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Devo, logo existo

Por FABRIZIO GAMMINO

Publicado em 20/08/2026 às 11:14

Alterado em 20/08/2026 às 11:14

O que acontece quando o Estado exige eficiência em tempo real, mas maquia a própria dívida e perde o grau de investimento para seus vizinhos.

A dívida é o motor do capitalismo moderno. Sem ela, não há alavancagem, não há expansão e não há consumo em larga escala. No entanto, a linha que separa o crescimento sustentável do colapso financeiro é tênue, definida por duas variáveis fundamentais: governança e transparência. No Brasil, essa linha tem sido cruzada repetidas vezes, seja no orçamento das famílias, nas planilhas das grandes corporações ou, de forma ainda mais preocupante, nos balanços do próprio Estado.

Para entender essa dinâmica, precisamos olhar para o topo da pirâmide corporativa brasileira. O trio de bilionários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira construiu um império global utilizando a dívida como principal alavanca. O modelo de Leveraged Buyout (LBO) permitiu que eles comprassem a Brahma em 1989 com pouco capital próprio, financiando o restante via bancos. Após a aquisição, utilizaram a implacável geração de caixa da própria cervejaria para pagar a dívida, repetindo a fórmula na criação da Ambev e, posteriormente, na compra da gigante Anheuser-Busch por US$ 52 bilhões. A Ambev é o exemplo perfeito de como a dívida, aliada a um corte radical de custos e a uma cultura de dono, pode transformar uma empresa local na maior cervejaria do mundo.

O problema ocorre quando o mesmo grupo, com a mesma cultura, aplica uma variação tóxica desse modelo. Nas Lojas Americanas, a dívida também financiou a operação, mas de forma oculta. Operações de "risco sacado", onde bancos financiavam fornecedores, não eram contabilizadas como dívida financeira no balanço. O resultado dessa contabilidade criativa foi um rombo de mais de R$ 25 bilhões, culminando na maior recuperação judicial da história do varejo nacional, com dívidas totais ultrapassando os R$ 40 bilhões. Mirou-se a eficiência da Ambev, mas entregou-se a fraude das Americanas.

Esse estresse financeiro não ficou restrito ao varejo; ele contaminou até mesmo o motor mais resiliente da nossa economia. O agronegócio, que sempre atuou como o setor defensivo do Brasil, tornou-se o novo epicentro do ciclo de insolvência. O crédito rural caro, aliado à queda no preço das commodities e aos choques climáticos, asfixiou o fluxo de caixa das propriedades. A inadimplência entre os produtores rurais atingiu 8,8% no primeiro trimestre de 2026, o maior patamar de toda a série histórica medida pela Serasa Experian. Como consequência direta, o número de empresas do agro em recuperação judicial disparou 66% em apenas doze meses, atingindo o recorde de 1.263 CNPJs ao final do primeiro semestre, segundo o Monitor RGF-Bizdoc. O que antes era impensável no campo, hoje é rotina nos tribunais.

E o agro é apenas a ponta de um iceberg muito maior. O Brasil como um todo fechou o primeiro semestre de 2026 com mais de 6.300 empresas em recuperação judicial, um recorde histórico absoluto que abrange todos os setores da economia.

O paralelo desse colapso privado com o Estado brasileiro é inevitável e assustador. O Brasil oficial, aquele medido pelo Banco Central, ostenta uma dívida pública de 81,9% do Produto Interno Bruto (PIB). É um número alto, mas administrável na retórica política. O problema é que o Banco Central utiliza uma metodologia própria, que exclui títulos do Tesouro na carteira do próprio BC e operações compromissadas. Quando o Fundo Monetário Internacional (FMI) aplica os padrões internacionais de contabilidade pública, a dívida bruta brasileira salta para mais de 96% do PIB em 2026, com projeções de bater a marca de 105,5% até o fim da década.

O Estado brasileiro, em essência, pratica a sua própria versão de contabilidade criativa. Esconde passivos debaixo do tapete metodológico para fingir uma saúde fiscal que não possui. Enquanto isso, o custo real dessa dívida cobra a conta: apenas em junho de 2026, o governo gastou R$ 110 bilhões com juros, acumulando R$ 1,2 trilhão em doze meses. O déficit primário continua crescendo, e a máquina pública mantém seu funcionamento básico através de mais endividamento. É o Estado operando no modelo Americanas, mas com o agravante de que não há recuperação judicial para um país soberano; há apenas inflação e recessão.

