ARTIGOS
Quem somos nós: o reconhecimento da infâmia
Por ANTÔNIO CARLOS DE ALMEIDA CASTRO
Publicado em 04/01/2026 às 19:21
Alterado em 04/01/2026 às 19:21
Bandeira da Venezuela Foto: Reuters/Tomas Bravo
'A casa que eu amei foi destroçada.
A morte caminha no sossego do jardim.
A vida sussurrada na folhagem.
Subitamente quebrou-se , não é minha.'
Sophia de Mello Breyner
A questão não é definir qual a nova ordem internacional com esta invasão totalitária dos EUA na Venezuela. É um pouco além. Ou muito além. Estamos assistindo ao vivo a prisão autoritária do presidente de um outro país por uma ordem dos EUA!! E a declaração fascista que os EUA vão administrar os destinos de outro país!! É algo avassalador. Dilacerante.
O que resta indagar é entender como cada um de nós se posiciona com o evidente e escancarado arbitrário. Com o abuso transmitido ao vivo. Com empáfia. Com um estupido orgulho.
Eu sei que, infelizmente, um governo Trump, autoritário, fascista, criminoso invadiu a Venezuela. Também sei que o mundo inteiro acompanha, pois os EUA se orgulham do que fizeram. Minha perplexidade é mais bucólica, quase literária. Como nós, pessoas livres, democráticas, nos posicionamos? Esta é, no fundo, frente à inexorável vilania do Trump ao invadir um pais soberano, a questão a ser discutida. A questão de fundo está além de ser se a Venezuela é ou não uma democracia. Esta é uma diversificação dos autoritários, dos não democratas, dos fascistas. Mudam o foco para se protegerem.
É claro que no frigir dos ovos o que vai restar é a discussão democrática. É sobre o autoritarismo do Trump. Sobre o arbítrio. Sobre ditadura.
Mas o que interessa agora é sobre a visão de cada um com quem convivemos. Quem é o falso democrata que amou a invasão? Quem é o empresário que não quer a pecha de bolsonarista, fascista, que apoiou a intervenção? Quem é o eterno fascistinha enrustido que foi encontrar motivos para o abuso? Quem é o fajuto intelectual que vai fazer malabarismo para tentar justificar o indefensável?
Sempre os mesmos. Cansativos. Vencidos. Incrivelmente se encastelando em uma bizarra e estranha história de “ sucesso”, que é um fracasso retumbante. Uma página triste de umas pessoas medonhas, que insistem que este ato ditatorial do Trump é uma vitória. Triste. O mundo caminha inexplicavelmente para um fracasso retumbante. E estes direitistas medíocres vão continuar se gabando do ridículo. Que tempo triste.
Me remete a Sophia de Melllo Breyner no poema “O Velho Abutre":
'O velho abutre é sábio
e alisa as suas penas.
A podridão lhe agrada
e seus discursos
têm o dom de tornar
as almas pequenas.'
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Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, é advogado. Este artigo foi publicado originalmente na Revista Fórum.