CADERNO B
Cia PeQuod abraça dança e expõe erotismo em novo trabalho
Por CADERNO B
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Publicado em 09/04/2026 às 12:32
Alterado em 09/04/2026 às 12:32
À frente da PeQuod há 26 anos, Miguel Vellinho investiga limites em montagem performática no Sesc Copacabana Foto: Renato Mangolin
Mora na filosofia e na dança a base de “O Desejo”, 15º espetáculo teatral que a Cia PeQuod - Teatro de Animação estreou no Rio de Janeiro nessa quinta-feira (9), no Mezanino do Sesc Copacabana. O premiado coletivo chega aos 26 anos de trabalho continuado, sob a direção de Miguel Vellinho, despido de pudores, com e sem bonecos. “O Desejo” convida o público a contemplar a montagem com sensibilidade em primeiro plano.
Conduzida por texturas de erotismo e movimento, a peça teatral apresenta o consagrado bailarino e coreógrafo Bruno Cezario pela primeira vez como ator-manipulador. Esta é a segunda vez que a PeQuod abraça a dança. Antes, em 2014, convidou vários coreógrafos para criarem partituras para os bonecos em “Peh Quo Deux”, sucesso de crítica e público e representante do Brasil no festival de Charleville Mezières, na França.
“Agora, a PeQuod se lança num lugar de desafio e experimentação bem diferente. Porque ‘O Desejo’ tem um fundo mais radical. Até então, montamos textos adaptados da literatura. Ao falar do desejo de forma psicanalítica ou filosófica, temos mais perguntas do que respostas”, pondera o diretor Miguel Vellinho. Entre as obras de referência na pesquisa para a montagem está o livro “A agonia do Eros”, do filósofo coreano Byung-Chul Han.
“O Desejo” traz participações inéditas, dentro e fora de cena. Além do exuberante bailarino e coreógrafo Bruno Cezario, que se une ao elenco premiado formado por Caio Cesar Passos, Diego Diener, Liliane Xavier, Márcio Nascimento e Mariana Fausto, quem chega também é o músico Federico Puppi, autor da trilha original que conduz o segundo ato.
A atriz e cantora Simone Mazzer tem lugar especial no conjunto da obra. É que “O Desejo” não tem texto. A única exceção é o off em que Simone lê um poema, com sua interpretação inconfundível.
Três quadros, dois atos
O espetáculo começa com o quadro “SBFN2025”, criado, coreografado e dirigido por Miguel Vellinho, com dois bonecos memoráveis. Sonho antigo do diretor, o inesquecível vampiro de “Sangue Bom” (1999) tem um encontro ardente com a personagem Verônica De Vitta, do espetáculo “Filme Noir”, um dos grandes sucessos da PeQuod. Vale lembrar que “Filme Noir” inaugurou o mezanino do Sesc Copacabana nos idos de 2004.
O segundo quadro é inspirado no balé “L’après-midi d’un faune”, de Vaslav Nijinsky (1890-1950), que causou furor ao estrear em 1912. Uma versão com dois bonecos, do Fauno e da Ninfa, mostra através da dança o envolvimento e a sedução entre os personagens. Esse balé é um capítulo à parte na história profissional de Bruno Cezario, que interpretou o papel principal três vezes. Faz 30 anos que dançou o Fauno pela primeira vez no Theatro Municipal. Tinha apenas 16 anos. Ali, sob o olhar atento de Dona Tatiana Leskova, chama atenção dela e de outros coreógrafos por seu rigor como intérprete. Já adulto e consagrado por seu trabalho em grandes companhias da Europa, Bruno Cezario pela terceira vez dançou o Fauno no centenário da obra, aclamado por todos.
“Dona Tatiana me concedeu um documento oficial. Diz que estou capacitado para a remontagem de futuras temporadas do L’après-midi d’un faune pela minha experiência e, segundo ela, entendimento da obra em sua totalidade. E eu me senti muito honrado. Inclusive, o próprio Miguel Vellinho me viu naquela versão do centenário”, conta o artista que, na atualidade, é performer, artista visual, figurinista e diretor musical.
Ao dirigir essa montagem, com os bonecos do Fauno e da Ninfa, Bruno enxerga novas perspectivas. “Hoje, revisitá-lo me possibilita também poder ‘brincar’ com ele e, ao mesmo tempo, fazer dessa uma de minhas versões. O Fauno está um adolescente! Assim como eu quando o estreei. É sapeca e doce. E seus desejos de prazer são inocentes e inofensivos. Me concentrei em uma única Ninfa, também doce, de porcelana! E que foge dele, de bochechas vermelhas. Tampouco ela também conhece o amor”, define.
