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O fio e a trama (7): a trama exposta (2) - A farsa
Por ADHEMAR BAHADIAN
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Publicado em 03/05/2026 às 14:06
Alterado em 03/05/2026 às 14:08
Uma das vantagens de ter mais de 80 anos é a de não se surpreender com facilidade. Ou com temor.
A sessão do Congresso Nacional que rejeitou o nome indicado por Lula como próximo juíz do Supremo Tribunal Federal me lembrou a sessão do mesmo Congresso Nacional que, em 1964, declarou vaga a Presidência da República “por ter o presidente Goulart se evadido do país”.
Com uma martelada, Auro de Moura Andrade encerrou a sessão relâmpago sem dar ouvidos ao então deputado Tancredo Neves que gritava em alto e bom som que Jango estava no Rio Grande do Sul. Encerrava a sessão e abria a senda que nos levou ao golpe militar.
A história e os anais do Congresso registram a revolta de Tancredo Neves e seu grito: “Canalhas. Canalhas”.
A história do Brasil se repete como farsa. O festival de abraços e gritos de vitória na sede do Parlamento brasileiro parecia uma final de Copa do Mundo. Mas, na população terá ressoado como a final de 7 × 1 contra a Alemanha.
Tão óbvia a artimanha. Tão pobre o enredo. Tão desafinada a bateria, que o Carnaval nascia como Quarta-feira de Cinzas. E deixava assinado com lacre de deboche a insustentável manobra mesquinha.
Não tardaram os editoriais dos jornais tidos como conservadores. Dentre tantos, registro o do Estado de S. Paulo deste sábado, 2 de maio, que não deixou barato a estratégia do Comandante Brancaleone e sua patética performance autoritária, inclusive a murmurar pelo microfone, antes da contagem oficial, o resultado final, embalado no berço do Bebê de Rosemary.
O povo, tido como trouxa, engoliu em seco e se preparou para o dia da ressurreição dos que já foram: a redução dos tempos de cadeia para a cúpula do golpe de oito de janeiro. Embora ostensivamente repelida pelo povo, aprovada como senha para sucessivas assombrações planejadas aqui e alhures.
Sou, como aprendiz do ofício de comentarista da comédia humana, muito grato e reconhecido aos diretores, roteiristas, atores e figurantes, bem como os “agentes secretos” deste pastelão que em muito me facilita a tarefa de expor porque “ainda estamos aqui”.
Começo pelo mais simples: é óbvia a tentativa de tornar fumaça de fogo de artifício o incêndio do caso Master. A maior e mais profunda corrupção institucionalizada do Brasil, a rivalizar com casos semelhantes nos Estados Unidos da América. E aqui é preciso ser claro, os esbirros do capitalismo antropofágico trazido pelo neoliberalismo e aditivado pelo trumpismo, tornaram cobiça pelo enriquecimento, a qualquer custo, uma praga igual ou maior do que o COVID.
A corrupção é inerente a um sistema em que os valores “antiquados” da honestidade, do respeito ao dinheiro público foram substituídos pela ambição do enriquecimento rápido e, sempre que possível, mascarado de modernidade e avanço civilizacional.
Sabemos todos que, um dos “princípios“ do neoliberalismo foi o de apregoar que as restrições impostas pelas leis de combate a concorrência desleal, como as que pretendiam restringir a ação de conglomerados e trustes, foram as primeiras medidas adotadas pela cantilena de que a riqueza de todos, inclusive dos assalariados, aumentaria com a maior liberdade do “espírito animal” do empreendedorismo.
Esta é uma falácia provada pelos fatos. O neoliberalismo, muito longe de se afastar de regras e leis supostamente criadas pelo Estado-Nação, tornou - se um arquiteto de leis que facilitam a concentração do capital e sobretudo do capital financeiro. Durante décadas o afrouxamento de regras financeiras contribuiu para a criação de créditos podres e endividamentos impagáveis.
O fenômeno teve inclusive apoio do Fundo Monetário Internacional, com especial virulência no Consenso de Washington, que tanto enfeitiçou os financistas brasileiros, que nos “aporrinhavam” com o refrão que o Brasil precisava “fazer o dever de casa”. Tudo acabou, como também sabemos, com a crise das hipotecas nos Estados Unidos e com a “condenação” do FMI ao Consenso de Washington. O mal que nos fez é o único consenso sobre esta manobrinha neoliberal.
Mas, o importante a registrar é que nesta fase, que em alguns círculos ainda perdura, a concentração do capital exigia a contração da remuneração do trabalho, das proteções sociais, em especial da saúde e da educação. E, praga das pragas, começou a se instalar a doutrina de que o progresso e a ascensão social seriam inviáveis para toda a humanidade. Nesta linha, a sobrevivência impunha a audácia do enriquecimento a qualquer custo.
Outra falácia igualmente perniciosa foi a de a redução dos impostos, sobretudo o da renda, a ser minimizado para os ricos e mantidos para os assalariados. A justificativa de uma tal antinomia seria aumentar a capacidade de investimento dos ricos e desta forma beneficiar a sociedade como um todo. As estatísticas provam que o grande benefício foi para os paraísos fiscais.
Em resumo, a ganância pelo dinheiro “precificou” a decência e a corrupção se tornou generalizada. O caso Master é o exemplo maior no Brasil e o envolvimento de um espectro maior de notáveis políticos torna a necessidade de abafá-lo uma questão de segurança nacional. Ou pelo menos assim pensam os ideólogos da corrupção.
Mas não se esgota aí a farsa. Será necessário não só absolver os corruptos, mas solidificar a corrupção e revesti-la de uma honorabilidade inquestionável. E esta face também aparece no Congresso Nacional. E este será o que veremos em próximo artigo.
*Embaixador aposentado