ARTIGOS
O direito de errar: por que o Brasil precisa abraçar o risco tecnológico
Por DIEGO TEIXEIRA
Publicado em 23/05/2026 às 14:36
Alterado em 23/05/2026 às 14:37
Existe uma frase que ouço com frequência nos corredores corporativos brasileiros e que, a cada vez que escuto, me preocupa um pouco mais: “Somos conservadores, então é melhor não arriscar”. Dita sob a aparência de prudência e frequentemente confundida com gestão responsável, essa sentença tem custado ao Brasil décadas de atraso tecnológico.
Não porque o brasileiro seja avesso à criatividade. Pelo contrário: somos um povo extraordinariamente inventivo. O problema é estrutural. Construímos uma cultura empresarial em que o erro é punido antes mesmo de ser cometido. Enquanto isso, lá fora, o jogo acontece sob outra lógica.
Amazon, Google, Tesla e OpenAI têm algo em comum além do sucesso: falharam publicamente diversas vezes antes de chegar até ele. O Google Wave foi um fracasso retumbante. Tesla e SpaceX estiveram à beira da falência. A Amazon encerrou projetos inteiros sem retorno financeiro relevante. Nenhuma dessas empresas tratou esses episódios como vergonha institucional. Porque compreenderam algo que ainda temos dificuldade de aceitar no Brasil: o erro produtivo não é o oposto do sucesso. Muitas vezes, é o caminho mais curto até ele.
Inovar é, por definição, entrar em território desconhecido. E nenhum GPS funciona adequadamente onde o mapa ainda está sendo desenhado.
O Brasil, no entanto, não está de mãos atadas nesse debate. Temos instrumentos sofisticados, como a Lei do Bem (Lei nº 11.196/2005), criada justamente para financiar essa travessia pelo incerto. A legislação permite que empresas deduzam do Imposto de Renda até 80% dos gastos com pesquisa e desenvolvimento tecnológico. Na prática, é o reconhecimento de que inovar exige experimentação e que parte dela inevitavelmente falhará.
Ainda assim, poucas empresas utilizam esse mecanismo. Em parte por desconhecimento. Mas principalmente porque, para acessá-lo, é preciso admitir que se está fazendo P&D e assumir a identidade de empresa inovadora. Voltamos, então, ao mesmo ponto: uma cultura que teme o risco também evita assumir quem o enfrenta.
Na Grownt, aprendi isso na prática. Construímos produtos que não prosperaram, testamos hipóteses inviáveis e pivotamos mais de uma vez. Muitos desses episódios acabaram se tornando a base das decisões mais acertadas que tomamos depois. Não porque tenhamos tolerância incomum ao erro, mas porque aprendemos a distinguir o erro que ensina do erro que simplesmente se repete.
Uma empresa que erra e aprende evolui. Uma empresa que nunca erra porque nunca tenta apenas posterga a própria obsolescência.
O que me parece urgente não é apenas ampliar incentivos fiscais, embora isso seja necessário. O que precisa mudar é a forma como o empresariado brasileiro fala sobre risco. Precisamos parar de tratar a incerteza como inimiga e começar a tratá-la como matéria-prima da inovação.
Israel, Estônia e Coreia do Sul mostram isso com clareza. Economias menores que a brasileira transformaram inovação em política de Estado e cultura de risco em vantagem competitiva.
Existe ainda um componente cultural pouco debatido. O Brasil, por possuir um dos maiores mercados consumidores do planeta, frequentemente desenvolve inovação olhando apenas para dentro de casa. Muitas empresas crescem resolvendo dores locais e acabam acomodadas ao tamanho do próprio mercado brasileiro.
Nas grandes potências tecnológicas, especialmente no Vale do Silício, o raciocínio costuma ser inverso: cria-se pensando globalmente desde o primeiro dia. O objetivo não é apenas conquistar o mercado doméstico, mas desenvolver soluções capazes de competir internacionalmente e resolver problemas em escala global.
Talvez esse seja um dos maiores desafios da nossa geração empresarial: parar de pensar apenas em inovação para o Brasil e começar a construir inovação a partir do Brasil para o mundo.
O Brasil tem talento, escala, mercado consumidor e capital humano. O que nos falta, fundamentalmente, é coragem institucional para reconhecer que errar faz parte do processo e que quem nunca erra provavelmente também nunca está inovando.
Não defendo o erro pelo erro. Defendo o direito ao risco calculado, à experimentação intencional e ao aprendizado acelerado.
O Brasil que acredito ser possível é aquele em que o empreendedor que errou três vezes antes de acertar na quarta tentativa seja chamado de experiente, não de incompetente.
Porque será esse Brasil que conseguirá competir, de igual para igual, com o restante do mundo.
Diego Teixeira, advogado, é CEO da Grownt