ARTIGOS
Maus e bons
Por CRISTIANA AGUIAR
Publicado em 05/02/2025 às 15:28
Alterado em 05/02/2025 às 15:30
Parafraseando parte de uma estrofe da música de Chico César, Deus me proteja: o que você preferiria, a maldade de boas pessoas ou a bondade de pessoas ruins?
Segundo o relato do apóstolo Paulo em uma de suas cartas, Deus procurou na terra um justo e não encontrou um sequer. Seria isso uma desculpa para não perseguirmos o aprimoramento? Creio que não.
Na verdade, não acredito que seria fácil responder à primeira pergunta, dada a dificuldade de discernir os maus dos bons. Como podemos reconhecer os bons se nem mesmo conseguimos interagir?
Há alguns dias, eu estava na academia e me deparei com a realidade de que as pessoas não se falam. Cada um vive em seu próprio mundo, ouve sua própria música e conversa apenas com seus pares — geralmente casais ou personal trainer e cliente.
Me atrevo a pensar que tenho um suposto amigo. Simplesmente pelo fato de ele trabalhar lá, ter um timbre de voz alto e ser bem comunicativo com seus clientes. De vez em quando, rio de suas piadas, trocamos um “bom dia” e algumas gargalhadas. Essa talvez seja a máxima expressão de amizade que é possível construir no curto prazo.
Aos poucos, depois de mais de um ano frequentando a academia, é possível trocar algumas ideias com os professores mais solícitos. Contudo, como é complicado fazer amigos...
Se pensarmos em namoro, aí complica ainda mais. Muitas pessoas preferem recorrer aos sites de relacionamento. Possivelmente porque, nesses espaços, é mais provável criar uma versão ideal de si mesmo e do outro. Acredito que nunca o ideal inconsciente esteve tão presente na construção das novas relações.
Nós conhecemos todo mundo e não entendemos sobre quase ninguém. Temos muitos seguidores, mas não sabemos a música preferida da nossa colega de trabalho.
Temos muitas facilidades, mas não temos tempo para nada. Temos acesso a tantos dados e informações, mas extraímos pouco conhecimento aprofundado sobre as coisas.
Vemos muitas novidades em frações de segundos nas redes sociais, mas enxergamos pouco acerca do que realmente nos rodeia.
Minha avó dizia: “Para conhecer alguém, é preciso comer 1kg de sal com essa pessoa.” Será que hoje estamos dispostos a comer ao menos um saco de pipoca? Tudo passa tão rápido, e a nossa paciência voa.
Se não há paciência, como vamos ouvir ideias novas? Vivemos em uma era na qual se manter competitivo não é fácil. A taxa de declínio da vantagem competitiva de uma empresa tem sido 10 vezes mais rápida do que há 20 anos.
Como disse o escritor Martin Reeves: “Uma grande ideia quase sempre parece ridícula.” No entanto, as empresas sobrevivem e se destacam por suas boas ideias. Sem paciência, não é possível incentivar a criatividade das pessoas.
Não existe outra maneira de se manter em constante crescimento sem um olhar curioso.
Recentemente, li um artigo que relatava a presença expressiva de brasileiros em uma das maiores feiras internacionais do varejo, a NRF, em Nova York. Apesar do grande percentual de empresários e executivos do setor, o artigo destacava a distância que o varejo nacional ainda tem em relação à utilização da inteligência artificial para aumentar a assertividade quanto às preferências dos clientes, gestão de estoques, etc.
Entendo que esse distanciamento se deve a vários fatores, e que a questão financeira seja um dos mais importantes. O ponto crucial, todavia, é que intenção e ação são coisas distintas.
Na vida, não basta ter boa intenção! É preciso converter ideias em atitudes para construir novas realidades. O sucesso não está no tamanho da intenção; para que ele ocorra, é necessário transformá-la em uma estratégia eficiente e vencer a dificuldade de executá-la.
Como não cabe a mim separar o joio do trigo, respondendo à minha primeira pergunta, prefiro ficar com a bondade dos “maus”, uma vez que bom só existe um: Deus!
Cristiana Aguiar. CEO da Jeito Certo Consultoria. Economista e Especialista em Gestão de Negócios e Pessoas. E-mail: [email protected]