ARTIGOS
Um argentino, uma lembrança e um sonho rubro-negro
Por MARCO TÚLIO CÔRTES DE LACERDA
Publicado em 01/09/2026 Ã s 17:51
Alterado em 01/09/2026 Ã s 17:51
Minha primeira lembrança consciente de futebol vem de 1974, quando eu tinha nove anos e comecei a acompanhar o Flamengo pelas mãos do meu pai, Roberto, numa família 100% rubro-negra. Ele, falecido em 2020, e minha mãe, Helena, sempre foram flamenguistas apaixonados, e foi nesse ambiente que aquele time campeão carioca de Geraldo, Zico e Doval entrou de vez na minha memória.
Para uma criança rubro-negra, era difícil não se encantar por Narciso Horácio Doval. Forte, habilidoso, raçudo, irreverente, sempre participando do jogo, sempre parecendo capaz de transformar uma jogada qualquer em alguma coisa perigosa. Doval foi um dos meus primeiros grandes ídolos no Flamengo.
Depois dele, passaram muitos argentinos pela Gávea.
Alguns bons jogadores, outros nem tanto. Fillol, campeão mundial pela Argentina em 1978 e um dos maiores goleiros da história de seu país, teve no rubro-negro uma passagem abaixo da expectativa. Mancuso conquistou a torcida pela raça. Bottinelli teve seus momentos. Vieram Maxi Biancucchi, Mugni, Sambueza, Colace, Canteros, Mancuello e tantos outros. Mas um atacante argentino de talento reconhecido, passagem pela seleção de seu país, personalidade forte e capacidade de incendiar a torcida como Doval, não houve outro no Flamengo.
Talvez seja por isso que a notícia da contratação de Joaquín Freitas tenha me levado imediatamente para 1974.
Não porque Freitas seja um “novo Doval”. Seria injusto com os dois dizer isso.
Mas porque há nomes que chegam ao Flamengo trazendo apenas expectativa. Outros, antes mesmo de estrear, despertam lembranças.
Joaquín Freitas tem 19 anos. Argentino, atacante, formado num dos maiores clubes de seu país, com passagem pelas seleções argentinas e reputação de jogador intenso, daqueles que não economizam corrida, disputa ou vontade. Pode jogar por dentro, pode sair pelos lados, especialmente pela direita. Fez muitos gols nas categorias de base e deixou o River Plate cercado por uma certa inconformidade de torcedores que viam nele um futuro importante.
Nada disso, evidentemente, permite prever o que acontecerá no Flamengo.
Mas permite lembrar.
Porque houve um tempo em que outro jovem atacante argentino desembarcou no Rio trazendo uma combinação curiosamente parecida de talento, personalidade e versatilidade.
Chamava-se Narciso Horácio Doval.
Quando chegou ao Flamengo, em 1969, Doval tinha 25 anos. Era mais velho e muito mais pronto do que Freitas é hoje. Já havia disputado mais de cem partidas pelo San Lorenzo, marcado cerca de quarenta gols e vestido a camisa da seleção argentina. Vinha da geração dos famosos “Carasucias”, atacantes irreverentes e habilidosos que encantaram Buenos Aires nos anos 1960.
Também não era exatamente aquilo que hoje chamaríamos de um centroavante clássico.
Na Argentina, Doval era frequentemente utilizado pela direita. Jogava aberto, entrava na área, fazia o facão - como se dizia na época, atacando os espaços nas costas da defesa -, driblava, brigava pela bola. No Brasil, passaria cada vez mais a ser visto como um atacante completo, capaz de ocupar praticamente qualquer posição da frente.
E tinha uma característica que o torcedor do Flamengo reconhece de imediato: raça. Doval jogava com uma intensidade enorme, querendo participar de tudo.
Doval corria.
Doval disputava.
Doval provocava.
Doval fazia muitos gols.
Tinha futebol e tinha temperamento.
Sua chegada ao Flamengo, porém, foi muito diferente da de Freitas.
Doval não saiu da Argentina como uma joia que seu clube lamentava perder. Sua relação com o San Lorenzo havia se desgastado. Uma longa suspensão e episódios de indisciplina ajudaram a criar em torno dele a fama de personagem difícil.
Foi Elba de Pádua Lima, o folclórico Tim, técnico do Flamengo, quem enxergou o jogador por trás do ruído.
O Flamengo apostou.
E o resto pertence à memória rubro-negra.
Doval faria quase cem gols pelo clube, seria campeão, artilheiro, personagem de clássicos e acabaria transformado em um dos maiores estrangeiros da grandiosa história do Flamengo. Uma trajetória tão singular que, décadas depois, virou documentário: “Doval: O Gringo Mais Carioca do Futebol”, cinebiografia dedicada ao argentino que adotou o Rio -- e que foi adotado por ele.
Freitas chega de outra maneira.
É muito mais novo. Ainda não construiu uma carreira profissional comparável à de Doval quando este chegou ao Rio. Os gols que chamaram a atenção vieram principalmente das categorias de base e do time B do River Plate. Seu caminho no futebol principal está apenas começando.
Mas o River queria mantê-lo.
Sua saída incomodou.
A torcida argentina protestou pela perda de um atacante que considerava promissor. O Flamengo não foi buscar um jogador descartado. Foi buscar uma das joias do futebol argentino, um atacante em quem se depositavam grandes esperanças e que muitos viam como talento no futuro.
Talvez seja essa a parte mais interessante da história.
Porque os dois caminhos são quase inversos.
Doval chegou ao Rio depois que a Argentina começava a desconfiar dele.
Freitas chega justamente quando a Argentina começava a acreditar nele.
Há também quase seis anos de diferença entre os dois no momento da contratação. Doval desembarcou praticamente formado. Freitas desembarca para se formar.
Qualquer comparação além disso seria injusta.
Doval não precisa de sucessores. Tem seu lugar próprio na história do Flamengo.
E Freitas precisa ter o direito de escrever a sua história sem carregar nas costas o nome de um ídolo que sequer viu jogar.
Mas o futebol vive dessas coincidências -- e talvez seja justamente por isso o mais fascinante dos esportes!
Um atacante argentino.
Jovem.
Talentoso.
Versátil.
Com passagem pelas seleções de seu país.
Capaz de jogar por dentro e pela direita.
E, sobretudo, com aquilo que nenhuma estatística mede direito, mas o rubro-negro reconhece de imediato: raça. A vontade de disputar cada bola como se ela pudesse decidir o jogo.
O Flamengo já recebeu um argentino assim.
Faz muito tempo.
Chamava-se Doval.
Eu tive a sorte de vê-lo jogar quando era menino.
Não sabemos o que Joaquín Freitas será.
E talvez esteja justamente aí a graça.
O torcedor rubro-negro não precisa fazer comparação nenhuma.
Basta lembrar.
E sonhar um pouquinho.
Marco Túlio Côrtes de Lacerda. Engenheiro, botânico, empresário --e flamenguista desde 1965.