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Luis Erlanger: um jornalista ameaçado de prisão porque ousou visitar a portaria da sede da OAB RJ

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Publicado em 05/12/2025 às 09:44

Alterado em 05/12/2025 às 10:48

O jornalista Luís Erlanger Foto: arquivo pessoal

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O jornalista Luis Erlanger, que durante muitos anos foi diretor do jornal “O Globo”, criou um canal no Youtube, em meio à pandemia de covid, para revistar algumas matérias feitas ao longo de sua extensa carreira de repórter.

Trabalhando atualmente no Sebrae, no bairro do Castelo, no Rio, aproveitou para, no mês de abril deste ano, ir à sede da OAB RJ, ali por perto, a fim de recontar um assunto que ganhou as manchetes, sendo ele o primeiro jornalista a chegar ao local no dia 27 de agosto de 1980. Naquela fatídica quarta-feira, uma carta-bomba endereçada ao presidente Eduardo Seabra Fagundes (a época ainda exalava forte o cheiro do chumbo da ditadura) explodiu nas mãos da secretária Lyda Monteiro, que morreu por isso aos 59 anos.

O caso ainda é notícia até hoje, e Erlanger é um dos responsáveis por isso.

Então, o agora também “youtuber” foi à sede da “casa dos advogados” para filmar a mesa de trabalho da dona Lyda, que – lembrou - ficava no hall de entrada do edifício. Queria recontar o caso de sua inesquecível reportagem aos seus fiéis leitores, hoje chamados de “seguidores”.

Ao chegar ao local, percebeu o sumiço do móvel e foi se informar com os porteiros. Se apresentou, contou o motivo da visita e perguntou que fim havia levado aquele exemplar de jacarandá que tanto conta a história de um país que hoje imperdoavelmente ainda continua flertando com o autoritarismo. Ficou sabendo que a mesa está em Brasília, exposta na sede da OAB nacional.

O roteiro do dia começou a beirar o improvável, para não dizer absurdo ou cômico: Erlanger foi interpelado pela advogada Helane Machado da Conceição Soares com perguntas do tipo “quem é você...”, “o que você quer...” etc... aquele tom de "sabe com quem está falando"...

Tempo passou.

Em outubro deste ano, Erlanger estava todo zen, meditando em Machu Picchu, no Peru, quando o telefone tocou nas montanhas – e viva a tecnologia! Do outro lado da linha estava um inspetor da Polícia Civil do RJ, que perguntou se ele era ele, e se naquele dia tal de abril Erlanger esteve na sede da OAB RJ etc etc.

Erlanger aquiesceu, meio desanuviado ainda pelo momento que o barulho do aparelho interrompeu, e foi informado que havia um inquérito de autoria (pasme) da Procuradoria da OAB RJ, e que ele precisava comparecer à delegacia.

A meditação já tinha ido para as cucuias, como é de se imaginar, e Erlanger, assustado, perguntou ao inspetor o que aconteceria se não comparecesse ao chamado. Recebeu a resposta de que seria PRESO por desobedecer a autoridade. Isso mesmo: PRESO. De quatro dias a seis meses. E até imaginou, cabeça de repórter, que quatro dias em uma cela não seriam nada mau para sua biografia... dariam umas boas crônicas. Mas seis meses... impensável.

Dia e horário marcados, lá estava Erlanger na delegacia.

A história kafkiana começou a flertar com Almodóvar. A tal da "integrante de uma comissão" da OAB RJ, que fez as perguntas esquisitas quando de sua visita à sede da Ordem, levou à Procuradoria da instituição o caso de um senhor (ele) “alterado”, “pardo” “com um volume embaixo da camisa, o que aparentava ser uma arma, uma ameaça à presidente da casa”, que “portava um aparelho de escuta remota” (era uma engenhoca auditiva, Erlanger ouve mal...).

E aí o problema não reside na fantasia de uns e de outros, mas no fato de uma PROCURADORIA de uma Ordem dos Advogados do Brasil embarcar em uma história absurda como esta, sobretudo porque depois, se soube, foi negada pelos próprios seguranças que estavam de plantão no dia da visita. Por exemplo: um deles, de nome William, também chamado a depor, desmentiu a conselheira: Erlanger não estava alterado, não estava nervoso, falava alto, sim, mas o segurança percebeu que era por conta da deficiência auditiva, afinal, usava um aparelho por isso.

Dito pelo não dito, não dito pelo dito, o inquérito deverá ser arquivado.

E fica a conclusão de que quem anda precisando ir meditar em Machu Picchu é a autoritária bolsonarista presidente da OAB RJ, por conta dessa mania de perseguição.


Depoimento do segurança da OAB RJ

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