SAÚDE

A construção da saúde começa antes de nós

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Por DR. GUSTAVO VARELLA

Publicado em 22/09/2026 às 22:24

Alterado em 22/09/2026 às 22:24

. Imagem criada com IA

Quando uma criança respira pela primeira vez, costumamos imaginar que ali começa a sua história. O primeiro choro, o primeiro toque e o encontro com o olhar dos pais parecem inaugurar uma nova vida. Mas, biologicamente, aquela história começou muito antes. Antes do nascimento, da gestação e, em alguma medida, até mesmo da fecundação, parte da construção da saúde daquele ser humano já estava em curso.
Nos artigos anteriores, falamos da arquitetura da saúde e do terreno sobre o qual ela se estabelece. Agora, podemos avançar para a construção propriamente dita. Afinal, nenhum organismo começa sua existência a partir de uma página completamente em branco.

Cada um de nós nasce no interior de uma história. Recebemos de nossos pais um patrimônio genético que carrega características, possibilidades e vulnerabilidades acumuladas ao longo de gerações. Mas os genes não representam um destino inevitável. Eles se parecem menos com uma sentença e mais com um conjunto de projetos possíveis, cuja expressão será influenciada pelas condições encontradas durante a vida.

Antes mesmo da concepção, a saúde dos futuros pais já participa desse processo. Idade, estado nutricional, saúde metabólica, hábitos e exposição ao tabaco, ao álcool e a outras substâncias podem influenciar as condições em que uma nova vida será iniciada. Cuidar da própria saúde antes de gerar um filho também é uma forma de cuidar de alguém que ainda nem nasceu.

Depois da fecundação, o útero torna-se o primeiro ambiente habitado pelo ser humano — seu primeiro terreno e seu primeiro canteiro de obras. Nele, o organismo em formação não recebe apenas nutrientes. Recebe sinais. Por meio da disponibilidade de energia, dos hormônios, do metabolismo materno e da circulação placentária, ele começa a interpretar o mundo no qual deverá sobreviver.

Condições vividas nessa fase podem influenciar o risco futuro de obesidade, diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares. Parte desse fenômeno envolve mecanismos epigenéticos, capazes de modificar a maneira como determinadas informações genéticas são utilizadas sem alterar a sequência do DNA. Os genes oferecem possibilidades, mas dialogam continuamente com o ambiente.

Isso não significa que todas as doenças futuras sejam definidas durante a gestação, muito menos que os pais devam ser culpados pelos problemas de saúde dos filhos. Compreender influências não é distribuir culpa. É ampliar a consciência e criar melhores possibilidades de autocuidado.

O nascimento também não encerra essa construção. Alimentação, sono, movimento, vínculos afetivos, segurança e condições sociais continuarão participando da formação do corpo, do cérebro e da maneira como aquela pessoa responderá e ao mundo nas mais variadas nuances.

Quando observo minha própria história, reconheço com gratidão a bagagem que recebi dos meus pais. Cresci em um ambiente no qual havia alimentos de qualidade, rotinas diárias, prática de exercícios e esportes, contato com a natureza, cuidado com o sono, baixo consumo de bebidas alcoólicas e ausência de tabagismo. Mais do que orientações, tive exemplos consistentes. Isso tornou mais natural aprender, repetir e preservar bons hábitos ao longo da vida.

Também consigo identificar aspectos menos favoráveis, que hoje faria de maneira diferente. Nenhuma herança é perfeita. Ainda assim, o meu balanço foi profundamente positivo e me mostrou que não herdamos apenas genes. Herdamos comportamentos, referências, crenças e maneiras de autocuidado.

Muitas dessas heranças não estão presentes no DNA, mas atravessam gerações com enorme força. Não escolhemos os genes que recebemos, o ambiente em que nos desenvolvemos nem todas as circunstâncias que marcaram nossos primeiros anos. Entretanto, não precisamos permanecer prisioneiros dessa história. Podemos fortalecer o que recebemos de bom e transformar aquilo que já não nos serve, ou nos prejudica e adoece.

Talvez esse seja um dos sentidos mais profundos do cuidado: interromper o que não constrói nossa saúde e transformar naquilo que fortalece e merece ser transmitido. Toda escolha de saúde é pessoal, mas suas consequências raramente terminam em nós.

E você? Quais hábitos, exemplos e formas de cuidado recebeu daqueles que vieram antes? O que deseja preservar, o que precisa transformar e o que gostaria de deixar para aqueles que virão depois?

Escolha hoje uma dessas heranças positivas e fortaleça-a. Depois, reconheça um padrão que precisa ser modificado e dê um primeiro passo possível nessa direção. Não hesite em pedir ajuda nessa jornada. A construção da saúde começa antes de nós, mas, enquanto vivemos, uma parte importante desta obra está justamente nas nossas mãos.

Dr. Gustavo Varella é especialista em clínica médica e terapia intensiva, com pós-graduação em medicina do estilo de vida e medicina esportiva. Atua há mais de 10 anos com uma abordagem preventiva em saúde aplicada à performance e longevidade funcional.

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