CORPO EM EQUILÍBRIO
A cirurgia na era dos robôs e da Inteligência Artificial
Por DR. LUIZ GUSTAVO DE OLIVEIRA E SILVA
Publicado em 05/09/2026 às 10:03
Alterado em 05/09/2026 às 10:03
. Imagem produzida por IA/Pixabay
Poucas áreas da medicina evoluíram tanto quanto a cirurgia. Há milhares de anos, povos antigos já realizavam intervenções rudimentares, como a trepanação — perfuração do crânio utilizada na tentativa de tratar dores de cabeça ou supostos males espirituais. Esses procedimentos eram feitos sem anestesia, sem qualquer princípio de esterilização e sem instrumentos adequados.
A primeira grande revolução da cirurgia ocorreu no século XIX, com a descoberta da anestesia, em 1846, que permitiu realizar operações sem dor. Na mesma época, a introdução de práticas de higiene e esterilização por médicos como Ignaz Semmelweis e Joseph Lister reduziu drasticamente as mortes por infecção. Já no século XX, o desenvolvimento dos antibióticos, das transfusões de sangue e dos exames de imagem — como radiografia, ultrassonografia e, posteriormente, tomografia computadorizada — tornou possíveis procedimentos cada vez mais complexos, incluindo transplantes de órgãos e cirurgias cardíacas. Sobre essa base, nas décadas de 1980 e 1990, a medicina deu um novo salto com a consolidação das cirurgias minimamente invasivas, proporcionando uma recuperação significativamente mais rápida aos pacientes.
Durante muito tempo, operar significava grandes incisões, longos períodos de internação e recuperações demoradas e dolorosas. Esse cenário começou a mudar no fim da década de 1980 com o surgimento da videolaparoscopia, que substituiu grandes cortes por pequenas incisões. Por meio de microcâmeras e instrumentos delicados, tornou-se possível realizar procedimentos no interior do abdome com muito menos agressão ao organismo. Os benefícios foram evidentes: menos dor no pós-operatório, menor risco de infecção, cicatrizes discretas e alta hospitalar mais precoce. Essa evolução abriu caminho para um novo avanço tecnológico: a cirurgia robótica.
A cirurgia robótica levou os princípios da cirurgia minimamente invasiva a um novo patamar, oferecendo ao cirurgião um controle extraordinário dos movimentos. Os braços mecânicos, comandados pelo médico, filtram tremores naturais das mãos, ampliam a visão do campo operatório em três dimensões e permitem alcançar ângulos impossíveis em uma cirurgia convencional ou laparoscópica. Na prática, isso significa incisões ainda menores, menor perda de sangue, menos complicações e recuperação mais rápida.
Hoje, a tecnologia robótica está cada vez mais presente em procedimentos urológicos, digestivos, torácicos, ginecológicos e cardíacos em hospitais de diversas partes do mundo. Além dos benefícios ao paciente, ela também reduz o desgaste físico do cirurgião durante operações prolongadas, proporcionando maior precisão e consistência ao longo de todo o procedimento. Embora o alto custo das plataformas ainda represente um obstáculo à sua ampla utilização, o surgimento de novos fabricantes de robôs cirúrgicos indica uma tendência de redução de custos e maior acessibilidade nos próximos anos.
Mais recentemente, a inteligência artificial (IA) passou a integrar a rotina dos centros cirúrgicos. Seu impacto vai muito além da execução da cirurgia. Sistemas inteligentes já são capazes de analisar exames de imagem com maior rapidez e precisão, identificar tumores com mais consistência e auxiliar no planejamento cirúrgico de acordo com as características de cada paciente.
Com base no enorme volume de dados gerados pelas cirurgias robóticas, a inteligência artificial também pode antecipar riscos, prever complicações antes mesmo que ocorram e contribuir para decisões médicas mais seguras. Em alguns procedimentos, a IA já oferece suporte em tempo real ao cirurgião, orientando movimentos e funcionando como uma camada adicional de segurança. O resultado da integração entre robótica e inteligência artificial é uma cirurgia mais previsível, com menor margem para erro humano e maior apoio ao julgamento clínico do médico.
Da época das operações realizadas sem anestesia aos modernos robôs guiados por inteligência artificial, a cirurgia percorreu um caminho extraordinário. E essa transformação continua acelerando. Cada nova geração de tecnologias minimamente invasivas, robóticas e baseadas em IA amplia a segurança, a precisão e a eficiência dos procedimentos. Se o século XIX tornou a cirurgia suportável e o século XX a tornou possível em larga escala, a era da robótica e da inteligência artificial promete torná-la cada vez mais segura, precisa e centrada no bem-estar do paciente.
Dr. Luiz Gustavo de Oliveira e Silva possui Título de Especialista em Cirurgia geral e de Área de atuação em Cirurgia Bariátrica; Mestrado em Cirurgia Abdominal pela UFRJ; é o atual Coordenador do Programa de Cirurgia Bariátrica e Metabólica do Hospital Federal de Ipanema (MS-RJ) e Fundador do Instituto Metabólica, Centro de tratamento da obesidade, doenças metabólicas, cirurgia geral e bariátrica.