ARTIGOS

As tarifas de Trump e a saúde pública (2)

Insolência e inconsistência

Por ADHEMAR BAHADIAN

Publicado em 19/07/2026 às 15:09

Alterado em 19/07/2026 às 15:09

Uma palavra inicial ao chanceler do Brasil embaixador Mauro Vieira a quem quero fazer publicamente um agradecimento pela forma enérgica com que respondeu a seu contraparte o Secretário de Estado dos Estados Unidos da América Marco Rubio pela forma insolente com que se dirigiu ao presidente da República Federativa do Brasil.

2 - Conheço Mauro Vieira há décadas. Diplomata de múltiplas qualidades e homem de caráter e dignidade. Servidor público que honra o Itamaraty, dotado de inteligência, tato e cordialidade a assisti-lo em suas relações pessoais e profissionais. Subscrevo sua manifestação de repúdio a uma manifestação gratuita de ataque ao Brasil, a Lula, ao Itamaraty e aos negociadores brasileiros em especial ao vice-presidente Alckmin que chefiou e coordenou os demais ministros do governo nas negociações técnicas com os representantes de Trump.

3 - São mentirosas e infundadas as alegações de Rubio de que o presidente da República tenha se desviado das normas e objetivos das negociações bilaterais com os Estados Unidos. Nenhum chefe de Estado agiu com maior franqueza e com maior vigor diante de nossos interesses nacionais do que Lula. O povo brasileiro sabe muito bem quem atuou e ainda atua norteado por interesses eleitorais neste episódio. Há que saber distinguir a subserviência da soberania. A negociação da vassalagem. A hipocrisia da honradez. A pátria da patriotada.

4 - Se há declarada tendência eleitoral nessas negociações - negociação espúria porque recusa as regras elementares da ONU e da OMC, foros competentes para dissipar conflitos entre os Estados - identifique-se os Estados Unidos e particularmente Rubio que publicamente tachou o Brasil de país não-amigo, ignorando não só a história de nosso pais — o que é lamentável — mas também a história de seu próprio país, o que é imperdoável.

5 - São, porém, mais tenebrosas as alegações de cidadãos brasileiros alguns deles com aposentadoria paga pelos cofres públicos assim como entidades e associações comerciais e industriais supostamente identificadas com o interesse nacional a expor publicamente lamúrias sobre a pertinência dos negociadores brasileiros e a impertinência de não nos ajustarmos ao que nos impõe a Doutrina Donroe, cuja clareza só é ofuscada pela violência de seu texto.

6 - Há quem defenda a geopolítica das avestruzes. Quem sabe enterrando nossos interesses no lamaçal de exigências descabidas sobre o PIX e inverdades como o desmatamento da Amazônia os predadores não voltarão a nos importunar mais adiante.

7 - Não sei honestamente se estas admoestações são fruto de imbecilidade patológica ou esperteza eleitoral que não ousa dizer seu nome, até porque talvez haja peçonhas que ainda não estão suficientemente cozidas ou amarradas para saírem saltitantes como debutantes do vorcarismo, nova forma de epidemia que nos assola.

8 - O fato insofismável é que as tarifas nos empobrecem. Ademais, as tarifas nos empobrecerão mais ainda porque continuaremos a ser deficitários em nosso comércio bilateral com os Estados Unidos. E encontrar soluções não pode ser entendido como desacato a ninguém. Estamos em modo-defesa e não pretendemos sair por aí infantilmente a colocar tarifas nos Estados Unidos com o risco de aumentarmos ainda mais o custo para o consumidor brasileiro ou aquecer a inflação. Mas é imperioso que reajamos não só com a busca de outros mercados para nossos produtos, o que é sem dúvida boa política.

9 - Há outras tão urgentes ou mais. Devemos tanto quanto possível diminuir e diversificar. Diminuir nosso déficit com os Estados Unidos é tarefa urgente. E há possibilidades que devemos explorar. Genericamente, estou me referindo a aproveitamento de acordos comerciais recentemente assinados como o acordo com a União Europeia, o uso seletivo de nossas compras governamentais e a utilização mais eficaz da Carta das Nações Unidas e dos acordos firmados na OMC, muito deles a nos ligar umbelicamente a interesses sensíveis dos Estados Unidos. Sobre este tema falarei proximamente.

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* Brasileiro, embaixador do Brasil aposentado. Artigos semanais no JB digital. 85 Casado.

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