ARTIGOS
A infraestrutura do futuro não tem bandeira
Por DIEGO TEIXEIRA
Publicado em 11/08/2026 às 23:11
Alterado em 11/08/2026 às 23:11
Nesta segunda-feira, dois anúncios quase simultâneos chamaram a atenção de quem acompanha economia e tecnologia. Em Nova York, veio a público que a Nvidia negocia com um grupo de grandes instituições financeiras, entre elas Apollo, Blackstone, BlackRock, Brookfield, Goldman Sachs e KKR, um pacote de US$ 500 bilhões destinado a financiar a infraestrutura da inteligência artificial: chips, geração de energia e data centers. Do outro lado do mundo, em Xangai, a chinesa Unitree Robotics abriu a subscrição de sua oferta pública inicial, tornando-se a primeira fabricante de robôs humanoides de capital aberto no continente. A procura foi tamanha que as ofertas superaram em mais de 2.700 vezes o volume inicialmente previsto.
À primeira vista, são notícias de universos distintos. Uma pertence ao mundo das altas finanças americanas; a outra, à ambição industrial chinesa. Uma fala de centenas de bilhões de dólares articulados por algumas das maiores gestoras de ativos do planeta; a outra, do entusiasmo de investidores diante de máquinas que caminham, correm e começam a ocupar espaços antes reservados aos seres humanos. Mas, quando afastamos o olhar, ambas contam a mesma história: parte decisiva da infraestrutura estratégica do século XXI, aquela que condicionará produtividade, ciência, defesa e poder geopolítico, está sendo erguida por capital privado, em escala e velocidade que desafiam a capacidade tradicional dos Estados de planejar, coordenar e determinar os rumos do desenvolvimento.
Vale refletir na história para compreender a dimensão dessa mudança. Durante quase dois séculos, as grandes infraestruturas foram construídas pelo Estado ou ao menos, coordenadas por ele. As ferrovias que integraram os Estados Unidos e a Europa nasceram de concessões, subsídios e projetos nacionais. A eletrificação rural americana foi uma política pública do New Deal. Até a internet, hoje símbolo máximo da economia privada e descentralizada, teve origem em programas de pesquisa ligados ao Departamento de Defesa americano. Construir infraestrutura significava exercer soberania e ao definir estradas, redes elétricas, portos ou telecomunicações, o Estado não desenhava apenas ativos físicos: desenhava um projeto de nação.
Agora, a mudança não está apenas em quem paga a conta, mas em quem passa a decidir onde e em que ritmo o futuro será construído. Quinhentos bilhões de dólares representam mais do que o Produto Interno Bruto anual da maioria dos países do mundo. É capital suficiente para alterar a geografia econômica de regiões inteiras, e sua mobilização não depende necessariamente de tesouros nacionais ou de orçamentos aprovados por parlamentos. Ela ocorre por meio de fundos, bancos, gestoras e empresas que administram uma parcela relevante da poupança global. Somente neste ano, as grandes companhias de tecnologia gastarão centenas de bilhões de dólares em infraestrutura e capacidade relacionadas à inteligência artificial. Estamos diante de uma mobilização de recursos comparável, em ambição, às grandes corridas tecnológicas do século passado, mas com uma diferença fundamental: se na corrida espacial o Estado ocupava o cockpit, nesta nova disputa, a parte esmagadora da propulsão está nas mãos do setor privado.
Há um detalhe particularmente revelador, o gargalo da inteligência artificial deixou de ser apenas a capacidade computacional e passou a envolver, cada vez mais, energia. Inteligência artificial em escala exige eletricidade, terra, água, redes de transmissão, sistemas de refrigeração e licença para operar em comunidades reais. Depois de décadas fascinados pela ideia do imaterial, a nuvem, o software, o virtual, redescobrimos que o futuro digital depende de uma infraestrutura profundamente física. Por trás de cada modelo de linguagem há concreto, cobre, silício, turbinas e megawatts e quem decide onde instalar essa infraestrutura também influencia onde surgirão produtividade, empregos qualificados, capacidade científica e poder econômico. A disputa pela inteligência artificial é, portanto, também uma disputa por energia e território.
