ARTIGOS
A misoginia e seu olhar raivoso
Por MARIA CLARA BINGEMER
Publicado em 13/04/2026 às 11:37
Alterado em 13/04/2026 às 11:37
O termo misoginia provém do grego; misos (ódio) e gyne(mulher) . Sua raiz linguística já reflete uma hostilidade constante e específica com relação às mulheres. Essa raiz mostra que a atitude misógina diz respeito não simplesmente a desigualdades sociais ou políticas, ou mesmo afetivas e passionais.
Trata-se de algo mais profundo. À diferença do machismo, que se refere a todo um sistema coletivo de dominação material e ideológico do homem sobre a mulher, antigo de muitos séculos e mesmo milênios, a misoginia mostra um olhar onde se pode discernir melhor a paixão adoecida que forma sua base.
Trata-se de aversão, raiva e, em termos extremos, ódio. Enquanto o machismo se baseia em dinâmicas relacionais estabelecidas e normalizadas ao longo do tempo na sociedade, a misoginia envolve emocionalidade e não tem causa social objetiva. O machismo proclama como naturais certas dinâmicas estabelecidas, repetindo-as com seu comportamento e discurso: “em homem nada pega”; “cuidado para não se dedicar muito ao trabalho, pois pode perder seu marido”; “toda mulher necessita de um homem para protege-la”.
O machismo pretende também organizar o espaço social, destinando o espaço privado e doméstico à mulher, enquanto o espaço público, a política e a visibilidade corresponderiam aos homens. A realização da mulher estaria em servir ao homem, cuidar de sua casa, parir seus filhos, alimentá-los e ensinar-lhes a reproduzir a cadeia machista que diz em suma que mulher boa é a que conhece o seu lugar. E este lugar é o da invisibilidade do espaço privado
Se a misoginia é diferente do machismo, como então se pode encontrar sua origem? Surpreendentemente esta reside no simples fato da mulher ser mulher, da outra ser outra, da diferença ser diferença e insistir em ter vontade própria e ser aquilo que é, ou seja, mulher. .As expressões da misoginia são em geral violentas e agressivas, podendo chegar a ser exterminadoras.
Como exemplo, veja-se a crescente onda de feminicídios que se observa em nosso país. Mulheres de todas as idades, desde a tenra adolescência até a idade madura são eliminadas e mortas por não haverem se submetido às leis do patriarcado ou às exigências do parceiro. As relações entre homens e mulheres tornam-se um poço de conflitos onde a parceira feminina é sempre suspeita de sedução, pecado, traição, infidelidade. Mais grave ainda, essas características são consideradas constitutivas e inerentes à sua própria estrutura identitária feminina. O preconceito constrói narrativas e gera comportamentos cada vez mais ameaçadores e literalmente perigosos.
Há que reconhecer que as religiões em geral, e especialmente aquelas que são a base da civilização ocidental, como judaísmo e cristianismo, colaboraram bastante para a criação de uma cultura misógina. A Bíblia hebraica, ao descrever a relação entre Deus e o povo, ensina que o parceiro masculino é o divino e o feminino é o humano pecador, infiel e traidor. As leis que penalizam as mulheres quando traem os maridos é severa: apedrejamento e morte.
Nas Escrituras Cristãs segue-se a mesma lei, uma vez que Jesus é judeu e o Cristianismo nasce no seio do judaísmo. No entanto, encontram-se passagens que abrem espaços mais arejados e livres. José, filho de David, não repudia sua noiva Maria ao constatar a gravides que não provinha dele. Jesus aparece em relação cordial com as mulheres, admitindo várias em seu grupo, ao contrário dos mestres de sua época. Elogia sua fé e muitas de suas atitudes, dando-as como exemplo aos discípulos. Diante da adúltera que espera que condenem, não o faz, embora não aprove sua atitude. Deixa-se tocar e homenagear pela pecadora pública em casa do fariseu Simão embora reconheça que muito pecou, mas foi redimida porque muito amou.
Mesmo o judeu Paulo de Tarso, autor de afirmações que podem ser consideradas misóginas, inclui mulheres na igreja nascente e lhes confia responsabilidades importantes. Em sua formação está presente a mulher Priscila, ao lado de Aquila e sempre mencionada antes deste. Diaconisas e profetisas estão presentes nas narrativas neotestamentárias.
Há que reconhecer que esta abertura dos primeiros tempos não foi seguida pelas igrejas e que lamentavelmente hoje ainda se percebe traços de misoginia no corpo eclesial. Um silenciamento recobre a presença e a importância da mulher. Muitas vezes a atitude de desdém predomina quando alguma mulher fala e se faz presente no corpo eclesial. Houve a época em que muitas mulheres de gênio e santidade foram consideradas perigosas e bruxas, e consequentemente queimadas na fogueira. E ainda hoje o acesso aos ministérios ordenados é possível para as mulheres nas igrejas protestantes, mas não na igreja católica ou na ortodoxa.
É triste constatar que as atitudes misóginas – sejam elas verbais, psicológicas ou físicas chegando até o ponto extremo do feminicídio - estão muito presentes em países cristãos. O Brasil é o maior país católico do mundo em números absolutos e, no entanto, é um dos campeões de injúrias às mulheres e mesmo de feminicídios.
Recentemente, o Senado brasileiro aprovou projeto de lei que criminaliza e torna inafiançável e imprescritível o ódio contra as mulheres. Uma discussão intensa se seguiu, enquanto o projeto, aprovado pelo Senado em março de 2026, seguiu para a Câmara dos Deputados para análise. Se aprovado sem alterações, irá para sanção presidencial antes de se tornar lei.
Enquanto isso, a sociedade espera. Espera por um instrumento legal que a torne mais humana, já que não conseguiu fazer isso por outros meios. E as igrejas dão passos importantes na direção de uma maior visibilização das mulheres. A misoginia representa não apenas um atraso, mas um perigo. A educação das novas gerações e a legislação fazem um esforço para retirá-la do cenário de uma vida que deseja e luta por maior qualidade.
Maria Clara Bingemer é teóloga. É autora de vários livros entre eles Teologia de Mulheres, Petrópolis, Vozes, 2025