CORPO EM EQUILÍBRIO
O corpo mudou. E agora? Entenda o que acontece com a imagem corporal após o emagrecimento
Por DRA DAGHILLA MACEDO
Publicado em 01/11/2026 às 10:39
Alterado em 01/11/2026 às 10:39
A mudança física pode não acompanhar no mesmo ritmo a maneira como a pessoa percebe e se relaciona com o próprio corpo. O peso diminui, as roupas mudam e a aparência se modifica. Em muitos casos, também há ganhos importantes para a saúde. Mas existe uma dimensão que a balança não mede: Como a pessoa passa a perceber a si mesma depois de uma mudança corporal significativa?
Intervenções para perda de peso, como a cirurgia bariátrica e os tratamentos medicamentosos, com as devidas indicações, reforçam a importância de compreender não apenas as mudanças físicas, mas também a experiência psicológica de quem emagrece.
A imagem corporal é multidimensional. Não corresponde apenas ao que vemos no espelho. Envolve a percepção do corpo, os pensamentos e sentimentos associados à aparência e os comportamentos influenciados por essas experiências. Sua construção depende da história pessoal, das relações afetivas, dos padrões culturais e da forma como somos tratados socialmente em função da aparência. Por isso, a mudança física não implica, necessariamente, uma transformação equivalente na maneira de perceber e avaliar o próprio corpo.
Quando a percepção não acompanha a transformação
Uma hipótese neurocognitiva discutida por Fava et al. (2026), propõe que as mudanças físicas do emagrecimento podem ocorrer em ritmo diferente da atualização das representações que construímos sobre o corpo. Os autores consideram que alterações na forma e no tamanho corporal, exigem adaptações nos mecanismos envolvidos na percepção do corpo e de sua relação com o espaço.
Essa ideia ajuda a formular uma questão importante: A de que reconhecer conscientemente que o corpo mudou não significa que todas as dimensões da experiência corporal tenham mudado na mesma proporção. A pessoa pode perceber a perda de peso e as alterações na aparência, mas continuar vivenciando o próprio corpo a partir de referências anteriores.
Além disso, a imagem corporal não pode ser explicada apenas por mecanismos cerebrais. A história pessoal, as relações afetivas, as experiências de rejeição e os padrões culturais de beleza também influenciam os significados atribuídos ao corpo. Compreender essa experiência exige considerar, portanto, aspectos neurocognitivos, emocionais, sociais, culturais e ambientais.
Outro aspecto fundamental é trabalhar, ao longo do processo de emagrecimento, as expectativas em relação aos resultados e às mudanças corporais. A perda ponderal pode trazer benefícios importantes à saúde, mas também produzir alterações na aparência, como flacidez e excesso de pele, especialmente após perdas expressivas de peso. Quando essas possibilidades não são consideradas previamente, a diferença entre o corpo esperado e o corpo que se apresenta após o emagrecimento pode gerar frustração e insatisfação corporal. Por isso, é importante que o cuidado contemple não apenas as metas relacionadas ao peso, mas também a preparação para as mudanças na aparência, o alinhamento de expectativas e a construção de uma relação mais realista e menos punitiva com o próprio corpo.
É importante distinguir a insatisfação corporal de alterações na percepção da imagem corporal. Nem toda insatisfação representa uma distorção, assim como a presença de preocupações com a aparência não caracteriza, por si só, um Transtorno Dismórfico Corporal (TDC). Esse diagnóstico exige critérios clínicos específicos e avaliação profissional. Uma pessoa pode reconhecer as mudanças físicas e continuar insatisfeita com a aparência. Em outras situações, pode haver discrepâncias importantes entre a maneira como se percebe o próprio corpo e suas características físicas. Compreender essas diferenças é fundamental para evitar generalizações e reconhecer quando a relação com a aparência ultrapassa o descontentamento e passa a provocar sofrimento significativo ou prejuízos à vida cotidiana.
A insatisfação corporal, por si só, não caracteriza um transtorno psicológico, constituindo um fenômeno influenciado por fatores individuais, sociais e culturais. Nesse contexto, a crescente exposição às redes sociais e a comparação com padrões corporais idealizados podem contribuir para a intensificação desse fenômeno. Roorda et al. (2026), em estudo experimental com 256 mulheres universitárias, identificaram que a exposição a vídeos sobre rotinas alimentares nas redes sociais, especialmente aqueles associados ao ideal de magreza, promoveu uma piora significativa da percepção da imagem corporal.
Esses achados reforçam a importância de compreender a influência dos conteúdos digitais sobre a percepção corporal, uma vez que a insatisfação com a própria imagem, quando intensa ou persistente, pode estar associada ao sofrimento emocional e ao desenvolvimento de comportamentos alimentares prejudiciais. Dessa forma, a insatisfação corporal não deve ser banalizada, sobretudo em uma sociedade marcada pela pressão estética, pela valorização de padrões corporais idealizados e pelo estigma relacionado ao peso, aspectos também discutidos por Trujillo-ChiVacuan et al. (2025).
Um ponto que merece atenção é o espaço que a preocupação com a aparência ocupa na vida da pessoa. Quando ela condiciona escolhas, restringe experiências, interfere nas relações ou organiza a rotina em torno da necessidade de modificar o corpo, é importante investigar o sofrimento envolvido.
O acompanhamento psicológico pode ajudar a compreender expectativas, identificar padrões de sofrimento e desenvolver recursos para lidar com as mudanças corporais e as experiências de estigma, bem como promover o letramento digital crítico, capacitando os indivíduos a reconhecer, interpretar e questionar conteúdos veiculados nas redes. Esse cuidado deve ser individualizado e, quando necessário, integrado ao acompanhamento médico e nutricionista. Trata-se de favorecer uma relação menos rígida e punitiva consigo mesmo, na qual o valor pessoal não dependa exclusivamente do peso ou da aparência.
Diante disso, após uma mudança física, a pergunta mais relevante não é o quanto de peso foi perdido, mas o que mudou na relação da pessoa consigo mesma. Compreender essa experiência é reconhecer que o cuidado com a saúde também envolve a maneira como habitamos, percebemos, experimentamos e atribuímos significado ao próprio corpo.
Daghilla Macedo, é psicóloga clínica e atua sob a abordagem da Gestalt-Terapia. Doutoranda pela UFRJ, possui Mestrado em Clínica Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e é especialista em Psicologia Hospitalar pela mesma instituição. Realiza atendimento em consultório particular, com especial interesse no acompanhamento de pessoas que enfrentam desafios relacionados à obesidade, aos transtornos alimentares e outras demandas emocionais e psicológicas. Respeitando o seu propósito de cuidado integral à saúde de modo humanizado e baseado em evidências científicas.
Referências:
Fava et al. (2026). When the body changes faster than the brain: a narrative and theoretical review of body schema updating after bariatric surgery. Frontiers in Nutrition. Prnjak et al. (2022).
Body image as a multidimensional concept: A systematic review of body image facets in eating disorders and muscle dysmorphia. Trujillo-ChiVacuan, E., Winterman-Hemilson, B., Compte, E. J., Rodríguez, G., Perez, M., & Black Becker, C. (2024).
Adaptation and implementation of body project as a universal body image program in Mexico and Latin America. Eating Disorders, 32(6), 644–665. https://doi.org/10.1080/10640266.2024.2360256 ROORDA, Bethany A.;
MOLNAR, Megan; CASSIN, Stephanie E. “What I Eat in a Day”: The Effect of Social Media’s Diet Messaging on Body Image and Dieting Intentions. Dietetics, v. 5, n. 1, artigo 8, 2026. DOI: 10.3390/dietetics5010008.