O terceiro quadro de “O Desejo”, homônimo ao título do espetáculo, leva a PeQuod a investigar as possibilidades do hibridismo. Os atores-manipuladores lançam-se ao movimento, literalmente, sem bonecos. Outros elementos evocam o teatro de animação. O quadro é dirigido por Miguel Vellinho e Bruno Cezario.
”Me agrada a ideia de trabalhar com esses temas, por mais difíceis que possam ser nossas respostas artísticas a respeito. O que é possível dizer é que ‘O Desejo’ renova o vigor de todos. Todo o elenco se entrega e não há zona de conforto”, ressalta o diretor Miguel Vellinho.
Figura central na PeQuod, a atriz e produtora Liliane Xavier afirma que “O Desejo” traz expansões na linguagem e na própria vivência da companhia. O projeto teve início em 2024 com o edital Rumos Itaú Cultural. “Após a criação do espetáculo ‘O Braille’, surgiu a ideia de retornar ao trabalho com a dança. Porém, a pandemia fez com que a gente ressignificasse aspectos da nossa história”, conta. O Rumos Itaú Cultural contemplou boa parte do processo de pesquisa. “Há um compromisso que faz com que a gente se desafie no trabalho sempre. Por outro lado, estar em coletivo requer generosidade de entender o pensamento de todo o grupo”, completa Liliane Xavier.
'O Desejo' | Ficha técnica
Direção artística: Miguel Vellinho
Coreógrafos: Bruno Cezario - L'après-midi d'un Faune
Miguel Vellinho – SBFN2025
Bruno Cezario e Miguel Vellinho – O Desejo
Elenco: Bruno Cezario, Caio Cesar Passos, Diego Diener, Liliane Xavier, Márcio Nascimento, Mariana Fausto
Voz off: Simone Mazzer | Cenário: Doris Rollemberg
Figurinos Ato I: Kika de Medina
Figurinos Ato II: Bruno Cezario e Kika de Medina
Iluminação: Renato Machado | Músicas: Mica Levi, Claude Debussy e Federico Puppi | Escultura dos bonecos: Liliane Xavier, Gabriela Bardy, Bernardo Macedo e Flávia Vitralli | Confecção de bonecos e objetos de cena: Bruno Cezario, Caio Passos, Clayton Diir, Diego Diener, Liliane Xavier, Miguel Vellinho, Thaísa Violante | Confecção do habitável: Junior Alexandre, Matheus Oliveira (Aramados Art & Cia), William da Espuma e Barbara Quadros
Programação visual: Roberta de Freitas | Fotos: Renato Mangolin
Filmagem: Zhai Sichen | Assessoria de Imprensa: Mônica Riani
Assessoria das mídias sociais: Rafael Teixeira | Audiodescrição: Graciela Pozzobon | Operação de Som: Gabriel Matriciano Reis | Operação de luz: Leandro Barreto | Contrarregra: Divany de Souza | Montagem de luz: Anderson Bispo, Lucio Bragança e Rodrigo Mello | Montagem de cenário: Altair Oliveira, Beto Almeida, Jorge Marinho do Nascimento, Milton Rodrigo de Souza Rego e Uirá Clemente | Costura cênica: Nice Tramontin | Estagiário PeQuod: João Zangrandi | Direção de produção: Maria Alice Silvério | Produção executiva: Attos Sacramento | Coordenação do projeto: Lilian Bertin | Idealização e realização: Cia. PeQuod – Teatro de Animação
Serviço: O Desejo | Temporada: De quinta a domingo, sempre às 20h30. Duração: 60 min
Até 3 de maio de 2026 | Local: Mezanino do Sesc Copacabana – Rua Domingos Ferreira, 160. Copacabana – RJ – RJ | Tel. 21 3180.5226
Ingressos: R$ 10 (associado do Sesc), R$ 15 (meia-entrada), R$ 30 (inteira)
Bilheteria - Horário de funcionamento: Terça a sexta - das 9h às 20h | Sábados, domingos e feriados - das 14h às 20h | Classificação indicativa: 18 anos |
Vendas on-line pelo site: ingresso.com
O espetáculo “O Desejo” faz parte da programação de temporadas do Edital de Cultura RJ Pulsar 2025/2026
“O Desejo” é realizado através do Edital de Cultura Sesc RJ Pulsar. A temporada é de quinta a domingo, às 20h30, até 3 de maio. Sessão com audiodescrição ocorre dia 24 de abril. Excepcionalmente, não haverá espetáculo dia 2 de maio. A sessão extra está prevista para 22 de abril, às 20h30.