Há quem defenda que o crescimento da dívida brasileira encontra paralelo no mundo todo, apontando para o advento pós-pandemia em países como Estados Unidos e Japão. É um argumento falacioso. O Japão possui uma dívida de 260% do PIB, e os Estados Unidos ultrapassam os 125%, mas ambos emitem dívida em moeda forte, que serve como reserva de valor global. O Brasil emite em real, uma moeda que sofre depreciação constante, e paga a segunda maior taxa real de juros do mundo, perdendo apenas para a Rússia em guerra.

O preço para um país que perdeu o grau de investimento (investment grade) em 2015 e nunca mais o reconquistou é brutalmente maior. Enquanto o Brasil patina, pares emergentes conseguiram manejar o contexto externo com muito mais competência. O México, o Peru e a Indonésia mantêm o grau de investimento com dívidas públicas muito inferiores à nossa, girando entre 35% e 55% do PIB. Até mesmo a Argentina e a África do Sul controlaram melhor o crescimento de suas dívidas no período de 2022 a 2026. Entre os membros do G20, a escalada da dívida brasileira só perde para a da China.

Na base dessa pirâmide de ineficiência, quem paga a conta é a população. O endividamento das famílias brasileiras bateu o recorde histórico de 81,6% em maio de 2026, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC). Quase um terço da renda do trabalhador está comprometida com dívidas antes mesmo de o mês começar. Com a taxa Selic a 14,5% e o cartão de crédito rotativo cobrando juros extorsivos que ultrapassam os 400% ao ano, o cidadão comum vive em um estado de asfixia financeira. Para piorar, a proliferação das apostas online (bets) drena cerca de R$ 30 bilhões mensais do consumo tradicional, empurrando as famílias de baixa renda para um buraco ainda mais fundo.

Do lado corporativo, a asfixia vem pelo manicômio tributário e pela sonegação, que se tornou um modelo de negócios para muitos. A Receita Federal estima que o Brasil perde R$ 200 bilhões por ano com devedores contumazes. A maior devedora do país, a Refinaria de Manguinhos, deve sozinha mais de R$ 20 bilhões. Com juros de mora simples aplicados pelo Fisco contra juros compostos do mercado financeiro, tornou-se economicamente racional para muitas empresas sonegar, aplicar o dinheiro no mercado e pagar a dívida depois, com desconto em programas de refinanciamento (Refis). O imposto virou capital de giro.

Para fechar esse ralo, o governo encontrou uma solução na Reforma Tributária que embute uma provocação perigosa. Com a implementação do split payment a partir de 2027, o imposto será retido automaticamente na fonte, no exato momento da transação via Pix ou cartão. Com o fim da transição, o cidadão vai pagar uma alíquota de quase 30% em qualquer compra, e o sistema fará a divisão em tempo real. É quase como um "7 para você, lojista, 3 pra mim, governo", direto na origem, sem risco de sonegação.

O governo investe R$ 2 bilhões em tecnologia para garantir que o dinheiro do imposto nunca mais passe pela conta da empresa. É uma forma engenhosa do próprio Estado driblar a inadimplência do contribuinte, garantindo o seu fluxo de caixa diário. A ironia é palpável: o Estado exige eficiência, transparência em tempo real e recolhimento instantâneo da iniciativa privada, enquanto ele próprio mantém uma máquina ineficiente, gasta mais do que arrecada, não recupera o selo de bom pagador e maquia sua dívida pública com metodologias que o mundo desenvolvido rejeita.

Devo, logo existo. Esta parece ser a máxima que rege o Brasil atual. As famílias devem para sobreviver, as empresas (e até as fazendas) devem para crescer, e o Estado deve para manter uma engrenagem pesada e disfuncional. O desafio para os próximos anos não é apenas aprovar reformas tributárias ou lançar programas de renegociação de dívidas, como o Novo Desenrola. O desafio real é mudar a governança e a transparência do país. Se continuarmos mirando a Ambev e entregando as Lojas Americanas na gestão pública, a conta, inevitavelmente, chegará para todos nós.

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