MENTE SÃ
O antídoto para a frustração
Por BERENICE KUENERZ
Publicado em 15/08/2026 às 16:29
Alterado em 15/08/2026 às 16:29
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Existe um descompasso inevitável entre o mundo que projetamos e o mundo que se materializa. Criamos cenários, desenhamos diálogos e antecipamos desfechos. Contudo, quase sem exceção, a realidade insiste em nos entregar algo diferente.
Essa brecha entre o esperado e o vivido não é uma falha de sorte ou de destino; é uma limitação da própria arquitetura do pensamento. Quando nutrimos uma expectativa, nossa imaginação trabalha a serviço do desejo. Projetamos o futuro com base no que queremos que aconteça, excluindo da equação a infinidade de variáveis imprevisíveis que compõem o tecido da vida real. O desejo é cego para os imponderáveis; por isso, a expectativa solitária carrega consigo a semente de uma provável frustração.
Essa cegueira involuntária da imaginação não ocorre por acaso. O cérebro humano busca atalhos para economizar energia e nos defender da angústia da incerteza. Ao desenhar o futuro idealizado, fabricamos uma ilusão temporária de controle. O problema surge quando tomamos essa maquete mental como uma promessa irrevogável do destino. Esquecemos que o ambiente, as outras pessoas e o próprio acaso estão constantemente reescrevendo as regras do jogo enquanto caminhamos.
Se a expectativa engessa, a curiosidade liberta.
A mente flexível diante do imprevisto
Diferente do desejo, que exige um resultado específico, a curiosidade requer uma mente aberta, flexível e pronta para se reorganizar diante daquilo que não se apresenta exatamente como planejado. A mente curiosa não se prende ao “como deveria ser”, mas se fascina com o “como realmente é”.
Por não estar blindada por certezas ou exigências prévias, a atitude curiosa absorve novas informações com muito mais facilidade. Onde o sujeito puramente focado na expectativa enxerga um erro da realidade, o sujeito curioso enxerga uma descoberta.
Esquecemos com frequência que foi justamente a curiosidade – o fascinante interesse pelo novo – que impulsionou a evolução humana. Se a humanidade desbravou mares, descobriu remédios e expandiu horizontes, não foi apenas pelo desejo de chegar a um destino certo, mas pelo impulso irresistível de investigar o desconhecido. No entanto, na cultura contemporânea focada em eficiência, métricas e previsibilidade, fomos treinados a ver o desvio como falha. A curiosidade surge como um resgate dessa nossa essência exploradora, permitindo encarar o imprevisto não como ameaça, mas como o próprio território da descoberta.
O equilíbrio ideal: Projeção com Abertura
A solução para a dor da frustração não reside no niilismo ou na tentativa impossível de erradicar toda e qualquer expectativa. Projetar e desejar são impulsos humanos essenciais que nos movem para a ação.
O segredo está em cultivar, simultaneamente, a expectativa e a curiosidade.
A expectativa traça o rumo e dá a energia inicial para o passo; a curiosidade nos dá os reflexos para navegar a tempestade quando o vento muda de direção.
Na prática, essa postura transforma nossa relação com os acontecimentos. Quando o desfecho de um projeto, de uma conversa ou de um relacionamento não corresponde ao roteiro original, o indivíduo curioso não se recolhe ao ressentimento. Em vez de perguntar “por que isso aconteceu comigo?”, ele se pergunta “o que esse novo cenário me revela que eu não era capaz de ver antes?”, ou “O que escolho fazer diante desse novo cenário?”. A frustração perde a sua força destrutiva diante dessas perguntas que nos trazem para o lugar de protagonistas.
Ao somar curiosidade à expectativa, preparamos o espírito não apenas para aceitar a realidade como ela se apresenta, mas para responder e se posicionar com inteligência, maturidade e leveza frente a qualquer cenário que surgir.
Diante disso, me permito uma provocação pessoal a você, leitor: como tem reagido quando a vida não cumpre com o roteiro esperado? Como tem lidado com a dor inevitável desse descompasso? Tem se fechado nela ou, após reconhecê-la e respeitá-la, usa essa mesma energia para dar um salto de perspectiva – transformando a decepção em curiosidade para descobrir o que esse novo cenário veio te ensinar?
Afinal, confiar na sabedoria da vida é compreender que, quando o destino nos nega o que pedimos, quase sempre é porque está nos preparando para acolher o extraordinário que sequer sabíamos procurar.
Berenice Kuenerz, psicoterapeuta, mentora em gestão emocional, autoliderança e alta performance