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Os sinais silenciosos da depressão: quando o sofrimento não é visível

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Por DRA. DAGHILLA MACEDO

Publicado em 03/10/2026 às 10:06

Alterado em 03/10/2026 às 17:35

, Marcelo Camargo/Agência Brasil

Quando pensamos em depressão, é comum imaginarmos uma pessoa profundamente triste, chorando, isolada e sem conseguir realizar suas atividades. Embora essa possa ser uma das formas de manifestação do transtorno, a depressão nem sempre se apresenta dessa maneira.

Há pessoas que continuam trabalhando, estudando, cuidando dos filhos, encontrando amigos e cumprindo compromissos enquanto enfrentam, silenciosamente, um sofrimento emocional significativo. Por fora, a rotina parece seguir normalmente. Por dentro, atividades simples podem exigir um esforço enorme.

A depressão é um transtorno de saúde mental e não deve ser confundida com tristeza passageira. Sentir tristeza, frustração ou desânimo diante das dificuldades da vida faz parte da experiência humana. Na depressão, entretanto, as alterações são mais persistentes e podem comprometer diferentes áreas da vida.

Entre os sinais que merecem atenção estão a perda do interesse ou do prazer por atividades antes consideradas agradáveis, alterações do sono e do apetite, cansaço excessivo, dificuldade de concentração, irritabilidade, sentimento de culpa ou inutilidade, desesperança e tendência ao isolamento, além de comportamentos de autoagressão. Em algumas situações, podem surgir pensamentos relacionados à morte e ao suicídio.

Ao analisar o cenário populacional, os números ajudam a compreender a dimensão deste problema. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que no Brasil, uma estimativa aponta 11,5 milhões de pessoas vivendo com transtornos depressivos. Torna-se válido destacar, que as projeções são ainda mais desafiadoras, uma vez que se estima que até 2030, a depressão poderá ocupar lugar de maior prevalência entre as doenças mais frequentes no mundo.

Um aspecto que merece atenção é a relação entre depressão e obesidade. Durante muito tempo, essas condições foram frequentemente analisadas de maneira separada. Hoje sabemos que sua relação é mais complexa e pode ocorrer nos dois sentidos. Estudos mostram que pessoas com obesidade apresentam maior risco de desenvolver depressão e que pessoas com depressão também apresentam maior risco de desenvolver obesidade.

O estudo do LUPPINO, F. S. (2010), destacou que pessoas com obesidade apresentavam 55% maior chance de desenvolver depressão ao longo do tempo, enquanto as pessoas com depressão, apresentavam 58% maior chance de desenvolver obesidade, sendo uma via de mão dupla.

Esses números não significam que toda pessoa com obesidade desenvolverá depressão ou que uma pessoa com depressão necessariamente desenvolverá obesidade. Eles demonstram uma associação e reforçam que saúde mental e saúde física não devem ser tratadas de formas isoladas.

Sintomas depressivos podem estar associados à redução da disposição para atividades físicas, alterações do sono e mudanças no comportamento alimentar. Algumas pessoas também podem recorrer à comida como estratégia para aliviar temporariamente emoções desagradáveis. Além disso, determinados medicamentos utilizados no tratamento de transtornos psiquiátricos podem produzir alterações de peso em alguns indivíduos.

Na outra direção, viver com obesidade também pode envolver experiências que afetam a saúde mental. Estigma relacionado ao peso, discriminação, insatisfação corporal, dificuldades sociais e experiências repetidas de tentativas frustradas de emagrecimento podem contribuir para o sofrimento psicológico.

Também são investigados mecanismos biológicos, envolvendo sistemas neuroendócrinos e genéticos. Por isso, reduzir essa relação simplesmente à ideia de que uma pessoa “come porque está deprimida” seria ignorar a complexidade do fenômeno.

Nesse sentido, um dos grandes desafios relacionados à depressão é justamente o fato de que nem sempre conseguimos identificar o sofrimento de alguém pela aparência.
Uma pessoa pode sorrir em uma fotografia, parecer produtiva profissionalmente, conversar normalmente e, ainda assim, estar enfrentando uma depressão. A capacidade de manter algumas atividades não determina, sozinha, a presença ou a ausência de sofrimento psíquico.

Da mesma maneira, não devemos transformar qualquer momento de tristeza em um diagnóstico. O diagnóstico de depressão envolve uma avaliação cuidadosa que considera os sintomas apresentados, sua duração, intensidade, frequência e o impacto que provocam na vida da pessoa e necessita de avaliação profissional.

O tratamento para a depressão deve ser realizado com o acompanhamento psicológico e quando necessário, medicamentoso. Quando existe obesidade associada, uma abordagem integrada e multiprofissional pode ser especialmente importante, considerando conjuntamente saúde mental, comportamento alimentar, condições clínicas e contexto de vida.

Falar sobre depressão é também uma forma de combater o estigma. Quanto mais compreendemos que saúde mental e saúde física estão profundamente relacionadas, mais espaço criamos para que as pessoas consigam reconhecer seu sofrimento e possam buscar ajuda.

Daghilla Macedo, é psicóloga clínica e atua sob a abordagem da Gestalt-Terapia. Doutoranda pela UFRJ, possui Mestrado em Clínica Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e é especialista em Psicologia Hospitalar pela mesma instituição. Realiza atendimento em consultório particular, com especial interesse no acompanhamento de pessoas que enfrentam desafios relacionados à obesidade, aos transtornos alimentares e outras demandas emocionais e psicológicas. Respeitando o seu propósito de cuidado integral à saúde de modo humanizado e baseado em evidências científicas.

Fontes: WORLD HEALTH ORGANIZATION. Depressive disorder (depression). Geneva: World Health Organization, 11 set. 2026. LUPPINO, F. S. et al. Overweight, Obesity, and Depression: A Systematic Review and Meta-analysis of Longitudinal Studies. Archives of General Psychiatry, v. 67, n. 3, p. 220–229, 2010.


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