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João Paulo Lorenzon: dose dupla no Festival de Avignon

Pela primeira vez, um artista brasileiro ocupa o maior festival de teatro do mundo assinando o protagonismo de um espetáculo dirigido por Denise Stoklos e Alessandra Maestrini e a direção de outro espetáculo em uma mesma edição

Por CADERNO B
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Publicado em 26/06/2026 às 21:09

Alterado em 26/06/2026 às 21:19

João Paulo Lorenzon Foto: divulgação

Em julho de 2026, como ocorre tradicionalmente há quase oito décadas, o cenário teatral internacional converge para o sul da França, para mais uma edição do Festival de Avignon. No entanto, para a cultura brasileira, esta edição carrega um peso histórico particular: o retorno de João Paulo Lorenzon.

Dez anos após ser aclamado pela crítica europeia por sua performance em "Nijinsky- Minha loucura é o amor da humanidade", o ator e diretor brasileiro volta ao Festival de Avignon estabelecendo um marco inédito: será o primeiro artista do país a figurar em uma mesma edição do festival como protagonista de uma obra e diretor de outra.

Um ponto central deste marco é o papel de João Paulo como autor. Ele assina a dramaturgia dos dois espetáculos que levam a bandeira do Brasil ao festival: o solo "Nietzsche – Do cavalo nada sabemos, escrito em parceria com a psicanalista Renata Zambonelli, e "Nunca se tem tanta força como quando não se tem força nenhuma", texto de sua autoria exclusiva, interpretado por Julia Setubal.

Essa jornada de três décadas na cena é, para Lorenzon, a continuidade de um diálogo iniciado na infância. "O teatro recupera o que foi perdido", define o artista, que credita sua sensibilidade à memória da avó. Para ele, atuar e dirigir são faces da mesma moeda: "É a mesma conversa conduzida dos dois lados ao mesmo tempo: aquele que recebe e aquele que estende a mão".

Sinopse: O enigma de Turim como ponto de partida
Nietzsche, do cavalo nada sabemos toma como ponto de partida a enigmática cena da vida de Nietzsche, em que o filósofo se depara com um cavalo sendo espancado por seu cocheiro, se atira sobre o pescoço do animal, e depois cai adoentado e silencioso.

Decupando os elementos deste encontro avassalador, a montagem se embrenha pelas profundezas da alma humana, em um trabalho de dissecação das estruturas da violência, da destruição, da culpa e do desejo de reparação.

Incontornavelmente, a trama nos coloca no centro da difícil questão que nos assola ao habitarmos um mundo em despedaçamento: a melancolia pelo nosso equívoco fundamental - a cisão entre natureza e cultura, ou o despertar para a tarefa de liberar a vida ali onde ela é prisioneira da loucura humana, de inventarmos novos jeitos para viver e morrer junto com tudo o que existe.
Salve o cavalo. Salve o cavalo.

Niilismo e Antropoceno
A participação de Renata Zambonelli foi fundamental para que a cena original de 1889 ganhasse uma dimensão universal e contemporânea. Em colaboração com Lorenzon, a psicanalista expandiu a narrativa para além da biografia filosófica, transformando o colapso de Nietzsche em uma discussão sobre o Antropoceno — a era em que o impacto humano ameaça a habitabilidade do planeta.

"Nós transpomos essa cena para o presente para falar da travessia do niilismo. Hoje, muitos jovens sofrem de uma 'ansiedade climática', uma completa impotência diante da extinção que se anuncia", explica Renata.

Para a dramaturga, a cena do cavalo é o estopim para debater a "melancolia pelo nosso equívoco fundamental": a separação entre natureza e cultura. "A ideia é que a peça ofereça uma saída, permitindo que o homem saia da culpa neurótica e da posição de dominador para, finalmente, enxergar o 'outro' e se ver misturado a tudo o que existe", completa.

De Dostoiévski a Donna Haraway
Zambonelli trouxe referências que ajudaram a materializar essa discussão, como o filme "O cavalo de Turim", do cineasta Béla Tarr, que coloca a cena de Nitzsche em relação com o fim do mundo; o filme polonês Eo, de Jerzy Skolimowski, que narra a destruição sob a ótica de um animal, e o conceito de "homem do subsolo" de Dostoiévski, um personagem paradoxal caracterizado pela amargura, isolamento social e excesso de autoconsciência. Contudo, a maior influência é a da bióloga e filósofa Donna Haraway. Expoente do pensamento contemporâneo, Haraway propõe que humanos e animais aprendam a "viver e morrer juntos" em um planeta ferido.

"A influência da Haraway radicaliza a dimensão política da peça. Ela nos convida a habitar as zonas de fronteira entre as espécies", afirma Renata. Essa provocação inspirou o objeto cenográfico central: uma estrutura inflável e amorfa que remete a águas-vivas e formas orgânicas primordiais, produzindo um jogo de fusão e separação entre o homem e a terra.

O cavalo que eu quiser
A evolução do texto final passou por um diálogo profundo entre gerações. O material inicial enviado por Denise Stoklos era uma obra vasta e necessária, que mapeava as diversas faces da opressão ao fazer com que grupos historicamente oprimidos - mulheres, indígenas e negros - pudessem estar representados pelo cavalo. Era um inventário das dores do mundo. João Paulo Lorenzon levou a metáfora a operar de forma ainda mais aberta, permitindo ao espectador deslocamentos infinitos.

