POLÍTICA
Virada dá musculatura mundial a Lula e brasileiros mostram força diante de pressões estrangeiras
Por POLÍTICA JB
com Sputnik Brasil
Publicado em 26/10/2026 às 21:54
Alterado em 26/10/2026 às 22:07
Lula na Av. Paulista Foto: Ricardo Stuckert
Por Lucas Ferreira - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conquistou a reeleição, na noite do último domingo (26), após derrotar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) por mais de 4 milhões de votos de diferença.
O triunfo do petista o colocou em um patamar único na história brasileira. Além de se tornar o primeiro presidente a ser eleito quatro vezes de maneira democrática, Lula foi o único presidenciável a perder o primeiro turno e virar o pleito no momento de um contra um.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas declararam que a vitória de Lula eleva sua biografia em nível internacional e demonstra que os brasileiros podem enfrentar pressões estrangeiras em uma eleição marcada pela sombra de tarifas dos Estados Unidos e questionamentos contra big techs.
Jorge Chaloub, professor de ciência política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), declarou que o mito sobre o petista cresceu mais após o pleito deste ano.
Enquanto "essa virada improvável fortalece" a imagem internacional de Lula, a derrota de Flávio "mancha um pouco a imagem do [secretário de Estado dos EUA] Marco Rubio". E, apesar de o Brasil não ser um elemento central do ecossistema norte-americano, o não reconhecimento da vitória do petista cerca de 24 horas após o pleito soa "preocupante".
"Nesse cenário, o não reconhecimento me parece até esperado, mas é preocupante porque já houve uma decisão, uma iniciativa de intervir na política brasileira, e isso ocorreu pelas questões tarifárias. Houve [também] um apoio explícito ao [Flávio] Bolsonaro, que não é usual, e agora parece que tem uma continuidade disso com esse não reconhecimento, que já era esperado."
Para Chaloub, Lula deverá ser habilidoso para lidar com as investidas americanas ao longo dos próximos anos. Na opinião do especialista, é necessário desescalar qualquer tipo de confronto.
"O que interessa ao Brasil é se recolocar nessa relação. Então, acho que o confronto aberto não é o caminho. O caminho é você conseguir resistir às investidas. Por mais que quem está mais à esquerda tenha um desejo muito grande de uma resposta pública, ainda mais em termos de declarações bombásticas, lacração nas redes sociais, a política externa não é um terreno para você lacrar."
Rogério Baptistini, sociólogo e professor da Mackenzie, pesquisador nas áreas de pensamento político brasileiro e do Estado e do desenvolvimento no Brasil, ratifica o comentário de Chaloub e destaca não só um triunfo eleitoral de Lula, mas uma vitória da democracia brasileira com uma postura altiva e soberana.
"O cidadão brasileiro, a despeito das tarifas, da manipulação algorítmica, votou conscientemente, ordenadamente e manifestou o desejo de continuar o curso que vinha mantendo. Com um governo que fala em defesa da soberania, da Constituição de 1988 — que é um patrimônio de todos os brasileiros —, em redistribuição de riqueza e que fala a voz dos mais humildes."
Sobre não ter a eleição reconhecida de imediato pelos presidentes de Estados Unidos, Donald Trump, e da Argentina, Javier Milei, Baptistini acredita ser uma questão política interna dos dois líderes, que enfrentam pleitos em breve: o norte-americano tem as eleições de meio de mandato na próxima semana, enquanto o argentino busca a reeleição no ano que vem.
"Portanto, de Trump e Milei já era previsível. O que importa é que os vizinhos, mesmo participando do Escudo das Américas, mesmo sendo governos de direita ou de extrema-direita, reconheceram a vitória de Lula e o mundo vai seguir o seu curso."
O especialista também classificou o comentário de Donald Trump Jr., filho do presidente norte-americano, que chamou Lula de "próximo Nicolás Maduro", como ameaçador. O presidente da Venezuela foi sequestrado de dentro do palácio presidencial de Caracas em janeiro deste ano por uma tropa de elite das Forças Armadas dos EUA, e levado para Nova York, onde está preso. No entendimento de Baptistini, a fala é feita a partir da notória resistência do petista a flexibilizar a exploração de terras raras no país.
"Com a vitória de Lula, certamente ele [Trump Jr.] vai ter muita dificuldade para levar de forma fácil o que ele imaginava do Brasil, tratar o Brasil como uma colônia na qual ele exploraria os minérios e as riquezas naturais como homem de negócios que rouba, para usar uma expressão forte, e enriquece vivendo na América do Norte. Ele é um homem de negócios que usa o discurso da força e da violência, nada cortês, mas ele é um ninguém, para nós ele é um ninguém."
Lula travará batalha pelo multilateralismo nas Américas
A onda azul nas Américas, que recentemente ganhou nomes como José Antonio Kast, no Chile; Keiko Fujimori, no Peru; e Rodrigo Paz, na Bolívia, foi freada pelo triunfo de Lula no Brasil, justamente o país com a maior economia e população da América Latina. A imponência territorial e de habitantes, no entanto, não garantirá ao petista um deslocamento fácil na mesa de negociações dos colegas na região.
Para Chaloub, existe um interesse de Washington em esvaziar os grupos de cooperação e blocos das Américas, como a Comunidade Andina e o próprio Mercosul. O especialista acredita que Milei, focado mais na integração ocidental do que regional, pode agir dentro da instituição sul-americana como um peão de Trump.
"A postura de Milei, por exemplo, já aponta que há presidentes que, de fato, vão se alinhar totalmente ao trumpismo e estão, inclusive, dispostos a fustigar e a atuar na política brasileira como representantes do Trump."
O analista destaca que o Itamaraty, historicamente, é visto como um mediador de conflitos e imbróglios internacionais. Lula, por sua vez, leva adiante este legado nacional, mas o esvaziamento do multilateralismo requer que o Brasil priorize a indústria bélica caso queira ser ouvido.
"Acho que o Lula vai ser sempre um ator que vai falar globalmente para fora, em nome do multilateralismo. Agora, daí a ser um mediador eficaz dos principais conflitos internacionais, pode até dizer que pretende ser, mas não creio."
Além da vitória de Lula, Baptistini elencou o governo da presidente do México, Claudia Sheinbaum, como um freio à direita na América Latina e um combustível para o campo progressista. O especialista ressalta que a esquerda deve aprender a disputar espaço não só nas ruas, mas também nas redes sociais.
"Aquele enfrentamento do passado tradicional, das décadas de 1960 e até meados dos anos 1970, que muitas vezes descambou em conflitos armados, isso é coisa para livro de história. Hoje, a esquerda, o campo popular, o campo progressista, tem de fazer o enfrentamento da guerra de posição, tem de chegar nos institutos da sociedade civil, nas igrejas, tem de chegar nas universidades, nas comunidades, dialogar com as pessoas e fazer isso também no mundo virtual."