ARTIGOS
A saída do bolsonarismo
Por JEAN PAUL PRATES
Publicado em 31/10/2026 às 14:51
Alterado em 31/10/2026 às 14:52
A fuga de Flávio Bolsonaro oferece uma saída honrosa a quem ainda permanece no bolsonarismo: abandoná-lo. A direita brasileira tem agora uma oportunidade de recuperar sua autonomia, organizar propostas e exercer oposição sem subordinar o país aos interesses de uma família.
Flávio afirmou que permaneceria no Brasil e lideraria a oposição. Pouco depois, apareceu desembarcando em Miami. A Polícia Federal informou que ele descumpriu a determinação de entregar eventuais passaportes estrangeiros e que não havia registro de sua saída pelos controles migratórios brasileiros.
A distância entre a bravata pública e a conduta pessoal ficou documentada.
Veio então a carta em que se apresentou como “presidente eleito”, expressão posteriormente substituída por “líder”. A Presidência imaginária durou menos que a repercussão do documento. Há pusilanimidade em prometer enfrentar a realidade e partir; desfaçatez em reivindicar uma vitória que as urnas negaram; e falta de inteligência estratégica em supor que uma autoproclamação no exterior substituiria legitimidade política no Brasil.
A aventura também começou a cobrar seu preço internacional. Democratas americanos criticaram o acolhimento concedido por Trump. Na Argentina, opositores exigiram explicações sobre a participação do governo Milei. Na Itália, Angelo Bonelli questionou a concessão da cidadania aos Bolsonaro.
Flávio conseguiu transformar sua conveniência pessoal em constrangimento para governos amigos.
Segundo a Reuters, Marco Rubio recomendou sua admissão nos Estados Unidos, aprovada por Trump. A mesma agência informa que Washington não planeja apoiar sua pretensão de governar o Brasil. Eis o limite de uma estratégia que entrega a terceiros a decisão sobre o próprio futuro e ainda pretende falar em soberania nacional.
Conheço por dentro o trabalho de oposição. No Senado, inclusive como líder da Minoria, enfrentei o governo Bolsonaro preservando o contraditório e o diálogo entre esquerda e direita. Denunciar seus absurdos exigia estudo, presença e disposição para o confronto democrático. Também exigia reconhecer interlocutores legítimos entre aqueles que pensavam diferente. Estavam em jogo vidas durante a Covid, a proteção da Amazônia, a educação, a saúde, a segurança, a inclusão e os rumos da economia. Quando o óleo atingiu nossas praias, cobrei respostas e acompanhei o sofrimento de comunidades que dependiam do mar. A política precisava estar onde estavam os problemas.
Aprendi no Senado que liderar uma oposição é permanecer, fiscalizar, propor e responder pelo que se diz.
Por isso, a ruptura que interessa agora precisa alcançar o método bolsonarista: a fabricação permanente de inimigos, o desprezo pelo conhecimento, a intimidação institucional e a recusa em aceitar limites. Trocar de sobrenome mantendo essas práticas apenas prolongaria o mesmo impasse.
Já existem sinais de afastamento. O PL reconheceu o resultado eleitoral. Tarcísio de Freitas defendeu seu respeito, e outros aliados rejeitaram a aventura da autoproclamação. Essas manifestações ainda convivem com lealdades e ambiguidades, mas abrem espaço para uma escolha: construir uma direita democrática ou continuar prestando serviços à sobrevivência política do clã.
Conservadores, liberais e eleitores de Flávio têm todo o direito de cobrar o governo, disputar eleições e apresentar alternativas.
O país precisa dessa competição. Lula, por sua vez, terá de reconhecer a amplitude da vitória que recebeu, abrir canais de diálogo e entregar resultados. Uma vitória construída por tantos exige um governo capaz de ouvir muito além dos seus.
Flávio não enterrou sozinho o bolsonarismo. Expôs, porém, o abandono de responsabilidade que existe por trás de sua retórica de coragem. Cabe à sociedade impedir que esse tipo de política encontre apenas um novo porta-voz.
Talvez aí comece uma alvorada brasileira. Podemos chegar a 2030 com candidatos melhores, debates mais exigentes e divergências sustentadas por propostas. Podemos voltar a procurar, nas redes, nos jornais e na televisão, conteúdos densos, construtivos e inteligentes. Essa mudança dependerá também de nós: da atenção que oferecemos, das lideranças que escolhemos e da qualidade que passamos a exigir. O Brasil merece voltar a discutir o seu futuro.