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O fio e a trama(8): a trama exposta(3): um Estadista em Washington.
Por ADHEMAR BAHADIAN
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Publicado em 10/05/2026 às 09:19
Alterado em 10/05/2026 às 09:25
A polarização política interna no Brasil cega a dimensão do país nesta hora de angústia e guerras no mundo.
A visita de trabalho de Lula a Trump teve dimensão igual, ou talvez maior, do que a visita de Estado do Rei Charles III que a antecedeu de poucos dias. Certo, por ser visita de trabalho e não de Estado, Lula não teve a possibilidade de falar ao Congresso americano. Charles III não foi submetido às sempre arriscadas entrevistas à imprensa no Salão Oval. Lula também não. As semelhanças não terminam aí.
O Rei nem de longe abordou os terríveis rumores de que os Estados Unidos poderiam se tornar neutros ou até apoiar a reclamação argentina sobre as Ilhas Malvinas. Lula jamais questionou a eventual intrusão de Trump na corrida eleitoral brasileira em outubro próximo.
Os governos passam e os Estados permanecem. As relações históricas entre os Estados Unidos e o Reino Unido tornam impensáveis eventuais traições ou artimanhas. Nossas relações com os Estados Unidos não são da mesma dimensão. Porém, são estreitas e igualmente históricas. Os Estados Unidos foi o primeiro país a reconhecer nossa independência e assumimos o nome de Estados Unidos do Brasil. Durante a Primeira República foi inquestionável a “aliança não- escrita“ entre os dois países, o que muito ajudou em nossos pleitos jurídicos de limites territoriais em tribunais internacionais. O Brasil foi o único país latino-americano a enviar tropas para ajudar os aliados na Segunda Guerra Mundial, além de facilitar a aviação militar norte-americana com bases no nordeste brasileiro, indispensáveis para os ataques no “front” africano.
Tivemos e continuamos a ter problemas de natureza econômica e política com os Estados Unidos e fomos sempre adversários leais e competentes em órgãos multilaterais de comércio, sobretudo depois dos anos 1960 no GATT, na OMC e na ONU. Nada, porém, nos fez tratar os Estados Unidos de forma arrogante ou capciosa. Da mesma forma que nunca igualmente pleiteamos “relações carnais” ou qualquer outro tipo de temor reverencial.
Ernesto Geisel e Antônio Francisco Azeredo da Silveira aprofundaram nosso diálogo com os Estados Unidos resguardando sempre nossa universalidade diplomática. Kissinger telefonava para Silveira sempre que estavam em jogo os processos de independência de Angola e Moçambique em que nossas posições eram divergentes. Nunca houve ameaças de pressões indevidas.
Nada do que recordei acima foi preciso Lula recordar a Trump. A marca do Estadista se revelou desde o primeiro instante. Revejam as fotos do cumprimento de mãos que Lula faz a Trump na entrada da Casa Branca. Observem o toque de Lula no braço de Trump. O sorriso imediato de Trump. O degelo.
A imprensa brasileira fica a perguntar: mas, não houve resultado? Foi só papo?
Lamento esta atitude. Esperava-se uma briga de galos e havia até os que torciam por uma “bronca” de Trump em Lula. Ledo engano. Lula falou pelo Brasil, mas deixou uma mensagem que interessa a todo o mundo democrático.
O respeito a soberania dos Estados, pedra angular da Diplomacia brasileira desde os tempos da Conferência de Haia com Rui Barbosa. Falou de comércio sem fronteiras em que se comercia com países e não com ideologias e falou no direito ao desenvolvimento e nossa disponibilidade de receber o concurso do capital estrangeiro desde que em conformidade com as leis brasileiras.
Lula representa, queiramos ou não, o melhor do Brasil. Sua história pessoal é um atestado de que um homem pobre, um torneiro mecânico pode se tornar um Estadista de dimensão internacional. Está no nível de grandes homens do século XX como Nelson Mandela.
A maior riqueza do Brasil não é apenas as terras raras. A maior de nossas riquezas é nosso povo que elegeu Lula três vezes e certamente o reelegerá pela quarta.
Ele está acima dos partidos de esquerda ou de direita. Mas, nunca jamais em tempo algum se meteu a Messias. Que Deus o guarde.
*Embaixador aposentado