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Blocos movimentam a cidade com tradição, diversidade e memória

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Por JB NO CARNAVAL
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Publicado em 15/02/2026 às 06:06

Alterado em 15/02/2026 às 12:19

Bloco Escangalha desfilou nas ruas do Jardim Botânico Foto: Lucíola Villela / Riotur

Por Mariana Novaes - Tradição e emoção marcaram o sábado (14) de Carnaval com os desfiles do Cordão da Bola Preta, Amigos da Onça, Escangalha, Céu na Terra e Terreirada, blocos históricos que voltaram às ruas reafirmando sua força no calendário carnavalesco e reuniram gerações de foliões em celebrações que atravessam o tempo.

Com mais de um século de história, o Cordão da Bola Preta trouxe o tema DNA, arrastou um público estimado de 500 mil pessoas e apresentou um repertório que inclui marchinhas históricas como “Cidade Maravilhosa”, “Mamãe Eu Quero”, “Me Dá um Dinheiro Aí” e “A Jardineira”, além de sambas e canções populares que dialogam com diferentes épocas da música brasileira. A banda do bloco é composta por músicos profissionais e veteranos da folia que mantêm o formato de orquestra de sopros, característica dos carnavais tradicionais.

Com muita espontaneidade e alegria, o Bola Preta colocou o bloco na rua com toda a sua realeza: Leandra Leal (Porta Estandarte), Paolla Oliveira (Rainha), Emanuelle Araújo (Musa da Banda), Tia Surica da Portela (Embaixadora) e Selminha Sorriso (Musa das Musas) que seguiram à frente do Cordão.

A atriz Paolla Oliveira afirmou que pretende aproveitar o Carnaval conciliando momentos de lazer e compromissos profissionais. Segundo ela, a agenda inclui acompanhar desfiles e, ao mesmo tempo, manter a preparação para um novo projeto cinematográfico.

A rainha do bloco destacou ainda a relevância cultural e social da festa, ressaltando o papel dos blocos tradicionais, como o Cordão da Bola Preta, na preservação da história e na promoção da diversidade.

“O Carnaval de uma maneira geral, a gente entendeu que ele é muito mais que só uma festa, ele fala sobre a gente quebrar preconceitos, a gente abrir espaço para a diversidade. O Carnaval para mim é essa festa, é por isso que fico arrepiada quando chego aqui e vejo esse povo na rua. O momento em que o Carnaval é mais democrático é na rua. O Bola está há mais de 100 anos fazendo isso, trazendo tradição e cultura para o Carnaval do Rio de Janeiro que é essa maravilha”, disse Paolla.

A atriz Leandra Leal destacou a forte ligação afetiva e cultural com o Cordão da Bola Preta ao comentar o tema do bloco neste ano. Segundo ela, a relação com o tradicional cortejo faz parte de sua própria identidade cultural, definindo o bloco como parte do seu “DNA”.

Leandra também comentou sobre o novo trajeto que homenageia Preta Gil, ressaltando a importância simbólica da iniciativa. “A homenagem representa um espaço de celebração, alegria e amor, valores que refletem o espírito do Carnaval e a essência do bloco”, disse.

Fantasias em preto e branco, cores oficiais do bloco, dominaram as ruas do Centro neste sábado e reforçaram a identidade visual que atravessa gerações há décadas.

Amigos da Onça destaca a importância da preservação ambiental

Onças, jacarés, cobras, capivaras e uma infinidade de elementos da fauna e da flora brasileira se encontraram, em ritmo de folia, na manhã deste sábado, 14 de fevereiro, no Aterro do Flamengo, para o desfile do bloco Amigos da Onça.

Em seu 14º desfile, o bloco uniu a irreverência e um forte discurso sobre a importância da preservação ambiental.

Pra saudar o início do desfile, um verdadeiro coral de foliões batendo seus leques deu o tom do cortejo. Com pernaltas, bailarinos realizando performances e os ritmistas que tornaram o cortejo do Amigos da Onça um momento único.

Sucessos da Baiana System, Nação Zumbi, Gilberto Gil, Maria Bethânia e até Michael Jackson fizeram a alegria de quem acordou cedo para curtir o bloco. A paisagem, com o Pão de Açúcar ao fundo, tornou o cortejo ainda mais bonito de se acompanhar

Enquanto o bloco seguia seu percurso até o posto 0, uma multidão de foliões cantava e dançava animadamente nas areias da praia do Flamengo, fazendo coro com os músicos e seguindo as performances dos bailarinos como se tivessem sido ensaiados.

