CADERNO B

Cinema sem medo

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Por MARCOZ GOMEZ

Publicado em 28/01/2026 às 11:27

Alterado em 28/01/2026 às 11:27

Marcoz Gomez entre Alex Reis e o ator Humberto Martins na gravação do longa-metragem 'Não olhe pra trás' Foto: Carol Bravim

O cinema independente brasileiro nasce, historicamente, como gesto de enfrentamento e afirmação artística. Poucos sintetizaram essa ideia com tanta força quanto Glauber Rocha, que defendia com unhas e dentes um cinema livre das amarras industriais e estrangeiras. Sua frase mais emblemática — “uma ideia na cabeça e uma câmera na mão” — tornou-se não apenas um lema, mas uma filosofia que atravessa gerações de realizadores. Mais do que um método, tratava-se de uma postura: filmar apesar das limitações, transformar urgência em linguagem e fazer do cinema um ato de pensamento.

Décadas depois, essa ideia permanece atual. Em um país marcado por instabilidade econômica, descontinuidade de políticas públicas e concentração de recursos, a produção cinematográfica independente não apenas resiste — ela se reinventa. É nesse território que surgem obras autorais, narrativas sensíveis e olhares comprometidos com a complexidade humana e social do Brasil.

Mais do que uma alternativa às grandes produções, o cinema independente se consolida como um espaço de liberdade criativa, onde o realizador participa ativamente de todas as etapas do processo, do desenvolvimento do roteiro à circulação em festivais. Essa proximidade com a obra resulta em filmes que assumem riscos estéticos e narrativos, distanciando-se de fórmulas comerciais e aproximando-se de uma linguagem pessoal e reflexiva.

Ao longo dessa trajetória, a produção independente também se constrói por meio de parcerias duradouras, baseadas em confiança artística e visão compartilhada. A parceria se estabeleceu como um diálogo permanente sobre linguagem, dramaturgia e caminhos possíveis para o cinema autoral brasileiro.
Historicamente, o cinema independente brasileiro foi responsável por revelar novas linguagens, provocar debates e registrar transformações sociais que muitas vezes escapam ao cinema industrial. Ao trabalhar com estruturas enxutas, equipes reduzidas e orçamentos limitados, o realizador independente transforma a restrição em elemento criativo, explorando o silêncio, o subtexto e a construção psicológica dos personagens.

A defesa do cinema independente segue ecoando nas falas de cineastas contemporâneos. Recentemente, ao discursar no Globo de Ouro, numa das maiores premiações internacionais do audiovisual, Kleber Mendonça Filho destacou a importância de os jovens realizadores fazerem cinema sem medo, ressaltando que filmes podem — e devem — nascer do desejo, da inquietação e da necessidade de expressão, mesmo sem grandes estruturas ou orçamentos milionários.

Essa fala dialoga diretamente com o legado de Glauber Rocha e com a prática cotidiana de quem faz cinema independente no Brasil hoje: criar apesar das dificuldades, insistir na autoria e compreender o cinema como espaço de liberdade e pensamento.

A trajetória do cinema independente não se encerra na realização do filme. A circulação em festivais desempenha papel fundamental na formação de público, no diálogo entre realizadores e na descentralização do acesso à cultura. Iniciativas fora do eixo dos grandes centros contribuem para ampliar o mapa audiovisual brasileiro e fortalecer identidades regionais.

Fazer cinema independente no Brasil é, acima de tudo, um exercício de permanência. Exige adaptação, parceria, escuta e convicção artística. Da frase de Glauber Rocha às palavras de incentivo de Kleber Mendonça Filho, passando por trajetórias construídas fora do circuito industrial, o cinema independente segue como um campo vital de criação.

Em um tempo marcado pela velocidade e pela simplificação dos discursos, o cinema autoral continua oferecendo pausa, profundidade e reflexão — qualidades essenciais para a construção de um audiovisual plural, crítico e duradouro.

Marcoz Gomez é cineasta.

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