O caso chinês revela a outra face dessa transformação. Na China, o Estado continua definindo setores estratégicos e a robótica, ao lado da inteligência artificial e de outras tecnologias avançadas, ocupa posição central na política industrial. Poderíamos enxergar aí o contraponto perfeito: o Estado forte conduzindo o futuro. Mas a trajetória da Unitree mostra que a realidade é mais complexa, pois o governo pode indicar prioridades, financiar pesquisa e organizar incentivos, mas é o mercado que, em grande medida, precifica expectativas, distribui capital e acelera vencedores. A procura extraordinária por suas ações não nasceu de um decreto. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos restringem o acesso chinês a determinados componentes e tecnologias, enquanto Pequim responde fortalecendo suas próprias cadeias produtivas.
O paradoxo está justamente aí: os Estados disputam soberania tecnológica, mas as redes de capital, conhecimento, energia e suprimentos necessárias para sustentar essa soberania são cada vez mais globais.
É nesse ponto que uma notícia de economia e tecnologia se transforma em uma questão institucional. Durante boa parte da história moderna, imaginamos que o progresso seria limitado pela escassez de capital ou pela falta de tecnologia. Hoje, em determinados setores, ocorre quase o contrário: há capital disponível em volumes inéditos e tecnologias cuja capacidade evolui em ciclos cada vez mais curtos. O recurso escasso passa a ser a capacidade das instituições, concebidas para um mundo mais lento, de acompanhar essa velocidade, estabelecer limites, criar incentivos e dar direção coletiva a transformações que já estão em curso. Talvez não estejamos ficando sem inteligência nem sem dinheiro. Estamos descobrindo que nossas instituições podem não evoluir na mesma velocidade daquilo que inteligência e capital, combinados, já são capazes de construir.
É importante, contudo, evitar dois exageros. O primeiro é o pânico fácil, a narrativa de máquinas inevitavelmente fora de controle, que frequentemente serve mais ao entretenimento do que à compreensão. O segundo é a nostalgia de um Estado onipotente, capaz de prever e coordenar sozinho todas as transformações. A iniciativa privada produziu parte extraordinária do progresso material das últimas décadas justamente porque assume riscos, experimenta e se adapta com uma velocidade que a burocracia dificilmente reproduz.
A questão, portanto, não é escolher entre Estado e mercado, mas sim, compreender seus papéis! Mercados são mecanismos extraordinários de alocação de capital, mas não foram concebidos para definir, sozinhos, objetivos coletivos de longo prazo. Uma ferrovia do século XIX transportava mercadorias, mas também expressava uma visão de integração territorial e desenvolvimento nacional. Que visão de sociedade está incorporada a um data center financiado por fundos globais e submetido, em última instância, à lógica econômica do retorno sobre o capital?
Essa pergunta também tem endereço brasileiro. Se a infraestrutura da inteligência começa a ser definida em grandes rodadas de financiamento em Nova York, em políticas industriais em Pequim e em decisões corporativas tomadas por empresas que operam globalmente, o Brasil precisa decidir se pretende ser apenas consumidor das tecnologias produzidas pelos outros ou se quer participar de sua construção. Isso exige energia competitiva, infraestrutura digital, formação de pessoas, segurança jurídica, marcos regulatórios capazes de atrair investimento sem abandonar o interesse público e, sobretudo, uma classe dirigente, pública e privada, disposta a pensar em décadas, e não apenas em ciclos eleitorais ou resultados trimestrais.
Quem vive o setor de tecnologia percebe que a diferença entre a velocidade da inovação e a velocidade da adaptação institucional deixou de ser uma questão burocrática. Tornou-se uma das principais variáveis de competitividade entre países.
Talvez estejamos entrando em uma fase inédita da civilização, na qual uma parcela crescente do futuro deixa de ser desenhada exclusivamente nos gabinetes e passa também a ser precificada nos mercados. Isso não precisa ser interpretado como uma ameaça. Pode representar uma oportunidade extraordinária, desde que compreendamos a dimensão da transformação. O grande desafio não será apenas construir máquinas mais inteligentes ou Estados mais fortes. Será desenvolver instituições capazes de evoluir suficientemente rápido para orientar o encontro entre tecnologia, capital e interesse público. Porque a pergunta decisiva do nosso tempo talvez já não seja quem tem capacidade de construir o futuro. Essa resposta começa a ficar evidente. A pergunta realmente importante é outra: para quem esse futuro será construído?
Diego Teixeira é advogado e CEO da Grownt