CORPO EM EQUILÍBRIO
O medo da cirurgia bariátrica é realmente justificável?
Por DR. LUIZ GUSTAVO DE OLIVEIRA E SILVA
Publicado em 24/07/2026 às 16:08
Alterado em 24/07/2026 às 16:16
. Foto: Pixabay
Uma das grandes barreiras para a realização da cirurgia bariátrica sempre foi o medo do procedimento cirúrgico. As diversas incertezas em relação ao ato cirúrgico propriamente dito e às mudanças no organismo após o procedimento acabam sendo um fator importante no imaginário dos pacientes elegíveis à cirurgia bariátrica. Muitos desistem de operar por esse motivo.
O tratamento cirúrgico da obesidade é eficaz, porém invasivo. Para realizar o procedimento, o indivíduo necessita de um preparo pré-operatório minucioso, com diversos exames e consultas. Em seguida, é levado ao centro cirúrgico, onde é submetido à anestesia geral e são realizados pequenos cortes no abdome, por meio dos quais são feitas alterações no tubo digestivo. Após a cirurgia, o paciente permanece por um curto período em internação hospitalar e, posteriormente, segue sua recuperação em casa, com uma dieta de consistência progressiva (líquida, pastosa e sólida), retornando gradualmente às suas atividades após algumas semanas.
Todo esse processo acaba gerando muitas dúvidas e incertezas para uma pessoa que já tem seu aspecto psicológico bastante afetado pela limitação da qualidade de vida decorrente do excesso de peso. Soma-se a isso a influência de familiares e amigos, com opiniões diversas, que podem acabar confundindo e desestimulando o indivíduo a realizar a operação. Nesse mesmo contexto, também existe a necessidade de afastamento do trabalho e o receio de como as pessoas ao seu redor irão tratá-lo após saberem que foi submetido à cirurgia bariátrica.
Outro ponto que influencia negativamente a decisão de muitas pessoas é a incerteza sobre os efeitos das alterações no tubo digestivo provocadas pela operação. Muitos têm medo de desenvolver deficiências nutricionais e de ficar dependentes de suplementos vitamínicos para o resto da vida. O receio de adquirir um aspecto "doente" ou de emagrecer além do desejado também é frequente nessas situações.
Mas será que todas essas questões realmente são justificáveis? Elas são significativas o bastante para afastar o paciente dessa opção de tratamento? Na realidade, o que sabemos hoje é que a cirurgia bariátrica e metabólica é o tratamento mais eficaz para a obesidade e para o controle das doenças associadas. Mesmo no contexto atual das chamadas "canetas emagrecedoras", a cirurgia bariátrica continua sendo a principal ferramenta para o tratamento de pacientes com obesidade grave e de difícil controle.
A cirurgia bariátrica foi idealizada na década de 1960 e, no final dos anos 1990, passou a ser realizada com maior frequência em todo o mundo. Desde então, passou por diversas adaptações e consolidou-se como uma cirurgia segura e eficaz. Atualmente, o procedimento é realizado por métodos minimamente invasivos, como a laparoscopia e a cirurgia robótica, dura em média de 60 a 90 minutos e, em geral, o paciente recebe alta hospitalar entre 24 e 48 horas após a operação.
Apesar da complexidade do atendimento a pacientes com múltiplas doenças, que necessitam de cuidados hospitalares especiais, como mesas cirúrgicas, cadeiras de transporte, mobiliário e equipamentos adaptados para pessoas com excesso de peso, a cirurgia bariátrica evoluiu a ponto de apresentar índices de complicações cirúrgicas muito baixos, inferiores aos de procedimentos frequentemente realizados, como a colecistectomia e a apendicectomia (retirada da vesícula e do apêndice). Isso se deve a uma melhor compreensão dos efeitos da cirurgia e, sem dúvida, à padronização do procedimento.
Quando a cirurgia bariátrica começou a ser realizada com maior frequência, há cerca de trinta anos, acreditava-se que seu sucesso estava relacionado principalmente à redução do volume do estômago e à diminuição da absorção de nutrientes em decorrência do desvio intestinal. Com o passar do tempo, entretanto, observou-se que a passagem mais rápida dos alimentos para o intestino promove alterações hormonais que reduzem a fome e proporcionam melhor controle de doenças associadas, como diabetes, hipertensão arterial, apneia do sono, entre outras. Esse conhecimento foi fundamental para que modificações técnicas fossem incorporadas ao procedimento, proporcionando melhor qualidade da alimentação, menos episódios de vômitos e menor ocorrência de complicações cirúrgicas graves, que anteriormente eram mais frequentes.
Outra questão muito importante para a evolução e a segurança do procedimento foi a padronização dos processos relacionados à cirurgia. Atualmente, o preparo pré-operatório, que inclui exames e consultas, as técnicas cirúrgicas, os cuidados durante e imediatamente após a cirurgia, bem como o acompanhamento pós-operatório, seguem protocolos muito semelhantes nos principais centros especializados. Hoje sabemos que a padronização dos procedimentos cirúrgicos facilita sua reprodução, o treinamento de novos profissionais e, principalmente, reduz a ocorrência de erros.
Por todos esses motivos, a cirurgia bariátrica consolidou-se como um tratamento efetivo e seguro, tanto em curto quanto em longo prazo. É claro que não podemos esquecer que a obesidade é uma doença crônica, de difícil controle, que exige cuidados por toda a vida. Dessa forma, a compreensão da doença, o entendimento do tratamento e o acompanhamento em longo prazo por uma equipe multidisciplinar experiente são fundamentais para que o paciente alcance qualidade de vida e saúde, mantendo o seu Corpo em Equilíbrio.
Dr. Luiz Gustavo de Oliveira e Silva possui Título de Especialista em Cirurgia geral e de Área de atuação em Cirurgia Bariátrica; Mestrado em Cirurgia Abdominal pela UFRJ; é o atual Coordenador do Programa de Cirurgia Bariátrica e Metabólica do Hospital Federal de Ipanema (MS-RJ) e Fundador do Instituto Metabólica, Centro de tratamento da obesidade, doenças metabólicas, cirurgia geral e bariátrica.