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Jornada de Carolina Maria de Jesus será contada pela Unidos da Tijuca
Por JB NO CARNAVAL
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Publicado em 09/02/2026 às 08:53
Alterado em 09/02/2026 às 09:07
Carolina Maria de Jesus (Imagem do acervo do Jornal do Brasil - 07/11/1960) Foto: Alberto/[email protected]
Por Cristina Índio do Brasil - A menina Bitita é quem vai abrir o desfile da Unidos da Tijuca em 2026, para contar, desde o começo, a vida da escritora, cantora, compositora e poeta brasileira Carolina Maria de Jesus. Na língua changana ou xichangana, de Moçambique, Bitita significa panela de barro de cor ocre ou preta, representando resistência e ancestralidade.
A escritora recebeu esse apelido do avô Benedito, no início do século passado, e essa será apenas uma de "outras diversas Carolinas" que vão passar pela Sapucaí para contar a trajetória da autora consagrada, como "a doméstica", "a grávida", "a louca do Canindé", "a catadora", "a escritora", "a marionete" e "a do carnaval".
"É um enredo bem biográfico. A história se desenvolve cronologicamente", pontuou o carnavalesco Edson Pereira em entrevista à reportagem da Agência Brasil. O que a Tijuca faz é colocar a Carolina no palco.
Apesar da grandeza que tem, argumenta o carnavalesco, sua história é pouco divulgada e, por isso, precisa ser contada.
"A gente vive em um momento, não só do país, mas da cultura do nosso país, em que a gente precisa acender a luz daqueles que foram apagados pela nossa história. A Carolina representa muito bem a força da mulher", afirmou.

Edson Pereira, carnavalesco da Unidos da Tijuca Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Edson Pereira, carnavalesco da Unidos da Tijuca Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Apagamento e força
Foi o avô alforriado e contador de histórias que influenciou Carolina a criar as suas histórias, assim como com as mulheres da família.
"Ela aprendeu os segredos que só o tempo revela no encanto do falar e do ouvir; e, nas barras das saias de sua mãe, tias e madrinhas, se entrelaçou ao poder das coisas ditas, ao espírito desconhecido das letras e palavras, aquelas às quais ela desejava conhecer", traz a sinopse da Tijuca, texto no qual as escolas explicam o enredo que vão apresentar nos desfiles.
Carolina Maria de Jesus nasceu em 14 de março de 1914, em uma comunidade rural da cidade de Sacramento, em Minas Gerais. Os sonhos de deixar o interior a levaram para São Paulo. A mudança não resultou no que esperava e foi o começo de muitas adversidades. Sob muito preconceito, lutou até se tornar escritora.
"A história da Carolina enquanto escritora que foi apagada é algo que nos fascina não pelo apagamento, mas pelo empoderamento dela. A Carolina enquanto mulher, enquanto preta, enquanto resistência", comentou o carnavalesco, lamentando que atualmente os problemas são os mesmos. É triste falar sobre isso, mas é uma realidade.
Em São Paulo, ela foi morar na favela do Canindé. Foi lá que começou a relatar todos os preconceitos e histórias de feminicídios e viu que o desenvolvimento social não chegava aos pretos.
"Ela começa a se entender no lugar de opressão", indicou Edson Pereira, acrescentando que Carolina sonhava também em ter comida no prato para alimentar os filhos. "É um carnaval de reconhecimento, de botar o dedo nas feridas", relatou.
Edson adiantou que a terceira alegoria da Azul e Amarela da Tijuca é dedicada ao livro Quarto de Despejo - Diário de uma favelada, que se transformou em sucesso ao vender 10 mil exemplares na semana de lançamento, em 1960.
A obra, escrita a partir de anotações que fazia em diários contando histórias de vizinhos, foi também traduzida para ao menos 14 idiomas e lançada em mais de 40 países.
"É todo feito de papelão, de material alternativo", descreveu o carnavalesco sobre a composição da alegoria, em uma referência ao tempo que a escritora era catadora e construiu sua casa com o dinheiro que ganhou vendendo papelão entre outros materiais.