ARTIGOS

Etarismo e exclusão

Por MARIA CLARA BINGEMER

Publicado em 23/07/2026 às 16:27

Alterado em 23/07/2026 às 16:27

Entende-se por etarismo o preconceito e discriminação fundamentados na idade. Este preconceito implica e inclui atitudes ou estereótipos que limitam as pessoas com base no ciclo de vida no qual se encontram. Avalia-as e entende-as com base no momento da existência cronológica que atravessam. Isso traz consequências para o indivíduo, afetando igualmente o ambiente de trabalho e a vida social. O etarismo hoje é considerado um desafio global.

No Brasil, o conceito foi oficialmente reconhecido pela língua portuguesa e incorporado pela Academia Brasileira de Letras (ABL). Constitui o etarismo um tipo de discriminação que pode ser sofrido por pessoas de qualquer faixa etária. No entanto, é patente que essa atitude discriminatória atinge principalmente indivíduos mais velhos através de estereótipos que os rotulam como menos produtivos ou mais frágeis.

O etarismo é proibido por lei no Brasil. A discriminação etária é combatida tanto pelo Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003), que criminaliza o preconceito contra idosos (Art. 96) com penas de até 1 ano de reclusão, quanto pela Lei nº 9.029/1995, que proíbe anúncios de emprego com exigência de idade.

A partir do crescimento visível do etarismo, importa buscar suas raízes. Trata-se de algo antigo ou recente? Inicia-se na Antiguidade ou na Modernidade? O que percebemos é que o preconceito contra os idosos tem raízes bem fortes já no mundo antigo.

Na Grécia o etarismo visava sobretudo a corporeidade. Os gregos exaltavam muito a beleza, a força física e a agilidade. A velhice era temida e tratada com desdém, pois a perda do vigor físico afastava o indivíduo dos ideais de heroísmo e da prática esportiva tão caros à cultura helênica. Da mesma forma a beleza era vista como qualidade exclusiva do corpo jovem. Aqueles que conseguiam atingir idades avançadas costumavam ser marginalizados, sofrendo com o desdém por parte dos mais jovens devido às suas debilidades. Frequentemente os velhos chegavam a ser abandonados pela família e morriam isolados e for a da cidade.

Embora alguns anciãos fossem respeitados pela sabedoria, o envelhecimento era associado à decadência. Em algumas cidades gregas chegava-se a providenciar veneno para que pessoas doentes e cansadas de viver encontrassem uma maneira de pôr um ponto final em sua vida.

No Judaísmo encontram-se passagens que recomendam o respeito aos velhos e anciãos. A Bíblia Hebraica retrata a velhice como uma grande bênção e sinal da Graça divina. Em vez de chamar a atenção para o declínio físico, as escrituras destacam a longevidade como recompensa, associando os cabelos brancos à sabedoria e à honra. Na Bíblia Cristã, Jesus de Nazaré encarece o respeito devido aos anciãos, na pessoa dos pais. Encontramos no Evangelho de Marcos suas palavras: Honra teu pai e tua mãe e: Todo aquele que amaldiçoar pai ou mãe seja morto.

Com a modernidade e a emergência do capitalismo, a discriminação etarista passou a ser praticada no campo do trabalho e da produção. A pessoa tem valor nesta sociedade se tiver força de trabalho e produtividade, sendo discriminada e mesmo eliminada na medida em que envelhece. Apesar do aparecimento e progresso dos direitos trabalhistas que criam instancias de previdência social; apesar das contribuições que a vida laboral acumula visando uma perspectiva de ajuda financeira para o sustento na velhice, a sociedade capitalista é claramente etarista.

O mundo empresarial cada vez mais suprime empregos devido à idade e dá preferência à contratação de jovens quadros, que custam menos e rendem mais sob pressão. Assim, cresce no mundo, muito especialmente no Ocidente, o olhar e a perspectiva etarista para construir as estruturas e os sistemas de trabalho. Cresce igualmente o preconceito com relação às pessoas mais velhas colocando em dúvida sua competência e sua possibilidade de atuação bem-sucedida, assim como sua capacidade de decisões. A produtividade é avaliada segundo a lente capitalista de crescimento desenfreado e rendimento a todo custo, deixando pelo caminho aqueles que são considerados incapazes de acompanhar o ritmo frenético das sociedades do desempenho.

