Jornal do Brasil

Bem Viver - Artes Plásticas

Patrizia D'Angello pinta os banquetes do Palácio do Catete

Exposição 'Jardim do Éden' abre sábado (14) na Galeria do Lago, no Museu da República

Jornal do Brasil CADERNO B, cadernob@jb.com.br

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Com curadoria de Isabel Portella, a mostra apresenta 25 pinturas recentes e inéditas, e o conceito foi pensado a partir dos muitos banquetes realizados no Palácio do Catete, sede do Governo Federal entre 1896 e 1960, que hoje abriga o Museu da República.

“Numa narrativa bem-humorada, a artista se debruça sobre os grandes temas da pintura figurativa, o retrato, a paisagem e a natureza morta. Em seus trabalhos, Patrizia procura discutir os limites do real, da mímesis, e as implicações no mundo contemporâneo”, afirma a curadora Isabel Portella.

Macaque in the trees
Patrizia DAngello - Jardim do Éden - 2019 - óleo sobre linho 196cmX162cm (Foto: Divulgação)

Para realizar a exposição, a artista mergulhou no acervo do museu, em documentos relacionados ao tema, como uma bela coleção de convites e menus das muitas recepções ocorridas ali, bem como fotos, vasos, pratarias, sancas e o mobiliário pertencentes ao Palácio do Catete, que aparecem nas obras mesclados a seu repertório poético.

De família italiana, Patrizia D’Angello cresceu rodeada por encontros em volta da mesa, com comida farta. Para ela, “comer junto é uma maneira de se compartilhar afeto”. Desta forma, seu trabalho sempre esteve atravessado pela comida, que, em suas naturezas mortas, ganham outras camadas de sentido. Movida por um humor dionisíaco e tendo como norte a Pop Art e a Tropicália, os trabalhos de Patrizia D’Angello estão sempre reverberando questões do feminino/feminismo. Em uma operação ambivalente de afirmação e crítica, a artista desloca sentidos e, com humor, joga luz sobre a pretensa “normalidade” do patriarcado e suas práticas predatórias. “A abordagem desse espaço tão representativo do poder, do patriarcado, da ordem vigente, se dá através do campo relegado desde sempre ao domínio das mulheres, a cozinha, a mesa, a decoração, o enfeite, o bordado, o doce... Um universo, segundo essa lógica dominante, menor, secundário, fútil e frívolo, por isso mesmo entregue de bom grado às mãos que vieram pra servir”, ressalta a artista.

A grande pintura “Jardim do Éden”, que dá nome à exposição, retrata um piquenique realizado sobre uma canga com a imagem da famosa pintura do renascimento, “O nascimento da Vênus”, de Sandro Botticelli (Itália, 1445 - 1510). “Também queria falar da área externa do museu, do lindo parque e dos convescotes que ali aconteceram no passado de forma reservada e que seguem acontecendo hoje com o espaço convertido em museu, de forma pública e democrática”, explica a artista, que em suas pesquisas encontrou imagens da família de Pereira Passos (1836-1913), prefeito do então Distrito Federal entre 1902 e 1906, nos jardins do Palácio do Catete.

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Patrizia DAngello - A Espera de Alice - 2014 - aquarela sobre papel - 140cmX154cm (Foto: Divulgação)

A imagem da Vênus de Botticelli, uma das tantas idealizações da mulher presentes na História da Arte, serve de leito para um piquenique, onde junto ao seu peito repousa uma faca e sobre seu corpo é servida a comida. O trabalho se chama Jardim do Éden e, a um só tempo, a artista relaciona a idealização, a objetificação, a exploração e toda uma narrativa milenar escrita por homens sobre o que foi e qual deve ser o papel da mulher.

SOBRE A ARTISTA

Patrizia D’Angello nasceu em São Paulo, mas vive e trabalha no Rio de Janeiro. Formada em Artes Cênicas pela Uni-Rio e em Moda pela Candido Mendes, a partir de 2008, cessou todas as atividades em outras áreas pra se dedicar exclusivamente à arte. Transita pela produção de objetos, performance, fotografia, video e, mais assiduamente, pela pintura. Frequentou a Escola de Artes Visuais no Parque Lage, onde cursou diversos cursos. De setembro de 2014 a Março de 2015 esteve no programa de bolsa residência-intercâmbio com a École Nationale Superieure des Beaux Arts de Paris. Foi indicada ao prêmio PIPA em 2012.

Dentre suas principais exposições individuais estão: “Lush” (2018), no Centro Cultural Municipal Sergio Porto, no Rio de Janeiro; “Assim é se lhe parece - Casa, Comida e Roupa Lavada” (2016), no Centro Cultural da Justiça Federal, no Rio de Janeiro; “Kitinete” (2016), no Ateliê da Imagem, no Rio de Janeiro; “No Embalo das Minhas Paixões”, na Galeria de Arte IBEU, no Rio de Janeiro, entre outras.

SERVIÇO: Patrizia D’Angello – Jardim do Éden / Abertura: 14 de dezembro de 2019, das 13h às 18h / Exposição: 15 de dezembro de 2019 a 15 de março de 2020 / Galeria do Lago, Museu da República / Rua do Catete, 153 / Catete – Rio de Janeiro / Telefone: 21 2127 0324 / De terça a sexta, das 10h às 17h. Sábados, domingos e feriados, das 11h às 18h / Curadoria: Isabel Sanson Portella / Entrada franca.

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Patrizia DAngello - While my Eyes Go Looking for Flying Saucers in the Sky - aquarela sobre papel - 2019 - 124cmX140cm (Foto: Divulgação)

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Patrizia DAngello - Lambança - 2016 - óleo sobre linho - 132cmX165cm (Foto: Divulgação)

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Patrizia DAngello - La Vie en Rose - 2015 - óleo sobre tela - 40cmX60cm (Foto: Divulgação)

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Patrizia DAngello - Nem Tudo São Flores - 2019 - óleo sobre linho - 164cmX94cm (Foto: Divulgação)

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Patrizia DAngello - Élégance - 2017 - óleo sobre linho - 30cmX48cm (Foto: Divulgação)

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Patrizia DAngello - Relato Selvagem - 2019 - óleo sobre linho - 92cmX85cm (Foto: Divulgação)

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Patrizia DAngello - Chá Colonial - 2019 - óleo sobre linho - 26cmX30cm (Foto: Divulgação)

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Patrizia DAngello - Bolinho do Amor - 2019 - óleo sobre linho - 28cmX60cm (Foto: Divulgação)

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Patrizia DAngello - Algodão - 2019 - óleo sobre linho - 120cmX83cm (Foto: Divulgação)
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