Escangalha resgata sambas-enredo para o Carnaval de rua do Rio

Fundado em 2007, o Bloco Escangalha surgiu a partir de uma inquietação: a percepção de que o samba-enredo, nascido nas ruas, havia se afastado delas ao longo do tempo. Sem tema anual ou enredo próprio, o bloco construiu sua identidade a partir da pesquisa, da curadoria musical e do respeito às tradições das escolas de samba, assumindo como missão devolver à cidade um repertório que marcou gerações do Carnaval carioca.

Para Pedro de Alencar, um dos fundadores do Escangalha, esse afastamento aconteceu de forma gradual. “O samba-enredo começou na rua, depois foi para a avenida, e ao longo do tempo a rua foi perdendo contato com ele”, explica. Segundo ele, muitos blocos passaram a migrar para outros ritmos ou a tocar apenas sambas próprios, enquanto clássicos que fizeram história na Sapucaí — dos anos 1960, 70, 80 e 90 — deixaram de ser ouvidos fora do sambódromo. “A gente sentia que a rua já não escutava mais esses sambas. Ficavam só aqueles poucos que todo bloco toca, enquanto outros, igualmente importantes, foram sendo esquecidos.”

A resposta do Escangalha foi investir em pesquisa e curadoria, reunindo sambas-enredo de diferentes épocas e escolas, com o cuidado de respeitar a identidade de cada uma. “Nossa pretensão, talvez um pouco ambiciosa, é tentar reproduzir e respeitar as tradições de cada escola, homenageando o que elas têm de mais característico”, afirma Pedro.

Esse respeito passa por elementos que muitas vezes escapam ao olhar do público geral, como as particularidades rítmicas de cada bateria. “Cada escola tem características muito específicas, que remontam à sua origem. A forma de tocar caixa, surdo, terceira, as inversões… tudo isso carrega história e cultura.”

Foi a partir desse entendimento que o bloco decidiu se firmar na Zona Sul, atualmente no Jardim Botânico, transformando o bairro em um ponto de conexão direta com a Sapucaí. Para Pedro, essa escolha foi consciente. “A Zona Norte ainda mantém uma relação muito forte com o samba-enredo. Na Zona Sul, a gente percebeu um vazio acontecendo, um distanciamento. Nossa missão é fincar a bandeira aqui e fazer desse espaço uma caixa de som para reverberar uma cultura que está prestes a completar 100 anos.”

Um dos pilares desse trabalho é a bateria do Escangalha, hoje comandada pelo Mestre Waguinho, reconhecido pelo profundo conhecimento das tradições das escolas de samba. “Sem ele, a gente não conseguiria manter esse nível de respeito. Ele orienta, ensina e conduz um trabalho contínuo de formação ao longo do ano”, destaca.

A bateria é formada por várias gerações e tem maioria feminina, com cerca de 60% de mulheres, funcionando também como espaço de aprendizado e transmissão cultural. “As pessoas não estão ali só para tocar. Estão aprendendo sobre história, tradição e cultura. É um trabalho que cresce no boca a boca, pouco a pouco, mas com muita consistência.”

Mesmo indo na contramão das tendências de blocos temáticos, o Escangalha mantém sua essência com convicção. “A gente sabe que não ter um tema ou um enredo anual pode parecer fora de moda, mas acredita que o clássico não morre”, conclui Pedro. “E, no que depender do Escangalha, essas tradições não vão morrer jamais.”

Vindas de Três Corações, em Minas Gerais, Bárbara e Amanda escolheram o Rio de Janeiro para viver o Carnaval em família. No Jardim Botânico, elas participaram pela primeira vez de um bloco de rua na cidade, experiência que começou ainda antes da viagem, com pesquisa e troca de informações pelas redes sociais.

“Foi tudo pela internet mesmo. A gente foi pesquisar e falaram que o Jardim Botânico é bem legal”, conta Bárbara. Para elas, a escolha passou pela expectativa de um ambiente animado, com música e um clima agradável para curtir junto.

Embora não fosse o primeiro Carnaval no Rio para Amanda, era a estreia das duas em um bloco de rua. A presença da família foi parte central da experiência. Entre encontro, música e convivência, Bárbara e Amanda viveram no Jardim Botânico um Carnaval que acolhe quem chega de fora e transforma a folia em um momento de celebração coletiva.

Carnaval como recomeço: a história do casal que escolheu seguir após a dor

Entre blocos, fantasias e músicas que atravessam gerações, o Carnaval também pode ser um lugar de reconstrução. Para Nadja Neri e Denilson Cardoso, que perderam uma filha ainda pequena, a folia deixou de ser apenas festa e passou a representar a possibilidade de seguir vivendo — sem culpa, sem vergonha e sem abrir mão da alegria.

