ARTIGOS
Discernimento
Por MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER
Publicado em 16/10/2026 às 10:35
Alterado em 16/10/2026 às 10:35
Entre os mestres que tive em minha já não tão curta vida ocupa lugar de honra certamente Santo Inácio de Loyola. Autor do livro dos Exercícios Espirituais, um clássico da espiritualidade cristã, que tem auxiliado gerações a buscar a vontade de Deus e encontrá-la, Inácio me ensinou o caminho do discernimento espiritual, mas também existencial e social.
Discernimento encontra sua raiz mais primitiva na palavra crise (krisis). Na verdade, se discerne quando há crise, que obscurece os caminhos e impede as decisões rápidas. Discernir é, portanto, olhar, pensar, refletir e decidir em meio à crise, buscando e confiando caminhar em direção à direção Luz.
Comunico por essa razão, que meu discernimento no contexto desse segundo turno das eleições presidenciais no Brasil já está feito. A claridade sobre as duas opções que se tem por diante é tal que só permite o que Santo Inácio de Loyola, autor dos Exercícios Espirituais, chamava sabiamente de primeiro tempo de eleição. Neste parágrafo, o de n 175 da obra inaciana, é dito: O primeiro tempo é quando Deus nosso Senhor move e atrai a vontade de tal modo que, sem duvidar nem poder duvidar, a alma devota segue o que lhe é mostrado.
Diante de um candidato que pretende alterar a Constituição da 1988, ameaçando levar o país de volta à ditadura da qual tanto lhe custou libertar-se e outro que é democrático, defende a liberdade e a inclusão das minorias marginalizadas e das maiorias oprimidas, parece-me que o discernimento é bem claro. A luz divina não me deixa outra opção senão "seguir o que me é mostrado".
Posso entender, no entanto, que outras pessoas não encontrem tanta clareza e facilidade em tomar sua decisão quanto ao voto do dia 25. Experimentam sentimentos desencontrados, ora com relação a um candidato ora ao outro. Incomoda-lhes em um o estilo e a maneira de dirigir-se às pessoas. Além disso, não apreciam as influências que recebeu no passado e continuam no presente. Sentem que apresenta algumas propostas que lhes agrada, mas não acabam de convencer-se que vai realmente cumpri-las, dado o seu passado onde o envolvimento com pessoas e grupos não recomendáveis esteve presente.
Com relação ao outro experimentam rejeição por sua afinidade ideológica. Sempre ouviram dizer que aquela maneira de pensar e agir, inclinando-se em favor dos mais pobres e dando-lhes a prioridade encontrava raízes em ideologias espúrias ou ateias. E apesar de concordar que sua simpatia e seu carisma são inegáveis, não se animam a dar-lhe o voto que continuará com o estilo de governar que já exerce há alguns anos.
Ao pensar em um e outro, sentem-se ora animados com um e desanimados com o outro; ora pacificados com o outro e atemorizados com o primeiro. Estão situados então naquilo que Santo Inácio denomina segundo tempo de eleição: O segundo [tempo é] quando se recebe suficiente clareza e conhecimento por experiência de consolações e desolações e por experiência de discernimento de vários Espíritos.
Movidos em uma e outra direção por esses "espíritos" bons ou maus, necessitam estar atentos às intempéries interiores a fim de poder tomar sua decisão para onde o coração mais os levar. Isso pode levar tempo e a eleição se aproxima. Como pessoas que estão neste segundo tempo necessitam de calma e silencio para poder ponderar bem o que sentem a fim de tomarem uma decisão que as deixará em paz e reconciliadas consigo mesmas.
É possível, no entanto que não tenha lugar nem um nem outro desses estados de animo. Nem a luz brilha fulgurante não deixando lugar a dúvidas; nem os movimentos interiores parecem acontecer, sentindo-se a pessoa mais abatida pelo desânimo e presa de tentações como não ir votar ou anular seu voto ou votar em branco.
A esse eleitor ou eleitora, gostaríamos de pedir insistentemente que não faça isso. Não só de experiências espirituais ou religiosas vive um discernimento importante como escolher um candidato à presidência da República no país. Santo Inácio prevê que isto pode acontecer: a interioridade pode encontrar-se em estado de tranquilidade silenciosa, não parecendo haver movimentos nem em uma direção e nem na outra; não aparecendo luzes especiais sobre uma escolha em lugar da outra.
É o momento da razão, que foi dada pelo Criador a sua criatura, a fim de poder encontrar o caminho em situações como essa. O terceiro tempo de eleição é dito ser “...um tempo tranquilo, quando a alma não é agitada por vários espíritos e usa de suas potências naturais, livre e tranquilamente. “Trata-se então de ponderar, à luz da razão e em plena liberdade, em que direção se encontra a verdade, a paz interior, a serenidade. Mais ainda: em que direção se encontra aquilo que é melhor não apenas para si mesmo, mas para todo um povo que espera e deseja, ansiosamente, tempos melhores e horizontes mais abertos.
É preciso neste momento discernir com olhos e ouvidos atentos ao que dizem os candidatos, mas também e não menos ao que diz o povo, nas ruas, nas praças, nos agrupamentos. É necessário mais que nunca sentir de perto o gosto e o cheiro da vida, fresco e ativo, descortinando um futuro cheio de dinamismo. Ao lado e em contraste com isso, ver, ouvir, cheirar e saborear o odor nauseabundo da morte que leva ao equívoco, à barbárie e ao desespero.
Os sentidos devem ativar a memória de tudo que já foi vivido neste país: da pandemia com seus 700000 mortos, da violência exibindo-se pelas ruas e praças, da juventude idolatrando armas e desprezando escolas. Ao mesmo tempo a memória resgata a pluralidade colorida e inovadora, alegre tomando espaço no mundo do trabalho, na cultura e nas universidades. O movimento da vida frustrando a sanha insaciável da morte e do arbítrio.
A direção a tomar é tão antiga quanto o texto do capítulo 30 do livro do Deuteronômio na Bíblia Hebraica: “... te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência”. Aí está a clareza e a atração da vontade de que falava Santo Inácio em seus modos de eleição: a única clareza é a vida mesmo.
Vida é o outro nome de Deus. Ele não se encontra onde reina a morte. Sendo a fonte da vida, convive com outras obscuridades menos claras e fulgurantes. Mas sempre se revelando como o ardente amante da vida.
Desejo a todos um fecundo discernimento. O Brasil espera e merece.
Maria Clara Bingemer é professora do departamento de teologia da PUC-Rio