IMPRENSA

Zuenir Ventura, 95 anos de lições de vida e jornalismo

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Por GILBERTO MENEZES CÔRTES
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Publicado em 22/09/2026 às 14:54

Alterado em 22/09/2026 às 14:56

O Brasil perdeu hoje um mestre do jornalismo. Zuenir Ventura, mineiro de Além Paraíba, 95 anos, imortal, desde 2014, da Academia Brasileira de Letras, onde será velado amanhã, era chamado de mestre Zu. Não só por ter sido emérito professor da Escola Superior de Desenho Industrial e da Escola de Comunicação, ambas da UFRJ, mas por ser o mestre que enriqueceu o conhecimento de centenas de jornalistas nas redações onde exerceu seu ofício.

Zuenir Ventura, que entrou como arquivista da "Tribuna da Imprensa", de Carlos Lacerda, no final dos anos 50, fez história na imprensa brasileira e ganhou respeito na imprensa mundial. Depois de se aperfeiçoar na França como bolsista no Centro de Formação de Jornalistas, de Paris, Zuenir foi editor internacional do "Correio da Manhã" e passou pelas principais redações do Rio de Janeiro, centro cultural e político do país nas décadas seguintes, depois da mudança da capital para Brasília, em 1960.

Atuou na "Fatos & Fotos", revista do grupo Bloch. Foi chefe de reportagem da revista "O Cruzeiro". Participou do seleto time de jornalistas da revista "Visão", onde conheceu Ziraldo. Em 1967, foi um dos criadores do jornal alternativo "O Sol". Na imprensa alternativa, se destacou entre os fundadores de "O Pasquim", cuja entrevista com Leila Diniz motivou sua prisão e dos principais colegas da redação.

Em seguida, na metade dos anos 70, assumiu o cargo de editor-chefe da sucursal Rio da revista "Veja". Em seguida foi para a "IstoÉ". Em 1985, com a eleição de Tancredo Neves, foi para o JORNAL DO BRASIL. Seu último cargo na grande imprensa foi o de colunista em O Globo, onde ingressou em 1999.

O agitador cultural

Uma de suas facetas foi a de agitador cultural, acompanhado pela mulher, Mary, que atuava no Caderno B do JB. A situação está refletida nas páginas de seu premiado livro "1968: o ano que não terminou", de 1989. Começa com esperanças, na festa de "réveillon" em reduto da esquerda – a casa de Darwin e Guguta Brandão –, e termina com as prisões determinadas pelo AI-5, de 13 de dezembro de 1968.

Sob a ditadura, Zuenir foi um dos grandes incentivadores, junto com Ziraldo, com quem volta a se reunir em "O Pasquim", da resistência cultural no Café Teatro Casa Grande (criado em 1966, por Max Haus e Moyses Ajhaenblat, anterior ao Shopping Leblon, onde foi recriado). O apoio incondicional de Zuenir Ventura ajudou o Casa Grande a ser um centro da resistência à censura da ditadura nos anos de chumbo. No governo Médici, o mais cruel da ditadura, houve o dedo de Zuenir no festival de música, que consagrou "Sinal Fechado", de Paulinho da Viola.

Chico Buarque, após o exílio em Paris (Gil e Caetano foram exilados em Londres), fez "show" memorável no teatro, no governo Geisel (1974-79). Uma das músicas cantadas, de autoria de seu pseudônimo "Julinho da Adelaide", pois as que assinava eram censuradas, foi feita para sua fã, Amália Lucy, filha de Geisel; dizia: "você não gosta de mim, mas sua filha gosta"). A partir daí, houve um respiro na censura.

O Casa Grande foi também palco das reuniões de apoio dos artistas ao movimento pelas Diretas Já, em 1984, após a frustração da derrota da Emenda Dante de Oliveira, reuniu o arco da sociedade para apoiar a candidatura de Tancredo Neves contra Paulo Maluf, em 15 de janeiro de 1985. Na primeira eleição direta, em 1989, abrigou reuniões do candidato Lula, do PT. Lá foi gravado o jingle "Lula lá"

O Zuenir escritor

Outro grande livro de Zuenir, "Chico Mendes – Crime e Castigo", foi lançado, em 2003, com atualizações sobre o assassinato do líder ambientalista, em 1988. O repórter fez uma série de matérias para o JB, em Xapuri, local da execução, que lhe valeu o "Prêmio Esso de Reportagem". Zuenir se envolveu tanto no caso, que trouxe, para preservar em sua casa, uma testemunha da emboscada.

No JB, lançou, em 1994, "Cidade partida", que foca a desigualdade social e a violência urbana do Rio de Janeiro. O mote foi a chacina de Vigário Geral, em 1993, na Zona Norte da cidade, que deixou 21 mortos. Zuenir, como relatou para a "GloboNews" o jornalista Ancelmo Gois, seu colega em "Veja", "JB" e "O Globo", aguçava o faro investigativo, mesmo quando chefiava redações, acompanhando repórteres em grandes ocasiões. Fez isso com Ancelmo no atentado do Riocentro, em 1980. E na chacina de Vigário Geral e em visitas demoradas ao Vidigal, na Zona Sul.

Outra obra foi “Mal Secreto”, que aborda a “Inveja”, um dos sete pecados capitais, na série editada pela Companhia das Letras, em 1998. Colunista de “O Globo”, desde 1999, Zuenir Ventura voltou a se reunir, no time de colunistas do jornal, a antigos discípulos do “Mestre Zu”, como Artur Xexéo, Joaquim Ferreira dos Santos, Ancelmo e Miriam Leitão.

Miriam, sua colega da ABL desde 2025, na casa atualmente presidida por Merval Pereira (eleito em 2011), fez um longo e emocionado depoimento para a “GloboNews” sobre o ocupante da cadeira 32, na qual sucedeu, em 2014, ao mestre do folclore Ariano Suassuna.

Velório na ABL

O velório será na Academia Brasileira de Letras, na quarta-feira, 23, e o enterro será no Cemitério de São João Batista, em Botafogo. Zuenir Ventura deixa viúva a jornalista Mary Ventura e os filhos Mauro Ventura, também jornalista e escritor, a produtora visual Elisa Ventura e a neta Alice, filha de Mauro, que era seu xodó.

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