"Eu retirei essas palavras que fechavam o sentido porque quero que a pessoa imagine o cavalo que ela quiser", revela João Paulo. "O texto da Denise é uma base poderosa que aponta para todas as feridas da dominação. Ao torná-lo mais abstrato em cena, permito que o espectador projete ali o seu próprio dilema — seja ele o racismo, uma relação abusiva ou a destruição ambiental. Queremos que cada um encontre sua própria emoção".

No palco, Lorenzon manifesta essa liberdade através do que chama de corpo cindido. Não se trata de uma figura retórica, mas de uma realidade visceral: "Um braço bate, o outro implora que pare. Um lado sente o prazer da força, o outro se horroriza com esse prazer. As costas ardem com o chicote, mas é o ombro de quem bate que se contunde", explica o ator. A técnica revela que a violência não é exterior ao homem, mas atravessa o mesmo corpo que deseja a paz.

A direção conjunta: sinergia de estilos
A direção do espetáculo é assinada por duas forças distintas: a mestre do Teatro Essencial, Denise Stoklos, e a versatilidade de Alessandra Maestrini. Esse encontro provocou em Lorenzon um estado de alerta constante, resultando em um trabalho que ele define como uma homenagem profunda à mestra.
"Esse trabalho é uma homenagem ao trabalho corpóreo da Denise. O tempo inteiro meu corpo estava dialogando com tudo o que eu vi e lembrava do corpo dela. A direção dela foi a presença energética e enérgica, a minha possibilidade de honrar esse corpo vivo em cena", conta João Paulo. Sobre a parceria com Maestrini, o ator destaca a sensibilidade emocional: "A Alessandra trouxe as cores das emoções, os tons dos sons da palavra e as cores das emoções possíveis dentro das minhas limitações. Foi um encontro muito forte".

Essa percepção é mútua. Alessandra Maestrini descreve a peça como uma "carta de amor" de João para Denise e para a humanidade, focada na manutenção da delicadeza diante da violência. Foi dela a imagem do Coliseu: "O público é sugado para dentro dessa arena. Quando o João se chicoteia, vemos alguém se oferecendo em sacrifício. Você acaba encontrando seus próprios 'leões' internos".

Denise Stoklos destaca que o processo foi de interlocução e lapidação: "Tem sido um processo de acompanhar o crescimento dele, desde a interlocução com os criadores até ensaios particulares onde ele capta as provocações e as transforma em sua própria maneira de fazer teatro".

Para ela, o rigor da montagem serve para garantir que nada atrapalhe a potência do ator: "A iluminação e o figurino não podem atrapalhar essa força. É uma curadoria de intenções, onde o essencial é a potência do corpo vivo".

Maestrini também pontua a importância da musicalidade e da vibração constante: "O público sente quando o ator não dá tudo de si. Mesmo que o espectador não saiba o porquê, ele percebe se a 'chama' está viva. Direção, para nós, é garantir que essa vibração esteja presente em cada segundo".

Vontade de potência e redenção
Juntas, as diretoras provocaram Lorenzon a explorar o contraste entre a "vontade de potência" nietzschiana e a destruição. O espetáculo não foge das sombras do filósofo, incluindo suas contradições e pensamentos elitistas, usando-os como espelho para a violência que combatemos hoje.

Ao final, a peça propõe uma saída pela delicadeza e pela fusão. Ao reconhecer sua própria "idiotia" diante da crueldade contra o animal, o personagem transmuta a força bruta em consciência. "O cavalo voando no final convida o espectador a ser o máximo de si, a ser potente, sem precisar destruir ninguém", conclui João Paulo Lorenzon. O resultado é uma obra aberta, que se recusa a oferecer respostas prontas, permitindo que cada espectador saia do teatro com sua própria síntese emocional e uma leitura particular sobre os abismos e as belezas da existência humana.

O berço da vanguarda: Festival de Avignon
Fundado em 1947 por Jean Vilar, o Festival de Avignon nasceu no Pátio de Honra do Palácio dos Papas. Desde sua origem, a programação propõe simultaneamente obras desconhecidas do repertório universal e textos contemporâneos — uma tradição de ousadia que João Paulo Lorenzon agora honra como autor, diretor e ator.

FICHA TÉCNICA
Direção: Denise Stoklos e Alessandra Maestrini
Dramaturgia: Renata Zambonelli e João Paulo Lorenzon
Atuação: João Paulo Lorenzon
Desenho de luz: Wagner Freire
Objeto cenográfico: Dominic Kiessling
Figurino: Leandro Castro
Preparação contínua do ator: Isabel Setti
Preparação corporal: Toshiko Oiwa
Preparação Circense: Kiko Caldas
Direção de movimento chicote: Karina Bredariol
Preparação física: Leandro Marques
Identidade visual, fotografia e vídeo: Maurizio Mancioli
Direção de produção: Deco Gedeon
Produção Associada e Assessoria Jurídica: Raul Mahfuz
Diretriz de produções internacionais: Julia Gomes
Assessoria de Imprensa: Maurício Barreira e Leonardo Pichonelli - Vira Comunicação

SERVIÇO
Espetáculo: Nietzsche – Do Cavalo Nada Sabemos
Período: 04 a 25 de julho de 2026 - dias pares - 11 apresentações
Duração: 50 minutos
Local: Théâtre LaScierie
15 Boulevard Saint-Lazare
Festival d’Avignon Off 2026, Avignon, França

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