MENTE SÃ

Perdas, você já as teve?

Por BERENICE KUENERZ

Publicado em 04/06/2026 às 18:39

Alterado em 04/06/2026 às 18:39

. Foto: Pixabay

Sim, todos nós já tivemos. São inevitáveis.

A primeira perda que tive foi a de meu pai, aos 6 anos. Nessa idade, as únicas perdas que podemos entender são as de algum brinquedo ou de algum desejo negado. Ainda assim, costumamos protestar veementemente. Um movimento da vida que, repentinamente, corta, elimina, faz desaparecer, é praticamente impossível de entender nessa idade.

Foi o primeiro ensinamento e treinamento que tive de que existem coisas que não podemos controlar. Mudam repentinamente nossa realidade, sem que possamos impedir e sem nos pedir consentimento.
Muitos anos mais tarde, através especialmente do estudo da filosofia oriental, aprendi o conceito taoista do Wu Wei, que fala que o mundo possui um ritmo natural e leis próprias, e da sabedoria de aceitar esse fluxo natural da vida. Em vez de tentar controlar o incontrolável através da força bruta, da imposição da vontade ou da não aceitação, devemos responder ao momento presente com flexibilidade. É a metáfora da água: ela é extremamente macia, mas contorna e molda a rocha mais dura simplesmente fluindo. Diante da rocha (adversidade), a água não tenta quebrá-la por meio do confronto; ela simplesmente se molda, encontra as frestas, até que, com o tempo, a rocha ceda.

Tempos depois, em minha formação como coach, tive acesso ao ensinamento dos estoicos, que também abordam o tema.

Os estoicos ensinaram que uma aprendizagem básica na vida é aprender a separar, em qualquer situação, o que é controlável do que não é. Esse simples ensinamento, ao qual normalmente resistimos, porque com grande frequência tentamos exercer controle sobre aquilo sobre o que não temos poder, é uma sabedoria básica e elementar na vida.

Observam os estoicos que, se alguma ação for possível, devemos fazê-la com nossa melhor energia. Uma vez verificado que fizemos todo o nosso possível, devemos nos manter em paz e aceitar totalmente o resultado, porque, fora disso, não temos mais controle. Caso nenhuma ação seja possível, reclamações e lamentos não resolvem, apenas aumentam o sofrimento mental. A aceitação é a ação mais inteligente e estratégica, ensinam eles.

Deveríamos ter aprendido isso nos primeiros anos do colégio, para termos menos sofrimento, menos gasto de energia desnecessário e muito mais habilidade para lidar com desafios, mudanças e, sobretudo, perdas irreversíveis.

Os estoicos ensinam, também, que a única coisa sobre a qual podemos ter total controle é sobre nós mesmos. Embora seja totalmente lógico, também resistimos. Tentamos mudar o exterior, com a ilusão de que isso será possível ou mais fácil do que equilibrar ou regular nosso interior para a nova realidade que se apresenta.

A realidade não é fixa, nunca foi e nunca será. Nós mesmos, embora muitas vezes desejemos, não somos fixos. Acordamos em um estado e, no final do dia, já podemos estar em outro. Tudo se move. E, nesse mover-se contínuo, coisas, pessoas, situações, estados e até planos e expectativas vêm e vão.
Bom, o que fazer diante dessa mobilidade ininterrupta da realidade?

Tomo, para o gerenciamento de minha mente, minhas emoções e minha vida, o ensinamento dos estoicos: aceitação do que não tenho controle. Porém, treinamento diário daquilo sobre o que tenho controle: meus pensamentos, emoções, escolhas e decisões.

Certa vez, Elena Espinal, coach internacional, falou em uma de suas palestras: o bom marinheiro tem que saber navegar em qualquer mar e sob qualquer vento.

O mar e o vento são as adversidades que se apresentam nas diferentes perdas que experimentamos no processo da longa e interessante travessia desta vida.

Deixo aqui uma frase que fez muito sentido para mim: a adversidade, seja de que tipo for, não é uma barreira que interrompe o nosso caminho; ela passa a ser o próprio caminho, exigindo apenas que você mude a posição das velas para continuar navegando.

Assim sendo, continuemos navegando, construindo o orgulho de irmos nos tornando, pouco a pouco, experientes marinheiros da vida.

Berenice Kuenerz, psicoterapeuta, mentora em gestão emocional e alta performance.

Tags:

Deixe seu comentário