouro do pó – Fotografias de Isis Medeiros - Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular – Rua do Catete, 179 | Galeria Mestre Vitalino. Visitação: até 1º de novembro de 2026. Terça a sexta-feira, das 10h às 18h. Sábados, domingos e feriados, das 11h às 17h. Grátis.

 

Nessa quinta (2), dia da abertura da mostra, foi apresentado o doc "Chico", que acompanha a realidade na vida dos moradores a partir da rotina do ativista que vive em Piauí Poço das Antas, em Itinga. Chico tem 25 anos, sofreu um AVC na pandemia de Covid-19, hoje é aposentado por invalidez e participa da luta pela defesa da vida no lugar. Chico estará nesta sexta-feira (3) no CNFCP

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