CORPO EM EQUILÍBRIO
Entre as 'canetas emagrecedoras' e a cirurgia bariátrica
Por DR. PABLO TRINDADE
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Publicado em 09/07/2026 às 16:51
Alterado em 09/07/2026 às 16:52
. Foto: Pixabay
O emagrecimento mudou. Até pouco tempo, quando se falava em “grande perda de peso”, a primeira imagem era a do paciente submetido à cirurgia bariátrica, procedimento seguro, com excelente resultado e o melhor tratamento da obesidade a longo prazo. Hoje, com a chegada dos novos medicamentos para o tratamento da obesidade, popularmente chamados de “canetinhas”, o consultório de cirurgia plástica passou a receber um novo perfil de paciente: pessoas que emagreceram muito, em menos tempo, sem necessariamente terem passado por uma cirurgia bariátrica.
À primeira vista, o resultado parece parecido com grande perda de peso, melhora da autoestima e na maioria das vezes, excesso de pele residual. Mas, do ponto de vista técnico, o paciente “pós-bariátrico” e o paciente “pós-medicamento” não são iguais. E entender essa diferença é fundamental para indicar a cirurgia plástica no momento certo, com segurança e almejando os melhores resultados.
Na cirurgia bariátrica, o emagrecimento costuma seguir uma curva mais conhecida e controlada. O paciente perde peso de forma intensa nos primeiros meses, passa por adaptações alimentares importantes e, em geral, atinge maior estabilidade entre 12 e 18 meses após o procedimento (“platô de perda”). Esse intervalo é importante pois a cirurgia plástica reparadora para retirada dos excessos de pele, não deve ser planejada enquanto o corpo ainda está mudando rapidamente. A correção dos distúrbios nutricionais e psicológicos, inerentes ao tratamento, geralmente é acompanhada e estabilizada após esse período.
Submeter o paciente ao procedimento cedo demais pode, além de comprometer o resultado, aumentar riscos e levar à sobras residuais de pele, gerando insatisfações.
O paciente “pós-bariátrico” exige atenção especial à nutrição. Deficiências de ferro, proteínas, vitaminas e outros micronutrientes podem interferir diretamente na cicatrização. Por isso, antes de uma abdominoplastia, mamoplastia, braquioplastia ou cirurgia de coxas, cirurgias mais popularmente realizadas, não basta olharmos apenas o peso perdido na balança. É preciso avaliar exames, alimentação, massa muscular, estabilidade clínica e capacidade real de recuperação.
Já o paciente que emagrece com medicamentos como os análogos da GLP1, (“canetas”) traz uma nuance diferente. Muitas vezes ele não passou por uma cirurgia espoliativa, não tem as mesmas alterações de absorção intestinal e pode ter uma recuperação metabólica mais simples. Por outro lado, a velocidade do emagrecimento pode ser grande, e o momento de estabilização ainda é menos previsível. Alguns pacientes continuam perdendo peso enquanto usam a medicação o que pode gerar sobras residuais de pele e insatisfação nos resultados das cirurgias plásticas para contorno corporal; outros recuperam parte do peso ao interromper o tratamento; e há aqueles que ainda estão ajustando dose, dieta e atividade física…
É por isso que a pergunta não deve ser apenas: “quantos quilos você perdeu?”. A pergunta mais importante é: “seu corpo já parou de mudar?”. Se sim, esse é o momento ideal de indicarmos o procedimento.
Na prática, a cirurgia plástica deve ser considerada quando o paciente apresenta peso estável, bom estado nutricional, exames adequados e expectativas realistas do resultado.
No pós-bariátrico, isso frequentemente acontece após 12 a 18 meses da cirurgia, com pelo menos alguns meses de estabilidade. No pós-canetas, o tempo pode variar mais ou até menos. O ideal é que o paciente esteja em fase de manutenção, sem perda acelerada, com rotina alimentar estruturada e acompanhamento médico-nutricional.
Também existe uma diferença estética e anatômica. O paciente pós-bariátrico frequentemente apresenta grandes excedentes de pele no abdome, braços, mamas, dorso e coxas, muitas vezes associados a assaduras, dermatites, dificuldade para higiene, limitação para exercícios e desconforto funcional. Já no paciente pós-medicamento, a queixa pode variar desde flacidez facial e perda de volume até sobra de pele corporal. Em alguns casos, a flacidez é moderada; em outros, principalmente quando a perda de peso foi muito expressiva, o quadro se aproxima bastante do pós-bariátrico.
Outro ponto essencial: a cirurgia plástica não deve ser vista como “atalho” nem como substituta do tratamento da obesidade. Ela entra depois, como uma etapa de readequação corporal. O objetivo não é emagrecer o paciente, mas tratar as consequências e sequelas do emagrecimento: excesso de pele, dificuldade de adaptação ao novo corpo, limitações físicas e impacto na qualidade de vida além de auxiliar no processo de auto-aceitação e ao convívio social.
Essa distinção também ajuda a combater um equívoco comum: nem toda cirurgia após emagrecimento é puramente estética. Em muitos pacientes, o excesso de pele causa problemas reais. Pode dificultar a prática de exercícios, favorecer infecções de pele (dermatites), provocar dor, limitar o uso de roupas e gerar sofrimento emocional importante. Quando há prejuízo funcional, a cirurgia reparadora passa a fazer parte do cuidado integral.
As “canetas” ampliaram o acesso ao emagrecimento e mudaram a conversa sobre obesidade. A bariátrica continua sendo uma ferramenta poderosa, mais eficaz, especialmente em casos selecionados e em obesidade mais grave. O que une esses dois caminhos é que ambos podem levar a uma mesma pergunta: depois de perder peso, como reconstruir qualidade de vida?
A resposta não está em operar todos. Está em avaliar melhor e individualizar cada paciente. O novo desafio da cirurgia plástica é justamente esse: entender a causa do emagrecimento, em que fase o paciente está, como está sua nutrição, se o peso estabilizou e quais queixas são estéticas, funcionais ou ambas. No fim, o melhor momento para operar não é quando a balança mostra o menor número, mas quando o corpo está preparado para cicatrizar, sustentar o resultado e seguir em frente, lembrando que a obesidade é uma doença crônica e com altas taxas de recidiva (reganho) seja pós bariátrica ou pós canetas. A cirurgia plástica é apenas mais uma das etapas do tratamento contínuo e não a última delas.
Dr. Pablo Trindade, e Cirurgiao Plastico ex-aluno do Professor Ivo Pitanguy. Possui Titulo de Especialista pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plastica SBCP.
Atualmente coordena o “NIRC" - Nucleo Integrado de Readequacao Corporal, o primeiro centro privado de acompanhamento interdisciplinar da obesidade que conta com cirurgioes bariatricos, cirurgioes plasticos, endocrinologistas, nutricionistas, psicologos, fisioterapeutas e educadores fisicos