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Master pagou R$ 27 mi ao site 'Metrópoles', que fez ‘débito imediato’ a empresas da família de Luiz Estevão
Por JORNAL DO BRASIL com Agência Estado
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Publicado em 09/04/2026 às 08:05
Alterado em 09/04/2026 às 08:07
Luiz Estevão Reprodução/TV
Por Vinícius Valfré - O Banco Master repassou R$ 27,2 milhões, entre 2024 e 2025, ao Metrópoles, site de notícias comandado pelo ex-senador Luiz Estevão, segundo documento do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
O relatório registra os pagamentos como suspeitos ao apontar que o veículo fez “débito imediato” de valores recebidos do Master em direção a outras empresas da família de Luiz Estevão, o que “pode configurar possível movimentação de recursos em benefício de terceiros”.
Além disso, o documento classifica os aportes do Master como “inusitados” e aponta uma movimentação do Metrópoles “incompatível com o faturamento médio mensal”.
Procurado, o ex-senador afirmou que os pagamentos dizem respeito ao patrocínio do Will Bank, que pertencia ao Master, à transmissão da Série D do Campeonato Brasileiro de 2025, feita pelo Metrópoles, e à venda dos naming rights da competição . Em relação às transferências para empresas da família, ele diz que pode dar a destinação que quiser ao dinheiro recebido (leia mais abaixo).
Ao todo, o Master enviou R$ 27.283.800 à empresa Metrópoles Marketing e Propaganda LTDA. No segundo semestre de 2024, o banco fez dois pagamentos que totalizaram R$ 838,8 mil. Todo o restante foi transferido entre janeiro e outubro de 2025.
Este período foi crucial para a instituição financeira. O banqueiro Daniel Vorcaro tentou vendê-la ao BRB, em março, virou alvo de investigações por suspeita de fraude financeira bilionária e viu sua empresa acabar liquidada pelo Banco Central, em novembro. Vorcaro está preso.
De acordo com o relatório, o Master aparece como “principal remetente” de recursos ao Metrópoles nos período analisados em 2025, com pagamentos variados que chegam a R$ 5,7 milhões.
Embora esses repasses tenham começado em janeiro de 2025 e Luiz Estevão os atribua ao contrato de patrocínio da Série D, as transmissões só começaram a exibir a logomarca do Will Bank três meses depois do início do campeonato.
A competição começou em 19 de abril de 2025. O Metrópoles e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) anunciaram, nos dias 2 e 3 de julho, respectivamente, um acordo referente apenas à transmissão dos jogos. As primeiras partidas exibidas no YouTube, gratuitamente, foram as da 11ª rodada da Série D, com 15 jogos transmitidos nos dias 5 e 6 de julho.
Luiz Estevão também tinha negociado com o banco a venda dos naming rights. O campeonato passou a ser chamado de “Brasileirão Série D Will Bank”. Foi a primeira vez que a competição, organizada pela CBF, teve os “direitos sobre o nome” comercializados.
Mas a logomarca do Will Bank só foi instalada na placa de publicidade central dos campos de jogo a partir de 26 de julho, na 14ª rodada, a última da primeira fase. Portanto, mais de três meses após o início do campeonato e seis meses após o Master começar a injetar dinheiro no Metrópoles.
A parceria do ex-senador com a empresa de Vorcaro foi revelada pelo Estadão.
O documento do Coaf destaca que o Metrópoles fez “débito imediato” de valores recebidos pelo Master para empresas como Madison Gerenciamento S/A, Sense Construções e Participações S/A e Macondo Construções e Participações S/A.
As três firmas têm Luiz Estevão e filhas no quadro societário ou em funções de direção. Segundo o relatório, esse fluxo financeiro “pode configurar, possível movimentação de recursos em benefício de terceiros”.
As comunicações ao órgão de controle foram feitas pela Caixa Econômica Federal. Nos alertas, o banco também pontuou uma “movimentação de recursos incompatível com o faturamento médio mensal”, “recebimento de transferências de valores inusitados”, com as do Master.
“A comunicação ao Coaf é justificada pois no período analisado foi movimentado recursos incompatíveis com o faturamento médio mensal da pessoa jurídica, identificamos o recebimento de transferências de valores inusitados, a movimentação foi caracterizada pelo recebimento de crédito com o débito imediato dos valores, há indícios de movimentação de recursos em benefício de terceiros e movimentação com pessoas expostas politicamente”, frisa o documento.
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A reportagem sondou operadores do mercado de futebol e eles disseram que a Série D, geralmente, não é rentável para quem exibe o torneio e, historicamente, há poucos interessados na competição.
Luiz Estevão nega que os valores negociados com o Master tenham sido superdimensionados. Segundo ele, os pagamentos deveriam ter sido ainda maiores, mas foram cortados com a liquidação do banco.
“O valor foi maior. Eles não pagaram tudo. Ainda estão devendo dinheiro e estamos atrás de receber”, disse, antes de completar: “O valor não está nada fora. E ainda temos que comprar os direitos da CBF, que não disponibiliza gratuitamente, não.”
O ex-senador também frisou que não há nenhum tipo de problema com os “débitos imediatos” feitos pelo Metrópoles.
“O dinheiro que eu recebi passa a ser meu e faço com ele o que eu quiser. Posso comprar publicidade no Estadão, posso transferir esses recursos para outras empresas minhas, comprar um imóvel, fazer o que quiser“, afirmou.