POLÍTICA

Jovens se afastam dos partidos e mudam relação com a política

Entenda por que a nova geração continua interessada em temas públicos, mas rejeita a filiação partidária

Por POLÍTICA JB
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Publicado em 20/07/2026 às 07:01

Alterado em 20/07/2026 às 08:28

O presidente Lula com jovens do PT Foto: PT

A estudante Sophia Macedo, de 22 anos, resume sua visão com um verso de Wislawa Szymborska: “Somos filhos da época, e a época é política”. O interesse pela vida pública apareceu cedo, quando ela participou do programa Vereador Jovem, em Vassouras (RJ), e passou a acompanhar mais de perto os assuntos da cidade. Ainda assim, Sophia afirma que não pretende se filiar a um partido.

O caso dela ajuda a ilustrar uma mudança maior no comportamento da juventude brasileira. Dados levantados pelo cientista político Murilo Medeiros, da UnB, mostram que a filiação de pessoas entre 16 e 34 anos caiu 54% entre 2010 e 2026. No período, os partidos perderam quase 1,5 milhão de jovens em seus quadros, num dos mais fortes esvaziamentos da militância desde a redemocratização.

Polarização, desconfiança e rejeição ao rótulo partidário

Para Sophia, a polarização transformou os partidos em algo parecido com torcidas de futebol, em que a defesa da sigla muitas vezes vem antes do debate. Ela diz enxergar a filiação como um rótulo que atrapalha o diálogo e faz com que o outro a julgue antes mesmo de conhecê-la.

A paulistana Laura Malaquias, também de 22 anos, compartilha essa percepção. Embora tenha menos vínculo com a política institucional, ela avalia que escolher um partido hoje pode significar abrir mão da liberdade de circular entre ideias diferentes. Em muitas eleições, chegou a votar nulo, mas ainda assim critica o modo como as legendas se apresentam aos jovens.

Laura afirma que o contato com a política costuma vir por notícias de corrupção e escândalos, o que reforça sua desconfiança. Na avaliação dela, os partidos deveriam olhar mais para pautas que afetem diretamente a vida das novas gerações e apostar em lideranças capazes de conversar com esse público.

Partidos burocráticos e pouco conectados com a juventude

Renato Dorgan, do instituto Travessia, afirma que os partidos já não conseguem criar identificação com os jovens. Em sua avaliação, há uma descrença generalizada na política convencional e uma sensação de que “está tudo errado”, o que alimenta visões antissistema. Entre as poucas siglas com maior apelo, ele cita PSOL, Novo e Missão.

Murilo Medeiros avalia que o problema também está na estrutura das legendas, ainda marcada por um funcionamento burocrático e pouco adaptado ao cotidiano de uma geração digital. Para ele, muitos partidos funcionam como cartórios, com pouca vida orgânica, baixa renovação de lideranças e pouca capacidade de dialogar com os novos repertórios da juventude.

Casos individuais e tentativas de reação das legendas

O economista Gabriel Cassiano, hoje com 29 anos, é outro exemplo de afastamento. Depois de disputar eleições e elaborar um programa de governo com forte respaldo acadêmico, ele desistiu de voltar às urnas. Diz que os partidos no Brasil têm uma estrutura viciada e anacrônica, que não oferece respostas concretas para temas como emprego, moradia e o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho.

Segundo o levantamento de Medeiros, entre junho de 2022 e junho deste ano, as legendas perderam 419 mil filiados jovens. Na contramão, PL, Novo, PSOL e Rede cresceram entre esse público, especialmente por terem identidade ideológica mais clara e comunicação digital mais eficiente. Diante do cenário, o MDB decidiu reservar ao menos 1% do Fundo Especial de Financiamento de Campanha para candidaturas de pessoas entre 18 e 34 anos nas eleições deste ano. (com informações da Agência Estado)

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