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Viver, Trabalhar e Investir: a revolução do uso misto do Centro

Por VASCO RODRIGUES

Publicado em 13/03/2026 às 09:33

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Por várias décadas, o Centro das grandes cidades brasileiras foi visto como quase que exclusivamente uma área restrita ao trabalho, e o Rio não foge à regra. À noite e nos fins de semana, ruas vazias, comércios fechados e pouca vida urbana reforçavam a percepção de um espaço funcional, mas pouco habitável. Esse cenário, contudo, está mudando rapidamente.

A retomada do uso misto no Centro marca uma transformação profunda na forma como o Poder Público e a iniciativa privada pensam na logística do lugar. Morar, trabalhar, circular, consumir e investir passam a coexistir no mesmo território, criando locais mais dinâmicos, seguros e economicamente sustentáveis. Essa mudança de paradigma reposiciona o Centro não apenas como polo corporativo, mas como um lugar completo para viver.

A volta dessa região como um território também de moradia tem efeito direto sobre a infraestrutura urbana. A resolução é quase lógica: quando as pessoas passam a viver em determinado local, surgem novas demandas por serviços, comércio, mobilidade, lazer e cultura. Restaurantes, mercados, escolas, academias e espaços de convivência acompanham esse movimento, estimulando investimentos públicos e privados e devolvendo vitalidade ao espaço urbano. O resultado é um ciclo virtuoso: mais moradores geram mais infraestrutura, que por sua vez atrai mais pessoas e negócios.

Esse novo contexto se reflete diretamente nos indicadores do mercado imobiliário. Para investidores, o Centro deixa de ser uma aposta restrita ao uso comercial e se consolida como um território estratégico, com alta demanda por locação, tanto residencial quanto de curta permanência.

Ponto determinante para isso foi, sem dúvidas, a aprovação da Lei Complementar 232, da Câmara Municipal, que trouxe novas oportunidades para as incorporadoras no Rio e o Reviver Centro, que oferece, por exemplo, isenção de IPTU, redução de ITBI e flexibilização de uso para estimular investimentos. Inseriram-se, assim, os “retrofits”, projeto que tem como mote modernizar edifícios, preservando a arquitetura original e dando nova roupagem a locais com finalidade comercial para uso residencial.

Está nesse a transformação do prédio do antigo Banco Aliançana Praça Pio X. Construído no fim dos anos 60, o edifício tem a fachada assinada por Lúcio Costa, um dos grandes nomes e pioneiros da arquitetura modernista no Brasil. Ressignificado para um novo uso, o projeto preserva suas características arquitetônicas marcantes e traduz a essência do uso misto: unidades compactas e funcionais, pensadas para quem deseja morar perto do trabalho, valoriza a mobilidade no dia a dia e reconhece no Centro uma oportunidade consistente de investimento.

Em síntese, a revolução do uso misto não é apenas uma tendência arquitetônica ou imobiliária; é uma mudança de mentalidade sobre como as cidades devem funcionar. E o Centro, antes visto como um espaço de passagem, reassume seu papel original: o de coração pulsante da vida urbana, onde viver, trabalhar e investir fazem parte de um mesmo movimento.

Vasco Rodrigues é engenheiro civil e CEO da Fator Realty.

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