INFORME JB
A nova desordem mundial
Por GILBERTO MENEZES CÔRTES
[email protected]
Publicado em 01/09/2026 Ã s 07:04
Alterado em 01/09/2026 Ã s 08:41
Putin, Modi e Xi Jinping reunidos em cúpula e liderando metade do mundo 'anti-Ocidente' e 'anti-EUA' Foto: Sputnik / Aleskandr Kazakov
Na letra da música “Fora de Ordem”, de 1991, Caetano Veloso adverte, por quatro vezes, que “Alguma coisa está fora da ordem; fora da nova ordem mundial”. O final de agosto mostrou, 35 anos depois, que Caetano é um bom profeta.
Enredado na guerra contra o Irã, em parceria com Israel, que já dura seis meses, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos de Donald Trump, que não consegue dobrar a China nas tarifas comerciais, aproveitou a liderança americana para reunir ministros das Finanças do G20, as vinte maiores economias do mundo, em Asheville, na Carolina do Norte.
Bessent afirmou à mídia britânica que incentivaria os membros do G20 - sobretudo europeus, Japão, Canadá e Austrália - a "reexaminar" suas relações comerciais com Pequim para reduzir "desequilíbrios globais", classificando o nível das exportações chinesas como "insustentável".
Um convidado incômodo
Na tentativa de asfixiar a China em energia (os chineses perderam esse ano o abastecimento de petróleo e gás da Venezuela e do Irã e parte dos países do Golfo Pérsico), o ministro das Finanças da Rússia, Anton Siluanov, foi convidado a participar do boicote de óleo e gás a Pequim.
Entretanto, como é sabido que a Ucrânia, invadida em fevereiro de 2022 pela Rússia, vem sendo abastecida com armamentos e verbas dos europeus e membros da Otan para resistir aos ataques das tropas de Vladimir, os membros da aliança presentes na reunião evitaram o ministro das Finanças russo na reunião do G20 sediada pelos EUA.
A saída foi excluir Siluanov da foto do evento. Mas Bessent afirmou que as conversas com o colega russo foram muito “produtivas”. No auge do bloqueio do Irã aos petroleiros no estreito de Ormuz, Bessent liberou temporariamente as exportações de óleo da Rússia (antes sob bloqueio da Otan).
No outro lado, Xi, Putin e Modi
Enquanto isso, os líderes da China, Rússia, Índia e Irã se reuniam em Bishkek, capital do Quirguistão, na Ásia Central, para cúpula de dois dias das 10 nações da Organização de Cooperação de Xangai (OCX)
Mesmo com o presidente Trump tentando fazer o mundo girar em torno de Washington, Xi Jinping, da China, possui sua própria órbita poderosa. A chegada do líder chinês a Bishkek ressaltou sua ampla influência para sustentar os adversários de Washington, na paz ou na guerra.
O Kremlin, cujas refinarias, portos e indústrias de defesa também estão sob ataque de mísseis e drones ucranianos, não possui esse tipo de apoio. Os golpes na economia militarizada da Rússia se traduzem mais diretamente em danos à capacidade do país de manter a guerra em curso.
Putin na OCX
Eixo Moscou-Pequim
O presidente chinês se reuniu nesta segunda-feira (31) com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, durante a cúpula "anti-Ocidente" e "anti-EUA" no Quirguistão. Ambos trataram da guerra da Ucrânia, porém, este não foi o tema principal do encontro bilateral, afirmou o Kremlin, sem dar detalhes.
Rival do G20 e do G7
Ao lado da Rússia, a China tem apresentado a OCX como uma alternativa a organizações alinhadas ao Ocidente, como o G7. Nos últimos anos, Pequim tem buscado ampliar o alcance e a influência da organização, prometendo assistência para o desenvolvimento e ajuda financeira.
O Ministério das Relações Exteriores chinês afirmou na semana passada que a OCX conseguiu "explorar um novo caminho para a cooperação regional". Pequim promove de forma consistente, com o apoio da Rússia, a ideia de uma ordem mundial alternativa à liderada pelos EUA.
Reuniões bilaterais
O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, estão entre os líderes de Estado que também viajaram para a cúpula.
Várias outras reuniões bilaterais estão previstas às margens do encontro da OCX, incluindo uma nesta terça-feira (1º) entre Putin e Pezeshkian. O presidente do Quirguistão, Sadyr Japarov, também se reuniu com o secretário-geral da ONU, Antônio Guterres, nessa segunda.
Metade do mundo
Fundada em 2001 por China, Rússia e quatro países da Ásia Central como um fórum de segurança, a OCX cresceu em tamanho e influência. Hoje são 10 países: China, Rússia, Índia, Irã, Belarus, Paquistão, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão. Metade da população do mundo.