CORPO EM EQUILÍBRIO
Cirurgia plástica na era da IA: quando a expectativa supera a realidade dos resultados
Por DR. PABLO TRINDADE
Publicado em 10/10/2026 às 08:18
Alterado em 10/10/2026 às 17:37
, Foto: Pixabay
Há alguns anos quando uma paciente chegava ao consultório para conversar sobre uma cirurgia plástica, normalmente trazia uma revista, uma fotografia ou até mesmo a imagem de alguma atriz como referência do resultado que gostaria de alcançar. Em alguns casos uma foto de como ela era quando era jovem. Algo natural quando há uma dificuldade de manifestar em palavras o quê ela espera do resultado da sua cirurgia.
Atualmente, a situação mudou bastante. As revistas deram lugar as redes sociais, aos filtros digitais e, mais recentemente, à inteligência artificial. As pacientes chegam com imagens cada vez mais perfeitas, muitas vezes sem saber se aquele corpo realmente existe. E é justamente aí que começa um dos grandes desafios da cirurgia plástica atual de administrar expectativas em um mundo onde a imagem pode ser modificada praticamente sem limites.
A inteligência artificial ou “IA” trouxe avanços extraordinários para a medicina e certamente terá um papel cada vez maior no planejamento cirúrgico por exemplo. Mas ao mesmo tempo, criou um problema que merece atenção. Hoje é possível modificar uma fotografia em segundos, afinar a cintura, eliminar ou disfarçar cicatrizes, aumentar ou diminuir as mamas, corrigir assimetrias e até simular um resultado cirúrgico que dificilmente seria possível alcançar na vida real.
O problema não está na tecnologia. Está na maneira como passamos a interpretar essas imagens e na forma que maus profissionais utilizam dela para manipular futuros possíveis clientes.
Nas redes sociais, o famoso "antes e depois" ganhou uma dimensão enorme. Fotografias de transformações corporais despertam interesse, geram engajamento e, muitas vezes, influenciam diretamente a decisão de uma pessoa procurar uma cirurgia. A estratégia de “produtificar um serviço” é conhecida em marketing. O “antes e depois” é um grande exemplo disso. Resumir em uma fotografia (produto) tudo aquilo que pode ser oferecido em uma consulta médica (serviço), em uma cirurgia, em um cuidado diferenciado pois “vende” mais, cauda mais impacto comercial. Imagina se essa estratégia que já é discutível nos meios acadêmicos, ainda ser alvo de manipulação…
Mas será que tudo aquilo que vemos corresponde à realidade?
Uma simples mudança de iluminação, postura, ângulo da câmera ou contração muscular já pode produzir diferenças impressionantes entre duas fotografias. Imagine então o que pode ser feito com ferramentas de edição digital e inteligência artificial.
Não estou dizendo que todos os resultados publicados sejam manipulados. Existem transformações verdadeiramente extraordinárias, especialmente na cirurgia plástica reparadora, área em que atuo há muitos anos. Pacientes que perderam grandes quantidades de peso, por exemplo, podem apresentar mudanças profundas na aparência corporal e na qualidade de vida após seus procedimentos.
Mas existe uma diferença importante entre mostrar um bom resultado e criar uma expectativa impossível. Pelo contrário. Nosso papel é trazer a expectativa do resultado ao resultado que realmente podemos atingir. E explicar isso aos nossos pacientes.
A cirurgia plástica trabalha com tecidos vivos, cicatrização, características genéticas, idade, qualidade da pele e inúmeras outras variáveis. Não existe um comando capaz de simplesmente apagar uma cicatriz ou garantir uma simetria perfeita.
E talvez seja justamente isso que esteja ficando cada vez mais difícil de explicar.
Quando uma paciente observa dezenas de fotografias aparentemente perfeitas todos os dias, aquele padrão passa a ser interpretado como normal. O resultado natural, que deveria ser valorizado, começa a parecer insuficiente, já dizia meu grande mestre, maior cirurgião da história, Professor Ivo Pitanguy, com quem tive o privilégio de realizar minha formação:
“Outro fator fundamental é a busca da naturalidade. Dar um aspecto à pessoa para que ela não pareça operada.”
Na minha prática, especialmente com pacientes que passaram por grandes perdas de peso, percebo como essa questão merece cuidado. Muitas dessas pessoas enfrentaram anos de obesidade, mudanças importantes na autoestima e um longo processo de transformação corporal.
A cirurgia reparadora representa uma etapa muito significativa dessa jornada. Mas ela não transforma o corpo em uma imagem digital. Existem limites anatômicos, cicatrizes necessárias e resultados que dependem também da resposta individual de cada organismo e é fundamental que o paciente compreenda isso antes de entrar no centro cirúrgico.
Outro ponto que merece reflexão é a comparação constante. Antigamente, a paciente comparava seu resultado com o de algumas pessoas próximas. Hoje, compara com milhares de imagens selecionadas, editadas e publicadas justamente para mostrar o melhor ângulo possível.
É uma comparação injusta, muitas vezes com uma realidade que sequer existe.
A inteligência artificial não deve ser vista como inimiga da cirurgia plástica. Pelo contrário. Ela poderá contribuir muito para o diagnóstico, planejamento e acompanhamento dos pacientes. Mas precisamos aprender a diferenciar uma ferramenta de orientação de uma promessa de resultado.
Uma simulação pode ajudar a explicar possibilidades. Não pode ser confundida com uma garantia de um resultado intangível.
Acredito que, nos próximos anos, uma das responsabilidades mais importantes do cirurgião plástico será justamente resgatar essa conversa sobre limites, expectativas e resultados reais.
Porque a boa cirurgia plástica não é aquela que produz a fotografia mais impressionante das redes sociais. É aquela que respeita a anatomia, preserva a segurança e entrega uma melhora possível, consistente e compatível com a realidade de cada paciente.
A tecnologia continuará evoluindo. As imagens serão cada vez mais perfeitas e provavelmente será ainda mais difícil distinguir o real do artificial.
Mas existe algo que nenhuma inteligência artificial consegue substituir: a relação de confiança entre médico e paciente.
E talvez, em um mundo cada vez mais artificial, seja justamente a valorização do resultado real que precise voltar a ocupar o centro dessa discussão de ordem acadêmica e social.
Dr. Pablo Trindade é cirurgião plástico ex-aluno do professor Ivo Pitanguy. Possui título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica SBCP. Atualmente coordena o “NIRC" - Núcleo Integrado de Readequação Corporal, o primeiro centro privado de acompanhamento interdisciplinar da obesidade que conta com cirurgiões bariátricos, cirurgiões plásticos, endocrinologistas, nutricionistas, psicólogos, fisioterapeutas e educadores físicos.