Rockbridge Network tenta abrir frente no Brasil e vira alvo de disputa política
Documentos e relatos de contatos com empresários e políticos colocaram o grupo no centro de uma suspeita de influência eleitoral
A Rockbridge Network, grupo privado americano de perfil conservador fundado por J.D. Vance, passou a mirar o Brasil há alguns meses e abriu conversas com empresários e políticos do país. Segundo a Folha de S. Paulo, houve contatos com nomes de peso do mercado e da política, em um movimento que ganhou repercussão após suspeitas de ligação com a campanha de Flávio Bolsonaro.
Entre os citados estão Joesley Batista, da J&F, e André Esteves, do BTG, além dos candidatos Flávio Bolsonaro e Romeu Zema. Todos foram procurados, mas não comentaram ou negaram associação formal. A polêmica cresceu depois que o presidenciável Renan Santos afirmou haver apoio americano à campanha de Flávio, acusação rejeitada pelos envolvidos.
O que diziam os documentos
Os materiais que circularam no Brasil descreviam duas categorias de membros, com contribuições anuais de US$ 500 mil e US$ 1 milhão. Os pagamentos poderiam ser feitos em dinheiro, criptomoedas, ações e estruturas corporativas, com acesso a encontros fechados, summits e, no caso mais caro, assento em um conselho estratégico.
Outro texto tratava a Rockbridge Brasil como uma espécie de fundo de venture capital político, com foco em mídia conservadora, formação de jovens e apoio legislativo. A proposta incluía microconselhos temáticos para orientar prioridades e dizia que o Brasil seria o maior país conservador do mundo, mas sem uma organização política capaz de estruturar essa força.
Plano para tecnologia e disputa com a China
Um documento específico, voltado ao setor de tecnologia, foi enviado ao então pré-candidato Flávio Bolsonaro e defendia um alinhamento mais estreito entre empresários brasileiros e os Estados Unidos. O texto apresentava o conselho como um instrumento não governamental para conectar grandes nomes da tecnologia e do capital ao desenvolvimento do país.
Segundo o material, o impacto econômico poderia superar US$ 100 bilhões em dez anos, com criação de mais de 500 mil empregos e avanço em 12 setores estratégicos. O conselho teria 23 integrantes, sendo 19 estrangeiros, e reuniria empresários e investidores com o objetivo de dar “credibilidade instantânea” à iniciativa.
Reação dos envolvidos e disputa no STF
Os citados negam participação formal ou dizem que a proposta não saiu do papel. A Rockbridge informou que a empresa criada no país nunca operou nem recebeu recursos, e afirmou que a iniciativa foi rejeitada. Já André Marinho disse que o projeto não evoluiu, mas negou ter enviado os documentos à campanha de Flávio Bolsonaro ou a autoridades americanas.
A repercussão levou a ações na Justiça. Renan Santos acionou Talles Gomes por calúnia, difamação e injúria eleitoral, enquanto Lindbergh Farias pediu ao STF apuração sobre possível recurso estrangeiro para a campanha. Depois, o PT também protocolou pedido para abertura de inquérito policial sobre eventual financiamento ilegal.
O que está em jogo
O caso expõe a disputa em torno de influência política, tecnologia e capital estrangeiro no Brasil. Embora a Rockbridge diga que se tratava apenas de um fórum empresarial, a existência de documentos com metas políticas e menções a campanha eleitoral elevou a pressão sobre os citados e ampliou a crise em torno do tema.
Com as negativas públicas e os pedidos de investigação em andamento, a discussão deixou de ser apenas sobre uma iniciativa empresarial e passou a envolver suspeitas de interferência na política brasileira. O episódio agora depende do avanço das apurações e da verificação sobre a origem, o objetivo e o uso dos documentos que circularam entre interlocutores no país. (com informações da Folhapress)