Mesmo no campo da educação e do conhecimento o etarismo está presente. Professores e pensadores de longa trajetória e reconhecida competência são desvalorizados em benefício de jovens educadores e intelectuais que apenas começam sua carreira acadêmica e não realizaram ainda sínteses bem elaboradas e maduras. Com o preconceito etarista todos saem perdendo: a escola e a academia, que não mais contam com o núcleo duro das colunas intelectuais que fazem avançar a ciência; igualmente as novas gerações que não podem se beneficiar do conhecimento profundo e sólido dos mestres e devem aprender conteúdos às vezes um tanto apressados e superficiais, voltados para uma produção acadêmica mais aderida a resultados numéricos.

O crescimento do mundo digital agravou esses estados de coisas quando, no pensar do filósofo sul coreano Byung-Chul Han, estendeu o tempo do trabalho para além da semana laboral e da jornada de oito horas. Mesmo fora do tempo de trabalho, não há mais repouso ou feriado já que as redes alcançam qualquer um em qualquer lugar que maneje um dispositivo eletrônico. Todos os acessos se tornam digitais e o mundo funciona ao ritmo das teclas e da tela onde os dedos tocam e deslizam. Não há pausa, não há repouso. A máquina da produção e do consumo gira incessantemente e a toda velocidade pelas telas. As novas gerações já nasceram nessa cultura. As gerações mais velhas não conseguem nem desejam acompanhar tal corrida sem trégua e sem folego.

Na medida em que as dimensões da esfera digital crescem, o etarismo as acompanha. A exclusão digital por idade hoje se amplia mais e mais. E representa a restrição, discriminação ou exclusão baseada na idade quanto ao uso de tecnologias digitais. Esse se manifesta no próprio design de produtos voltados apenas para jovens, presumindo que idosos são incapazes de aprender seu manejo. Reforça a exclusão do mercado de trabalho em tecnologia. Digitaliza todos os procedimentos e itinerários que fazem parte da vida cotidiana de forma que o idoso tenha cada vez menos agilidade nos mesmos. Perdido em uma série de instruções e botões que tem mais dificuldade para entender pois nunca fizeram parte de sua vida, ele ou ela vai se atrasando no ritmo e no uso dessas tecnologias onde só se fala com teclados, telas e máquinas, afastando cada vez mais os seres humanos uns dos outros.

A exclusão digital para idosos tem consequências limitantes e dolorosas: aumenta a exclusão social e a vulnerabilidade a golpes. Com menos agilidade em redes que não fizeram parte de sua primeira formação, os idosos são presas mais fáceis e apresentam uma exposição maior a golpes e explorações desonestas.

Portadores de maiores dificuldades motoras, visuais e outas, idosos são obrigados a sacar dinheiro, fazer pagamentos, chamar transporte em aplicativos com caracteres pequenos e telas difíceis de enxergar, com siglas que não dominam e caminhos que não conseguem trilhar.

Tudo que pretende ser humano deve ser inclusivo. Assim também a tecnologia. Se é feita para impulsionar o crescimento da sociedade constitui algo positivo. Mas se exclui e não inclui, deixando todo um segmento da população que aumenta dia após dia do lado de fora, está longe de cumprir seus objetivos. Ai das sociedades etaristas. Pagarão caro o preço de banir de seu campo e seu movimento a presença da idade que traz experiência, sabedoria e narrativas preciosas que levarão consigo sem que ninguém delas possa se beneficiar.

Maria Clara Bingemer é teóloga, tendo trabalhado por mais de quatro décadas na PUC-Rio. É autora de vários livros e artigos, sendo um dos mais recentes "A sede de Deus nos desertos contemporâneos" publicado em 2025 pela editora Recriar.


Maria Clara Bingemer é professora do departamento de Teologia da PUC-Rio

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