“Buscar felicidade e não ter vergonha de ser feliz”, diz Nadja, emocionada. Durante muito tempo, a dor veio acompanhada de um sentimento silencioso de julgamento, inclusive interno. “Até então eu tinha vergonha de ser feliz. Como é que um casal que perdeu uma filha de cinco anos sai todo ano para o bloco?”, questiona. A resposta, hoje, vem com mais firmeza e simplicidade: “Não. É Carnaval. É Carnaval”.

A relação do casal com a festa é antiga. Antes mesmo de estarem juntos, o Carnaval já fazia parte da vida de Denilson. “Mesmo solteiro, eu sempre ia para o Bola Preta”, relembra. Eles se conheceram no fim dos anos 1980, em Sergipe, em um encontro que o tempo transformou em história de destino. A vida seguiu, o casamento veio, e alguns anos depois também vieram os filhos — junto com a maior dor que poderiam experimentar.

Após a perda da filha, o Carnaval também silenciou. “Teve esse baque e a gente parou. Parou por anos”, contam. A pausa não foi apenas da festa, mas de ocupar espaços de alegria, como se sorrir fosse um gesto proibido. Com o tempo, porém, o retorno foi acontecendo de forma cuidadosa, sem negar o luto, mas aprendendo a conviver com ele.

Hoje, estar nos blocos é uma escolha consciente pela vida. “Ela vai estar sempre com a gente”, afirma Nadja, ao falar da filha. Dançar, sorrir e seguir celebrando não apagam a ausência, mas reafirmam o amor. O Carnaval se torna, assim, um gesto íntimo de memória e presença, onde a felicidade não exclui a saudade.

Entre lágrimas e sorrisos, Nadja Neri e Denilson Cardoso transformam a folia em um espaço legítimo de continuidade. Um lembrete de que a alegria também pode ser profunda, respeitosa e necessária — mesmo depois da perda.

Terreirada mistura ritmos do Norte e Nordeste do país

A Quinta da Boa Vista, na Zona Norte da Cidade, ficou ainda mais colorida na tarde deste sábado, 14 de fevereiro, com o desfile do bloco da Terreirada. Unindo as tradições da cultura popular com o Carnaval de Rua carioca, o bloco traz uma sonoridade que traz ritmos como maxixe, baião, xaxado, samba de roda, forró e outras sonoridades do Norte e Nordeste. Tudo isso com arranjos feitos especialmente para o bloco e acompanhados por mais de 100 pernaltas.

Raquel Poti, uma das fundadoras do bloco, conta que o Terreirada é inspirado na cultura popular. “É uma força de expressão dos nossos mestres que há tantos anos vêm abrindo caminhos pra gente brincar. Vários movimentos de comunidades que a gente vê, que se constrói em torno da brincadeira, da música, da dança. E o bloco da Terreirada brinca no Carnaval Carioca, com essa força, essa energia, essa encantaria. Então a gente traz personagens, tem arranjos específicos que são criados pro nosso bloco”, conta.

O bloco trouxe ainda dezenas de pernaltas. “Brincam com essa perna de pau, que é um brinquedo ancestral, bruxas, feiticeiros, curandeiros, agricultores, artistas de todos os tempos. Exaltamos seus rituais, suas cerimônias, as apresentações. É uma junção de muitas frentes, de muitas linguagens que se somam e que são construídas por pessoas que passam um ano ensaiando, estudando, para chegarem aqui e brincarem com a nossa comunidade, com essa Quinta da Boa Vista, recheada de famílias, de pessoas que vêm de longe, porque amam essa magia que o Bloco da Terreirada compartilha”, completou.

O Carnaval de Rua seguiu animado no Rio em vários cantos da cidade: teve Céu na Terra agitando as ladeiras de Santa Teresa, Bloco dos Barbas pelas ruas de Botafogo, Bloco Brasil no Leme e Bloco Exagerado, inspirado na obra e na atitude de Cazuza, desfilou no Centro com um repertório centrado nos grandes sucessos do cantor e compositor.

O Multibloco mostrou mais uma vez porque é reconhecido pela excelência musical e pela valorização do samba e da música popular brasileira em seu desfile na manhã deste sábado no Centro.

Na parte da tarde, a Banda de Ipanema desfila pelas ruas da Zona Sul e mostra por que se tornou referência não apenas pela música, mas pelo papel cultural e simbólico que exerce no Carnaval carioca. (com Assessoria de Comunicação da Riotur)

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