CORPO EM EQUILÍBRIO
Do procedimento isolado à jornada: como a saúde digital amplia o cuidado - o exemplo da cirurgia plástica após grande emagrecimento
Por DR. PABLO TRINDADE
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Publicado em 29/08/2026 às 16:23
Alterado em 29/08/2026 às 16:23
. Foto: Pixabay
Durante muito tempo, aprendemos a enxergar a cirurgia como um “acontecimento”único e isolado. Existe o “antes”, o dia da operação e o “depois”. O paciente entra no hospital, é operado, recebe alta e, de alguma maneira, entendemos que aquele ciclo terminou. Na cirurgia plástica após grandes perdas de peso principalmente, essa abordagem, já não é suficiente.
Quem chega ao consultório depois de perder 30, 40 ou 50 quilos não traz apenas excesso de pele. Traz uma história de vida e ela deve ser levada em conta no planejamento da cirurgia. Muitas vezes ela começou anos antes, com obesidade, tentativas de emagrecimento, cirurgia bariátrica ou, mais recentemente, novos tratamentos medicamentosos. Quando esse paciente chega à cirurgia plástica portanto, não estamos iniciando uma história. Estamos entrando em uma jornada que já começou há muito tempo. E foi justamente essa percepção que mudou nossa forma de enxergar a nossa metodologia de tratamento.
O desafio não é “operar”. A medicina evoluiu extraordinariamente. Temos técnicas cirúrgicas melhores, hospitais mais preparados e protocolos mais seguros. Ao mesmo tempo, continuamos enfrentando um problema antigo: a fragmentação do cuidado.
O paciente consulta com o cirurgião bariátrico em um lugar, faz acompanhamento nutricional em outro, procura um psicólogo, realiza exames em diferentes serviços e depois chega ao cirurgião plástico. Cada profissional conhece uma parte. Poucos conseguem enxergar o indivíduo como um todo.
Foi a partir dessa realidade que começamos, no NIRC, no nosso núcleo de atendimento interdisciplinar à obesidade, a trabalhar com um conceito simples: a cirurgia plástica deve fazer parte de uma jornada de saúde, e não ser tratada como um procedimento isolado.
E a tecnologia pode ser uma importante ferramenta para tornar isso possível. A Informação dessa jornada, deve pertencer ao paciente. Existe uma contradição interessante na medicina moderna. Produzimos uma enorme quantidade de informações sobre nossos pacientes, mas frequentemente quem tem mais dificuldade para visualizar sua trajetória de forma organizada é o próprio paciente.Peso inicial, perda de peso, IMC, reganho, exames, relatórios, avaliações e procedimentos ficam espalhados por diferentes sistemas e instituições. O prontuário pode estar dentro de uma instituição. Mas a história de saúde pertence ao paciente.
Foi dessa inquietação e utilizando de tecnologia que desenvolvemos o “MeuNirc”, que lançaremos em breve, aplicativo desenvolvido para permitir que o paciente acompanhe sua própria jornada e a carregue em suas consultas. A proposta é reunir informações sobre evolução corporal, indicadores clínicos, documentos e etapas do tratamento em um ambiente acessível ao próprio paciente e aos profissionais envolvidos no cuidado. Não para substituir consultas ou médicos. Justamente para melhorar essa relação.
Quando a tecnologia organiza informações e conecta etapas, sobra mais tempo para aquilo que nenhuma tela consegue substituir: ouvir, explicar, acolher e decidir junto.
Essa transformação se torna ainda mais importante diante do avanço dos tratamentos para obesidade. Além da cirurgia bariátrica, novos medicamentos estão permitindo grandes perdas de peso e criando uma nova geração de pacientes que chegará aos consultórios de cirurgia plástica. Precisaremos estar preparados não apenas para operar mais, mas para cuidar melhor.
Isso significa integrar cirurgiões, nutricionistas, psicólogos, médicos que tratam obesidade e outros profissionais. Significa acompanhar o paciente antes e depois da cirurgia. E significa usar a tecnologia para conectar pontos que hoje ainda permanecem separados, prejudicando a linha de cuidado.
Nenhum aplicativo ou nenhuma tecnologia jamais substituirá o médico. Nenhum algoritmo ou “prompt” compreenderá sozinho todas as particularidades de uma pessoa. Mas a tecnologia pode nos ajudar a construir uma medicina menos fragmentada e dar ao paciente algo fundamental: maior participação sobre a sua própria saúde.
Depois de anos acompanhando pacientes que passaram por grandes transformações corporais, uma ideia ficou cada vez mais clara para nós: a cirurgia é apenas um capítulo. O paciente é a história.Talvez o futuro da cirurgia plástica esteja justamente na capacidade de unir essas duas coisas que, à primeira vista, parecem tão diferentes: mais tecnologia e mais humanidade.
Dr. Pablo Trindade é cirurgião plástico ex-aluno do professor Ivo Pitanguy. Possui título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica SBCP. Atualmente coordena o “NIRC" - Núcleo Integrado de Readequação Corporal, o primeiro centro privado de acompanhamento interdisciplinar da obesidade que conta com cirurgiões bariátricos, cirurgiões plásticos, endocrinologistas, nutricionistas, psicólogos, fisioterapeutas e educadores físicos.