ARTIGOS
Glória ao (s) pai (s)
Por MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER
Publicado em 09/08/2026 às 09:09
Alterado em 09/08/2026 às 09:14
Talvez poucas coisas estejam tão em crise hoje quanto a paternidade. Algo dessa crise se explica com a crise da própria masculinidade, que diante do processo de emancipação da mulher, busca dolorosamente sua identidade. Ambas as crises estão imbricadas e se comunicam em sua recíproca perplexidade.
Os anticoncepcionais e a descoberta do ADN que permite constatar a filiação dos seres humanos desempenham importante papel quando se trata de responder à pergunta: em que consiste a paternidade? Outra maneira de perguntar: Afinal, quem é ou pode dizer-se pai?
Não certamente a maioria dos homens que se relacionam com mulheres, fecundam seus ventres e depois se desentendem da criatura que nada pediu, mas existe e é fruto daquela relação. Lá vão eles em frente, buscar outras desavisadas que ainda acreditarão em suas promessas, ainda sofrerão violências e ainda esperarão que com a chegada da criança tudo vai mudar. Lamentavelmente em geral muda...para pior.
O Evangelho relata que a multidão faminta ávida de escutar os ensinamentos de Jesus era de 5000 homens ...sem contar as mulheres e as crianças (Mt 14,21)) Ali a exclusão estatística não correspondia a uma exclusão alimentar e a receber o sinal da multiplicação dos pães. Todos foram alimentados. Não se dá o mesmo em nossa realidade. Muitas crianças sem pai devem partilhar com a mãe desamparada a pobreza, a miséria e a insegurança em todos os níveis.
O mundo de hoje muitas vezes nos obriga a contar apenas as mulheres e as crianças, pois são elas que permanecem após as relações desfeitas, os abortos forçados, os partos solitários sem a presença do responsável pela gravidez. Aumenta a cada dia a quantidade de mulheres que cria seus filhos sozinha, sem a presença do pai ou mesmo apesar do pai. Além de ausentes muitas vezes os pais têm atitudes violentas nas poucas ocasiões em que estão com os filhos. Que o confirmem as notícias dolorosas que vemos a todo momento na mídia.
Mas não seria justo que predominasse essa visão quando nos preparamos para celebrar mais um Dia dos Pais. E, portanto, queremos dar glória e louvor a Deus, que é Pai e que enviou Seu Filho que se encarnou no ventre de Maria. E que com suas duas mãos amorosas – Filho e Espírito Santo – nos abraça constantemente ao longo da vida.
Glória ao Pai poderoso e amoroso a quem invocamos com a oração do Filho: Pai Nosso. É o Pai cujo nome é santificado, cujo Reino vem e é nosso maior desejo, cuja vontade deve ser feita para que haja paz e concórdia. Mas igualmente o Pai que dá o pão nosso hoje, sempre, que perdoa nossas ofensas da mesma maneira com que perdoamos os inimigos; que não permite que sejamos tentados além de nossas forças e nos livra do mal.
Mas glória igualmente aos pais que se levantam antes do sol para trabalhar e trazer o pão para casa. Que entregam seu corpo aos rigores de um trabalho pesado pensando nos filhos pequenos que sonham em ver com um futuro diferente do seu cotidiano. Que em casa ajudam a trocar fraldas, dar mamadeiras, lavar a louça, limpar o chão.
Glória ainda aos pais que velam pelas filhas que saem à noite e interrompem o sono após um pesado dia de trabalho para buscá-las de madrugada em festinhas e reuniões de amigas. Pais que não dormem até todos os filhos chegarem em casa e sabê-los em segurança Pais que jogam futebol e torcem com os filhos pelo mesmo time ou até por times diferentes, abraçados e celebrando. Pais que testemunham sua fé e são modelos para que os filhos também cresçam na sua. Pais que respeitam a liberdade dos filhos mesmo quando o coração dói porque gostariam de vê-los trilhar outros caminhos.
Glória aos pais que não abrem mão de sua legítima autoridade, mas a exercem com liberdade e carinho, com presença e amor, com constância e fidelidade. Glória aos pais que são responsáveis pela semente que plantaram nos ventres de suas mulheres. Sementes que cresceram trouxeram “crianças” que mudaram suas vidas e lhes permitiram ser colaboradores de Deus na divina arte de “criar”.
Glória igualmente e talvez de especial maneira aos pais que não são biológicos, mas que amam e acompanham com desvelo e dedicação não apenas os próprios filhos, mas os filhos da companheira que chegou em suas vidas trazendo frutos de outro relacionamento. A estes, glória por sua dedicação gratuita, fruto do amor e não da obrigação.
Neste Dia dos Pais, celebro o meu que agora é uma presença ausente “naquela mesa” de que falava tão belamente Sergio Bittencourt sobre seu pai Jacó do Bandolim. Você partiu cedo, pai, mas continua me inspirando. Celebro igualmente os pais da família: meu filho, meu genro, meu sobrinho. E rememoro docemente meus dois avôs, materno e paterno, pelo carinho que trouxeram a minha infância órfã.
A fé cristã nos ensina que o nome de Deus é Pai. Pai é o que Deus é única e plenamente. Todo pai tem acima e diante de si o modelo desta paternidade infinita e insuperável. A todos feliz Dia dos Pais.
Maria Clara Bingemer é teóloga, professora titular da PUC-Rio no departamento de teologia. Entre seus inúmeros escritos encontra-se o livro coletivo por ela organizado Teologia de mulheres, Petrópolis, Vozes, 2025