SAÚDE

Tecnologia na saúde: aliada poderosa, mas não substituta do cuidado humano

Por DR. GUSTAVO VARELLA

Publicado em 15/05/2026 às 17:16

Alterado em 15/05/2026 às 17:16

. Imagem Pixabay

Você provavelmente já fez isso: olhou para o smartwatch tentando entender seu próprio corpo, perguntou ao Chat GPT sobre um sintoma ou usou um app para medir a qualidade do seu sono.

Se sim, você já faz parte de uma das maiores transformações da história da medicina.

No SXSW 2026, um dos maiores eventos de inovação do mundo, que aconteceu há algumas semanas, no Texas, a saúde digital foi um dos temas centrais. E com razão. A inteligência artificial já detecta alterações cardíacas antes de qualquer sintoma aparecer. Wearables monitoram estresse, sono e oxigenação em tempo real. Algoritmos identificam padrões em exames de imagem com precisão equivalente à de especialistas humanos. Isso não é ficção científica. É hoje.

Mas existe um risco crescente que precisa ser nomeado com clareza: a ilusão de que informação equivale a cuidado.

Um algoritmo pode identificar que você dormiu mal por 14 dias consecutivos. O que ele não consegue fazer é perguntar: “O que está acontecendo na sua vida que está te impedindo de descansar?” Essa pergunta, simples, humana e clínica, muda tudo.

Na prática médica, já é visível um fenômeno novo: pessoas com acesso a volumes enormes de dados sobre si mesmas, mas profundamente desconectadas do que esses dados significam no contexto real de suas vidas.

No SXSW 2026, a pesquisadora de Harvard University, Kasley Killam, sintetizou bem: saúde física, mental e social são sistemas interconectados. Se um enfraquece, os outros são afetados. Nenhum aplicativo enxerga isso em seu conjunto. O app de meditação não sabe que você medita 10 minutos por dia, mas trabalha 9 horas em um ambiente tóxico. O monitor de glicose não enxerga que a compulsão alimentar noturna tem raízes emocionais — e precisa de acolhimento, não de restrição.

A tecnologia é uma ferramenta extraordinária. Mas ferramenta.

O que a inteligência artificial não faz, e provavelmente nunca fará com a mesma profundidade, é estar presente. Perceber o que não está sendo dito. Reconhecer quando uma pessoa precisa ser desafiada e quando precisa ser acolhida. Empatia não é um dado. É uma relação.

Use a tecnologia a seu favor. Mas não a confunda com saúde. Da próxima vez que seu wearable alertar para algo, leve o dado a um profissional.

A tecnologia rastreou. O médico interpreta. A decisão é sua.

 

Dr. Gustavo Varella é médico com atuação em UTI, clínica médica e Medicina do Estilo de Vida, especializado em saúde aplicada à performance e longevidade funcional.

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