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Nada do que foi será – o fenômeno da ‘grande renúncia’ no mercado de trabalho pós-pandemia
Por ANA CELANO
Publicado em 20/09/2023 às 12:03
Alterado em 20/09/2023 às 12:05
Estamos sempre nos adaptando a novas situações e mudando nossas vidas, cada vez mais, em função da tecnologia e da velocidade da informação. Talvez fosse impensável retroagir a uma rotina sem internet ou reuniões virtuais no trabalho. Mas algumas vezes as situações acontecem de forma tão rápida que é necessário um certo freio de arrumação. Dar três passos largos demais para a frente e depois ter que recuar dois espaços.
Um exemplo dessa situação aplicada ao mercado de trabalho está sendo estudada a partir da pandemia de Covid-19, vista como um divisor de águas em muitos aspectos sociais. Muitos efeitos foram sentidos após o incremento do uso elevado da tecnologia, o que possibilitou novas formas de trabalho remoto.
Assim, foi dentro desse contexto que surgiu o fenômeno da “grande renúncia”, que se refere a um número crescente e, fora da curva prevista, nos pedidos de demissões voluntárias. Muitas pessoas que experimentaram uma maior liberdade com os meios tecnológicos e a possibilidade de trabalho remoto resolveram repensar se dariam um passo atrás ao fim da pandemia e retornariam a seus postos de trabalho presenciais ou mesmo ao trabalho híbrido.
Os profissionais que escolheram e ainda estão escolhendo esse caminho mais disruptivo, em sua maioria, visam outros tipos de trabalho, menos formais e com melhor qualidade de vida, abdicando de um modelo corporativo dentro de um padrão considerado como o trabalho ou a carreira tradicional.
O movimento da “grande renúncia” foi primeiramente notado e estudado nos EUA, no momento do final da crise sanitária e do retorno às atividades nos moldes anteriores ao afastamento. Lá, a existência de programas de auxílio social foi apontada como uma possível causa dessa massa de pessoas que saiu de seus postos de trabalho por sua própria escolha. Porém, pode-se observar que, mesmo nos estados americanos, onde os auxílios foram diminuídos, os números de evasão foram mantidos altos.
O termo “Great Resignation” ou “Grande Renúncia’, como traduzimos para o português, é creditado ao professor de negócios Anthony Klotz, e designa um fenômeno que começou um ano depois do início da pandemia, na primavera de 2021, quando os funcionários foram convidados a voltar ao trabalho e muitos deles não quiseram. Até o final de 2021, mais de 47 milhões de americanos deixaram seus empregos voluntariamente, um número comparativamente muito maior às médias do país. Essa tendência continuou em 2022 e segue em elevação.
No Brasil, a realidade econômica e social é bastante diferente do modelo americano. Mesmo assim o movimento se nota em nosso país. Recentemente, em agosto de 2022, no website UOL, de acordo com Jonathas Goulart, gerente de Estudos Econômicos da Firjan, pode-se comprovar a presença do fenômeno no mercado de trabalho do Brasil. Aqui a “Grande Renúncia” pode ser diferente em alguns aspectos em relação àquela que ocorre nos EUA, mas também já é um fenômeno presente e precisa ser mais bem compreendida.
No caso do Brasil, esse movimento é restrito e ocorre com grupos menores, mais centrado em profissionais jovens e, geralmente, pessoas com maiores níveis de escolaridade e que estão ligadas a atividades que podem ser feitas mais facilmente de maneira remota.
Essa história começa durante o período de isolamento social, pois nesse momento os trabalhadores tiveram a oportunidade de reavaliar suas vidas e prioridades. Após experienciar entre 12 e 18 meses da descoberta de uma nova liberdade e de um modelo de trabalho remoto, muitos trabalhadores não tinham mais interesse em retornar ao modelo presencial, com agendas inflexíveis e modelos rígidos de estruturas organizacionais. Alguns trabalhadores recusaram a volta ao modelo de trabalho presencial pré-pandemia e focaram em um futuro mais centrado nas necessidades pessoais e familiares. Algumas pessoas haviam saído dos grandes centros urbanos, procurando trocar seus apartamentos por casas mais espaçosas para as crianças, com mais ar puro, espaço e contato com a natureza.
Foram muitos reajustes, tanto de ordem prática como psicológica. Em muitos momentos, o fato de serem obrigados a ficar em casa para que a disseminação da doença não se propagasse simbolizou uma epifania indesejada na relação consigo mesmo e, também, com a própria casa enquanto extensão do eu. Se em outros tempos buscamos na cidade ou em alguma viagem uma forma de escapismo social ou de novos encontros existenciais, naquele momento isso não foi possível, ao menos quanto ao contato físico com o outro. Assim, muitas pessoas concluíram que não necessitavam de tudo o que tinham e que podiam viver com muito menos do que acreditavam ser possível no passado.
Ainda não sabemos se a grande renúncia é um fenômeno passageiro ou uma tendência, nem até que ponto irá tensionar e ser capaz de alterar o mercado de trabalho. O que sabemos é que, em ambos os casos, esse movimento aponta para uma insatisfação profunda, prolongada e generalizada da força de trabalho que deve ser abordada e não pode mais ser ignorada.
Estamos no meio de grandes mudanças sociais, a única certeza é que nada do que foi será, ou voltará a ser igual ao que era antes. Assim, por meio de fenômenos sociais como “A Grande Renúncia”, o mundo corporativo e o mercado de trabalho começam a revelar que o principal problema já não é a falta de postos de trabalho, mas a de postos de trabalho dignos, com salário dignos, em que os trabalhadores não sejam explorados até o esgotamento físico e mental.
Ana Celano é PhD em Administração, professora e pesquisadora do Ibmec RJ