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Dmytro Rukin: O fundador europeu na América Latina, no que errei e o que me surpreendeu
Por DMYTRO RUKIN
Publicado em 27/04/2026 às 10:37
Alterado em 27/04/2026 às 10:37
Passei uma semana no Brasil em abril - trabalhando no nosso escritório local, me reunindo com merchants, conversando com a equipe que está na ponta. Voltei com três observações que ficaram comigo.
Os comerciantes aqui estão mais afiados do que há dois anos. Querem saber sobre velocidade de liquidação, exposição cambial e o que acontece quando a regulação muda. É uma conversa muito diferente de "Vocês aceitam Pix?" O nível de exigência para ser considerado um parceiro de pagamentos sério está subindo rápido.
Do lado da infraestrutura, a pergunta passou de como construir trilhos de pagamento no Brasil para quem já os tem, licenciados, integrados e comprovados sob escrutínio regulatório. Essa mudança recompensa os operadores que fizeram o trabalho pesado desde o início.
E tem o panorama geral. Todo operador sério de fintech na região está de olho no Brasil agora. O framework de Open Finance aqui está dois a três anos à frente do resto da LATAM. Como o Brasil constrói crédito em cima do Pix, conecta dados entre instituições e cria infraestrutura em tempo real que escala. Isso vira o modelo que Colômbia, México, Chile e Argentina vão seguir. Estar dentro desse mercado, construir dentro dele, não é só uma oportunidade comercial. É um lugar na primeira fila pra ver pra onde a região inteira está indo.
Nada disso me surpreendeu exatamente. Mas ver de perto me lembrou porque tomei a decisão de construir aqui em primeiro lugar.
Entrei na América Latina com um plano. Tinha estudado o mercado, lido os relatórios, conversado com pessoas que fizeram negócios na região. Achava que entendia no que estava me metendo. Parte dessa preparação se sustentou. Boa parte, não. E as coisas que me pegaram desprevenido acabaram definindo como eu construo, como lidero e como penso este mercado hoje.
A primeira coisa que calculei mal foi a velocidade. Vim da Europa, onde as fintechs se movem rápido, mas dentro de estruturas bem estabelecidas. Esperava que a América Latina fosse mais lenta, mais cautelosa, ainda encontrando seu lugar. O oposto era verdade. A economia digital da região saiu de US$148 bilhões em e-commerce doméstico em 2019 para US$255 bilhões em 2023. Só o Brasil detém 32,2% do e-commerce regional, a maior fatia de longe. São 300 milhões de compradores digitais na América Latina, e esse número deve crescer mais de 20% até 2027. O ritmo aqui é intenso, e quem chega achando que vai ter tempo para ir se ambientando já está atrasado.
Também subestimei quanta paciência este mercado exige em troca. Construir a LaFinteca com uma licença própria do Banco Central do Brasil significou se comprometer com um processo que não se adapta ao seu cronograma. Conversas regulatórias avançam no próprio ritmo. A confiança com parceiros e clientes locais se constrói devagar. Não existe atalho para credibilidade aqui, e aprendi rápido que tentar impor velocidade de execução europeia sobre prazos regulatórios brasileiros gera mais atrito do que progresso. O mercado premia fundadores que chegam com intenção de longo prazo e provam isso mês a mês, ano a ano.
O que me surpreendeu de verdade foram as pessoas. As pessoas que escolhem construir fintechs nesta região trazem uma combinação de resiliência, criatividade e profundidade cultural que eu não tinha encontrado em nenhum outro lugar. Resolvem problemas com menos recursos e mais engenhosidade do que a maioria das equipes com quem trabalhei na Europa. A equipe da LaFinteca hoje opera entre a Europa e a América Latina, e a dinâmica intercultural que construímos é uma das coisas de que mais me orgulho. Nos torna mais afiados, mais adaptáveis e mais conectados com a realidade dos mercados que atendemos.
Houve um momento, talvez dois anos depois, em que algo mudou na forma como eu pensava tudo isso. Parei de pensar na América Latina como um mercado para entrar e comecei a pensar nela como um lugar para construir algo que importa. Parece uma diferença pequena, mas mudou tudo. Quando você está "entrando num mercado", sempre olha de fora, medindo contra o lugar de onde veio. Quando está construindo num lugar, se compromete a entendê-lo nos seus próprios termos. Para de comparar e começa a se adaptar. Essa mudança transformou como lidero a LaFinteca, como contrato, como decido onde investir nosso tempo.
Se outros fundadores ou operadores europeus me perguntam sobre a LATAM, digo três coisas. Venham preparados, porque este mercado é mais sofisticado do que vocês imaginam. Venham com humildade, porque as suposições que trazem de casa estarão erradas mais vezes do que esperam. E venham para o longo prazo, porque os fundadores que tratam a América Latina como uma oportunidade rápida costumam ir embora frustrados. Os que se comprometem a construir aqui de verdade encontram um mercado que cresce rápido, avança e está genuinamente aberto a quem respeita o que é necessário para operar aqui.
Vim para a América Latina para construir uma empresa. A LaFinteca é o resultado desse compromisso, e estou apenas começando.