ARTIGOS

Carta aberta a uma mãe de hoje

Por MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER

Publicado em 09/05/2026 às 11:54

Alterado em 09/05/2026 às 11:54

Sei que a maternidade te surpreendeu um pouco, embora você a desejasse e muito. A surpresa veio desde a gravidez. Sabia de ouvir contar, mas sabemos todas que viver em carne própria a transformação do corpo, a falta de posição para sentar-se ou dormir, o ganho de peso, o apetite voraz, a vontade de comer coisas que normalmente não comia é bem mais difícil. Assim como o sono invencível que não permitia mais que você vivesse sua contagiante alegria madrugadas afora, cantando, conversando.

O parto nem foi tão problemático, apesar de permeado por um susto; após horas e horas de contrações sem dilatação você finalmente recebeu a injeção peridural e viu seu bebê nascer lindo e sadio, apesar das duas voltas de cordão umbilical no pescoço. A angústia foi retroativa. Se fosse um parto normal, com aquela circunstância, poderia ter acabado tudo mal. Graças a Deus as decisões foram tomadas a tempo. O fato de estar num país estrangeiro, tendo que falar e dialogar em outro idioma certamente foram agravantes à situação que felizmente terminou bem.

O que veio depois não foi fácil. Após um tempo, a família que ali fora para o parto e ajudava nos primeiros meses teve que ir embora. Ficou a outra família...que também ajudava, mas criticava muito e sendo de outra cultura, não entendia o trato de um bebê da mesma maneira que você sempre havia visto com as mulheres da casa onde nasceu e cresceu. . Houve muitos telefonemas no meio da noite, você angustiada por não saber o que fazer com as cólicas, os vômitos, a tosse com secreção que durou meses, as idas ao kinesiólogo, ao pediatra, enfim tudo que faz a rotina de um bebê e que você tinha que enfrentar na solidão compatível com o exílio que é há tantos anos sua situação vital.

O filho cresceu em graça, beleza e sabedoria. E com ele você foi aprendendo a ser mãe. Trata-se de algo que acontece com todas as mães, mas que é muito mais difícil longe de sua terra e seu país. A separação do pai da criança fez você pensar muito seriamente em tentar trazê-lo para o Brasil. Não foi possível.

Depois de vários anos difíceis e tumultuados, buscando sempre uma estabilidade em meio à solidão e instabilidade que a vida no exterior traz consigo, você começou a ver claro que sua pátria agora era seu filho. Onde ele estivesse, ali era o seu lugar. E ali você teria que viver. E assim você fez. Assumiu a condição de estrangeira para sempre. Longe de tudo que ama em seu país: o calor, a família, a música, os amigos de infância.

Assumir essa condição de forasteira trouxe coisas positivas e boas: a maior delas foi o encontro com verdadeiros amigos e amigas que passaram a fazer parte do seu cotidiano e da vida do seu filho. Eles e elas tornaram menos pesado o fato de viver do outro lado do mundo. Com a facilidade que você sempre teve em fazer amizades, é uma nuvem de gente que tem estado perto de você, te ajudando no necessário.

Apesar da saudade e de todas as dificuldades, cada aniversário de seu filho era uma celebração verdadeira, com alegria e festa. Você e ele passaram a viajar mais para o Brasil. E qual não foi a boa surpresa de toda a família ao ouvir o francesinho falando perfeito português no segundo dia, tornando-se melhor amigo dos primos da mesma idade, jogando futebol à la Mbappé com o time de pequenos Neymares e Ronaldinhos nativos da terra Brasilis.

Sua maternidade colhia os frutos por tanto tempo semeados em campo difícil e frequentemente árido. Você se reconciliava cada vez mais com sua identidade de mãe. Mãe solo, mãe exilada, mas mãe, fundamentalmente mãe.

Chegou um momento crucial, no entanto, quando essa maternidade deu um salto de qualidade. Seu filho esteve em perigo. O menino belo e forte, já entrando na adolescência teve um problema sério de saúde que preocupou a todos e que se abateu como um pedregulho de várias toneladas sobre você.

Aí eu vi um lado que não conhecia na filha caçulinha, doce, alegre e despreocupada: a fúria da fêmea que defende a cria. E assisti o acontecimento da metamorfose que te transformou em guerreira invencível, de lança em punho, enfrentando todos os obstáculos para ajudá-lo a superar a crise.

Você plantou-se ao lado desse menino e esqueceu o resto. E foi a presença calma e forte que o ajudou a superar o problema. Agora, que ele emergiu para a cura e já volta à vida normal, vi que não podia deixar de celebrar o dia das mães enviando a você esta carta aberta.

Ser sua mãe hoje me enche de um orgulho infinito. É realmente uma graça divina ver você ser mãe desse menino adorável e ver nele a prioridade absoluta de sua vida. Parabéns, minha filha. A cadeia da vida tem que ser cuidada por nós, mulheres, que trazemos em nosso corpo a morada dessa mesma vida. E você tem feito isso com uma entrega e uma fé totais.

Nos momentos mais difíceis você me pedia para rezar. Eu te disse várias vezes que podia contar com isso. E te recomendei: reza para Nossa Senhora. Ela é mãe e entende dessas coisas. Seguramente a mãe de Jesus segurou na sua mão e na mão do seu filho. E ajudou vocês a emergirem juntos para a luz que mostra o caminho da vida verdadeira.

Sei que onde você está o Dia das Mães é celebrado em outra data. Aqui no seu país, nós o celebramos no segundo domingo de maio. A festa familiar será sua. Você merece muito. Quando penso em você penso na frase que a atriz irlandesa Jessie Buckley disse ao receber o Oscar de melhor atriz. A premiação ocorreu no dia em que no Reino Unido se celebrava o Dia das Mães.

Já com a estatueta na mão, Jessie Buckley não falou de carreira ou coisas afins. Disse apenas: “Este filme me ensinou muito sobre o coração de uma mãe. Sobre a alegria, o medo e a força que vivem juntos dentro dele. Então eu gostaria de dedicar isso ao belo caos que existe no coração de uma mãe. E às mulheres que vieram antes de nós, que criaram, amaram, lutaram e mantiveram as histórias vivas”.

Continue vivendo esse belo caos, minha filha. Sem esquecer que do caos primordial Deus criou o mundo. Você o está criando a cada dia ao lado de seu filho.

Maria Clara Bingemer é teóloga e autora de vários livros, sendo um deles "Sede de Deus nos desertos contemporâneos. Aproximações teopoéticas", SP, Recriar, 2025

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