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O céu não é o limite, mas o preço pode ser: a tempestade perfeita nas passagens aéreas internacionais
Por FABRIZIO GAMMINO
Publicado em 18/04/2026 às 10:50
Alterado em 18/04/2026 às 10:50
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O ano de 2026 já nos apresenta desafios que, para muitos, pareciam distantes. Se você tem acompanhado o noticiário econômico, deve ter notado que o dólar, finalmente, cedeu e se estabilizou em um patamar abaixo de R$ 5,00. A lógica econômica mais básica sugeriria que, com a moeda americana mais barata, viajar para o exterior ficaria mais acessível. No entanto, a realidade que se impõe nos balcões das companhias aéreas e nas telas dos nossos smartphones é diametralmente oposta: as passagens aéreas internacionais não estão barateando. Pelo contrário, preparam-se para uma escalada que exige nossa atenção.
Para entender essa aparente contradição, precisamos olhar para além do câmbio e analisar a "tempestade perfeita" que se forma no horizonte da aviação civil, combinando fatores geopolíticos globais e mudanças estruturais na nossa própria legislação tributária.
O primeiro componente dessa equação é o combustível. O querosene de aviação (QAV) representa, historicamente, a maior fatia dos custos operacionais das companhias aéreas, variando entre 30% e 45% do total [1]. Com a recente escalada das tensões no Oriente Médio, especialmente o conflito envolvendo os Estados Unidos e o Irã, o preço do barril de petróleo disparou, ultrapassando a marca de US$ 82 [2]. A Petrobras, acompanhando a paridade internacional, já repassou um aumento significativo, superior a 50%, no preço do QAV. Como bem pontuou John Rodgerson, CEO da Azul, durante o Fórum PANROTAS 2026, o Brasil já possui o querosene de aviação mais caro do mundo, e qualquer conflito global acende um alerta vermelho imediato para o setor [2].
Mas a geopolítica é apenas metade da história. A outra metade está sendo escrita agora mesmo, nos corredores de Brasília, com a implementação da Reforma Tributária. E é aqui que o cenário para os viajantes internacionais se torna ainda mais complexo.
Atualmente, as passagens aéreas internacionais gozam de uma desoneração de tributos, sendo tratadas, na prática, como uma espécie de exportação de serviços pelas companhias aéreas. Essa imunidade tributária garante que o reflexo de impostos para quem viaja para fora do Brasil seja zero. Contudo, as regras do jogo estão prestes a mudar drasticamente.
Em nota oficial divulgada ontem, 14 de abril, o Ministério da Fazenda buscou esclarecer os impactos da reforma no setor [3]. A pasta confirmou que, após um período de testes em 2026, a parte federal da Reforma Tributária entrará em vigor em 1º de janeiro de 2027. É nesse momento que a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) substituirá o PIS/Cofins. Para as passagens internacionais, isso significa o fim da alíquota zero. Iniciaremos com uma cobrança que, de forma escalonada, atingirá o patamar de 28% ao final da transição.
A situação se agrava a partir de 2029, quando entra em cena o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), de competência estadual e municipal, substituindo o ICMS e o ISS [3]. A combinação de CBS e IBS formará o novo Imposto sobre Valor Adicionado (IVA) dual brasileiro. Diferente dos tributos atuais, que muitas vezes ficam "escondidos" na cadeia produtiva, o IVA será acrescido diretamente ao preço final [1].
O Ministério da Fazenda argumenta que a reforma também trará desonerações, como nos tributos sobre o abastecimento dos voos internacionais e sobre o catering, e que as empresas aéreas receberão crédito integral do IBS e CBS pagos em suas compras [3]. No entanto, como alertam economistas, a margem de manobra das companhias é estreita. Rafael Chaves, professor da FGV EPGE, é categórico: "Se está mais caro para levar passageiro daqui para lá, de lá para cá, esse custo tem que ser repassado na passagem" [1].
Curiosamente, o impacto será assimétrico. Enquanto os voos internacionais enfrentarão a alíquota cheia de 28%, a aviação regional e doméstica foi contemplada com um regime específico aprovado pelo Congresso Nacional, que prevê uma redução de 40% nas alíquotas de IBS e CBS [3]. Na prática, a carga tributária para voos internos deve permanecer próxima aos atuais 12% a 18%, mitigando o choque para o mercado doméstico.
O que se desenha para os próximos anos é um cenário de encarecimento real e estrutural das viagens internacionais. Não se trata apenas de uma flutuação momentânea causada pelo preço do petróleo, mas de uma mudança definitiva na forma como o Brasil tributa a conectividade global dos seus cidadãos.
Como executivo que acompanha de perto a inovação e o ambiente de negócios, vejo que o desafio para as companhias aéreas será imenso. Elas precisarão inovar não apenas em suas operações, mas na forma como entregam valor ao cliente, justificando tarifas inevitavelmente mais altas. Para nós, viajantes e profissionais que dependem da conexão com o mundo, o planejamento financeiro e a antecipação se tornarão ferramentas ainda mais indispensáveis.
A tempestade está armada. O dólar pode até ajudar, mas, no fim das contas, a conta do querosene e do novo IVA chegará ao balcão de check-in. Resta saber como o mercado e os consumidores irão se adaptar a essa nova altitude de preços.
Referências
[1] Times Brasil | CNBC. "Guerra, querosene e reforma tributária pressionam tarifas aéreas". Disponível em: https://timesbrasil.com.br/brasil/voar-mais-caro-guerra-querosene-reforma-tributaria-pressionam-tarifas-aereas/
[2] Portal PANROTAS. "Preço das passagens aéreas subirá no Brasil devido à guerra EUA vs. Irã, preveem CEOs". Disponível em: https://www.panrotas.com.br/aviacao/empresas/2026/03/preco-das-passagens-aereas-subira-no-brasil-devido-a-guerra-eua-vs-ira-preveem-ceos_226332.html
[3] Ministério da Fazenda. "Ministério da Fazenda faz esclarecimentos sobre a Reforma Tributária e o preço das passagens aéreas". Disponível em: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/canais_atendimento/imprensa/notas-a-imprensa/2026/abril/ministerio-da-fazenda-faz-esclarecimentos-sobre-a-reforma-tributaria-e-o-preco-das-passagens-aereas
Fabrizio Gammino é CO-CEO da Grownt e especialista tributário