ARTIGOS
A sociedade da validação
Por CRISTIANA AGUIAR
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Publicado em 30/04/2026 às 20:05
Alterado em 30/04/2026 às 20:05
Os dias de hoje chamam atenção pela dificuldade que os pais encontram para criar seus filhos.
Não obstante a correria da vida, o cotidiano, imprensado pela necessidade cada vez maior de entregar resultados, dá a impressão de que o essencial perdeu importância, ficou distante.
São tempos nos quais é mais difícil discernir o que não fazer do que escolher o que realizar. São muitas possibilidades, muitas opções, muitas distrações.
Em uma manhã, achei interessante uma conversa entre a minha filha primogênita e a caçula. A mais velha estava indagando qual era o desenho preferido da mais nova. Esta não conseguia responder, quando minha filha falou: “claro que não dá para escolher, tem opções demais”.
Esta geração não sabe esperar; está a um clique dos desejos: música, locomoção, comida, vestuário e por aí vai.
Limites e desconfortos são incompreensíveis. O êxito dos ensinamentos dos pais é atravessado pela avalanche de atrativos da era digital.
Aí essa geração chega ao mundo corporativo, um ambiente em que falar sobre o que é essencial pode parecer uma diminuição de possibilidades, quando, na verdade, melhora a capacidade de análise e é sinal de sabedoria, trazendo mais clareza e valorização aos colaboradores.
Uma ação alimenta a outra: pessoas sobrecarregadas não conseguem dar atenção aos filhos; filhos com excesso de possibilidades ao alcance não conseguem dar ouvidos aos pais.
Catalisando toda essa dinâmica, temos os algoritmos, confirmando gostos, validando preferências e trazendo a falsa impressão de que a única verdade que existe é a da própria pessoa.
Como sair desse impasse? Primeiramente, gostaria de ressaltar que sou uma amante da tecnologia; não se pode ignorar seus inúmeros benefícios.
O que trago à reflexão é como não permitir que ela fortaleça vieses e gere um grave afastamento entre as gerações.
Conviver com inúmeras gerações é um enriquecimento indispensável. Costumo dizer que o casamento perfeito se dá entre a inovação e a experiência. Os mais velhos se atualizam com os mais novos, e estes podem usufruir da sabedoria de quem está há mais tempo na jornada. O caminho quem faz somos nós, mas podemos usufruir das estradas abertas por outras pessoas.
Quando temos humildade para ouvir os que pensam diferente de nós, exercitamos nossa capacidade de análise e ampliamos nosso repertório. Pessoas que não ouvem ninguém, muito provavelmente, acabarão sem ter mais o que falar.
A comunicação em bolhas é um potencializador da ignorância. Cada vez mais pessoas entendem suas verdades como absolutas, por conta da repetição de informações que validam suas ideias. De acordo com o viés da dissonância cognitiva, o ser humano tem uma tendência a desprezar o que contraria suas convicções, e o comportamento dos algoritmos as torna cada vez mais fortes.
Voltando às crianças e aos adolescentes, eles precisam ser confrontados para amadurecer e desenvolver a personalidade. Precisam de um mundo mais amplo para construir sua identidade.
A diferença entre as crianças e os adolescentes de gerações anteriores e os de hoje é que os das gerações passadas eram validados por um conjunto de amigos, parentes, vizinhos e até mesmo ídolos, bem menor do que a avalanche propiciada pela internet.
Hoje, eles têm a nítida certeza de que o mundo pensa como eles, e os pais são quase ETs.
A saída para isso é o estímulo às boas conversas: diálogo e disciplina. Se não soubermos dialogar em família, como falaremos do lado de fora?
Fala-se muito sobre respeito, mas pratica-se pouco. Haja vista o modo como a nossa sociedade trata as pessoas que não produzem riquezas: indígenas, idosos e enfermos. E aqui faço um parêntese: pessoas não gostam de ser insignificantes; quando se sentem assim, podem agir de forma mais agressiva. Daí a sociedade em que vivemos ter se tornado um ringue de acusações, gente machucada machucando outras.
Sei que este é um lugar comum, mas, por ser verdadeiro, vou ressaltar: nossa sociedade de amanhã é construída pelas crianças e adolescentes de hoje. Logo, se queremos ser agentes de mudança, que ela comece dentro de nossas casas.
Que possamos desenvolver uma geração de pessoas com mentes equilibradas, que façam escolhas que gerem valor em um mundo cheio de distrações e repleto de excesso de emoções.
Cristiana Aguiar. Economista. Especialista em Gestão de Empresas e Pessoas