ARTIGOS

Esperançar: a arte de viver sem negar a realidade

Por DANIEL GUANAES

Publicado em 10/09/2026 às 19:52

Alterado em 10/09/2026 às 19:52

Quando criança, na escola, aprendemos que esperança é substantivo que descreve um sentimento. Com a vida adulta, no entanto, descobrimos que ela também é verbo que nos impele à ação. Enquanto sentimento, a esperança é uma intuição. Ninguém nos ensina a tê-la; no máximo, aprendemos a reconhecê-la quando queremos que a vida seja melhor. Como ação, a esperança é uma construção. Não se trata de desejar que algo aconteça, mas de se empenhar para que os anseios que povoam a nossa imaginação ganhem concretude no chão da vida.

“Esperançar” é tarefa de quem sabe viver sem negar a realidade. Costuma-se dividir as pessoas entre otimistas e pessimistas, e os que assim fazem se esquecem de que, embora em polos opostos, otimistas e pessimistas são a contraparte espelhada, um do outro. Ambos lidam com a realidade de forma rígida. Ao otimista falta qualquer negatividade. Ele não conhece dúvidas, nem desespero. A pura positividade é sua essência. Ao pessimista, por outro lado, falta qualquer positividade. Ele não reconhece caminhos, nem possibilidades. A pura renúncia é seu idioma.

Como ensinou Ariano Suassuna, bom mesmo é ser um realista esperançoso. Refiro-me ao sujeito que olha o mundo como ele é, reconhece as suas falhas, discerne os seus ruídos, carrega as suas cicatrizes, e, ainda assim, acredita que algo de bom pode nascer. O realista esperançoso não faz isso por ingenuidade, mas por teimosia de vida. Ele sabe, como eternizou Gonzaguinha, que somos nós que fazemos a vida como der, ou puder ou quiser. E se somos nós que a fazemos, por que não acreditar que podemos fazer do amanhã um tempo melhor?

Como líder religioso e psicólogo clínico há vinte anos, boa parte da minha rotina semanal consiste em ouvir histórias, de todos os tipos. Em quase todas elas, encontro um elemento comum: o desejo pelo amanhã é mais forte do que a angústia do hoje. É a isso que me refiro quando falo de conjugarmos a esperança como um verbo. Em vez de aceitarmos o decreto de um destino absoluto, como fazem os pessimistas e os otimistas, podemos criar caminhos que acreditem que o futuro pode ser melhor do que o presente.

Alguém pode dizer que “esperançar” é uma utopia. Se for o caso, está tudo bem. Como disse certa vez o cineasta argentino Fernando Birri, se não dá pra garantir que o futuro será como desejamos, a esperança pelo menos nos ajuda a caminhar.

Daniel Guanaes, PhD em Teologia pela Universidade de Aberdeen, é pastor presbiteriano, psicólogo clínico e autor do livro “Cuidar de Si” (Ed. Mundo Cristão)

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