ARTIGOS
Mendonça só precisa explicar por que não há operação contra Flávio Bolsonaro e seus R$ 61 milhões
Por HENRIQUE RODRIGUES, da Revista Fórum
Publicado em 18/06/2026 às 15:37
Alterado em 18/06/2026 às 15:43
Ministro André Mendonça Rosinei Coutinho/SCO/STF
A 9ª fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal nesta quinta-feira (18), joga luz sobre o que há de mais sofisticado e, ao mesmo tempo, de mais degradante na simetria do poder em Brasília. Investigar fraudes bilionárias, o uso espúrio do parlamento para favorecer interesses de banqueiros e o trânsito de vantagens indevidas é o papel constitucional das instituições. O que não se justifica, e clama por uma crítica severa, é a gritante disparidade com que o ministro-relator do caso no Supremo Tribunal Federal, o “terrivelmente evangélico” e bolsonarista André Mendonça, maneja a balança da Justiça. Onde há o rigor implacável da caneta para uns, há um silêncio sepulcral e uma pasmante inércia para outros.
O escândalo em torno do extinto Banco Master e de seu ex-controlador, Daniel Vorcaro, redesenhou o mapa das relações promíscuas entre o sistema financeiro e o Congresso Nacional. Diante do colapso de uma estrutura acusada de fraudar o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), a Polícia Federal e o STF começaram a puxar os fios de uma extensa rede de influência política. No entanto, o desenho final dessa malha de suspeitos, sob a tutela de Mendonça, revela uma seletividade que afronta a lógica do interesse público e evoca fantasmas de blindagem partidária e ideológica.
O escândalo em torno do extinto Banco Master e de seu ex-controlador, Daniel Vorcaro, redesenhou o mapa das relações promíscuas entre o sistema financeiro e o Congresso Nacional. Diante do colapso de uma estrutura acusada de fraudar o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), a Polícia Federal e o STF começaram a puxar os fios de uma extensa rede de influência política. No entanto, o desenho final dessa malha de suspeitos, sob a tutela de Mendonça, revela uma seletividade que afronta a lógica do interesse público e evoca fantasmas de blindagem partidária e ideológica.
De um lado do espectro, a condução do ministro foi ágil em expor as franjas do centrão e da esquerda. O senador Ciro Nogueira (PP-PI), há muito tempo habituado aos meandros do pragmatismo fisiológico, foi deixado em mar aberto no curso das investigações. Os relatórios da PF, liberados pelo relator, detalham com requintes de ostentação jantares nababescos em Courchevel, nos Alpes Franceses, viagens de luxo pagas por Vorcaro e repasses mensais de R$ 300 mil que totalizaram ao menos R$ 6 milhões. Para Ciro, o peso das provas e a desidratação de sua blindagem política tornaram sua situação insustentável.
O mesmo rigor de Mendonça justificou a autorização para a investida contra o senador Jaques Wagner (PT-BA). Líder do governo Lula no Senado e pilar histórico do petismo, Wagner viu seus endereços em Salvador e Brasília serem vasculhados por agentes federais. A PF apura se o parlamentar baiano atuou diretamente no Congresso para inflar o teto de cobertura do FGC e facilitar regras de crédito consignado de interesse do banco, supostamente operando por meio de uma pessoa que seria do seu convívio, o banqueiro Augusto Lima, o “Guga”. Trata-se de uma suspeita grave que envolve um suposto imóvel de R$ 2,5 milhões e que exige, por óbvio, apuração rigorosa. Mas o que espanta não é o avanço sobre Wagner ou Ciro; é o tamanho do abismo que separa essas ações do tratamento dispensado ao filho do ex-presidente da República Jair Bolsonaro, o também senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Enquanto Jaques Wagner é alvo de buscas por uma suposta interlocução em solo nacional e Ciro Nogueira é exposto por suas viagens, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) permanece intocado, em uma zona de aparente imunidade processual infinitamente mais grave, e envolvendo montantes muito maiores, que desafia qualquer princípio de equidade e lógica.
As investigações jornalísticas do The Intercept Brasil expuseram ao país planilhas, contratos, comprovantes bancários do sistema SWIFT e registros de mensagens diretas que comprovam que Daniel Vorcaro transferiu cerca de US$ 10,6 milhões, o equivalente a impressionantes R$ 61 milhões, para um suposto financiamento de Dark Horse, um filme biográfico de cariz bizarro sobre Jair Bolsonaro. Flávio não apenas negociou os valores de forma direta e incisiva com o banqueiro, como o próprio áudio vazado revelou a urgência e a proximidade da cobrança, consolidada em frases de explícito compromisso mútuo.
O roteiro financeiro do dinheiro do tal filme é escabroso: os recursos foram remetidos para o exterior, irrigando as contas do Havengate Development Fund LP, no Texas, um fundo controlado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro. Diante de uma triangulação internacional dessa magnitude, que envolve indícios robustos de evasão de divisas, lavagem de dinheiro através da fachada de fomento cultural e uma produtora de cinema que nunca produziu nada na área audiovisual, repleta de incongruências, a reação de André Mendonça foi o absoluto nada. Até onde se sabe, Flávio Bolsonaro sequer foi alvo de uma busca e apreensão ou de medidas cautelares similares às que atingiram seus colegas de Senado.
Argumentar que o caso de Flávio se difere por se tratar de “investimento privado em obra cultural” ou pela “lentidão burocrática dos mecanismos de cooperação jurídica internacional” é um exercício de cinismo técnico. A robustez documental apresentada no caso dos R$ 61 milhões supera, em materialidade inicial, muitos dos indícios que justificaram o arrombamento de portas de outros investigados, todos também senadores. A diferença real e incontornável não está nos autos, mas na biografia de quem assina as ordens no STF.
André Mendonça chegou ao Supremo por uma escolha pessoal e declarada de Jair Bolsonaro, ungido sob a promessa de ser seu representante “terrivelmente evangélico” nos interesses daquela gestão no Tribunal. Ver o mesmo magistrado atuar hoje como o juiz que calibra o tempo, a intensidade e o sigilo de uma investigação que sufoca a oposição e blinda o filho do seu padrinho político é um insulto à neutralidade que se espera da magistratura.
A condução da Operação Compliance Zero sob a batuta de Mendonça desenha uma justiça de duas velocidades e dois pesos. Para os adversários ou aliados descartáveis do sistema, aplica-se o rito sumário da espetacularização, das buscas ao amanhecer e do confisco de passaportes. Para o herdeiro do bolsonarismo, que operou repasses milionários nas sombras de offshores norte-americanas com um banqueiro fraudador, concede-se o benefício do tempo, da dúvida e da eterna “fase de verificação”. Se o papel do STF é garantir a estabilidade democrática e a aplicação cega da lei, a postura de André Mendonça neste caso atesta o contrário: a balança pendeu, e a venda da justiça foi estrategicamente levantada sobre um dos olhos para poupar os seus.