CORPO EM EQUILÍBRIO

A estética digital e os riscos invisíveis de uma nova obsessão social

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Por DRA. DAGHILLA MACEDO

Publicado em 03/07/2026 às 11:04

Alterado em 03/07/2026 às 18:39

. Foto: Pixabay

A relação entre corpo, imagem e pertencimento social nunca foi tão intensa quanto na era da hiperconectividade. Crescendo em um ambiente dominado por telas, algoritmos e validação, a sociedade vem demonstrando sinais de uma transformação profunda na maneira de enxergar saúde, beleza e identidade.

Mais do que consumir tecnologia, as pessoas estão nascendo integradas à ela. Redes sociais, filtros de imagem, inteligência artificial e influenciadores digitais, moldam padrões de comportamento desde a infância. O reflexo disso aparece cada vez mais cedo nos hábitos alimentares, na percepção corporal, na busca por procedimentos estéticos e até na forma como crianças e adolescentes entendem o autocuidado. A crescente do universo Welness, se destaca nesse cenário. Grandes marcas estão investindo no mercado fitness e cresce na sociedade a ideia de cuidados com a saúde.

O que se propaga é de fato importante, precisamos cuidar da nossa saúde. O problema é que hoje, a busca por um “corpo ideal”, impulsionada por conteúdos virais e padrões inalcançáveis, pode abrir espaço para forte sofrimento psíquico. Uma vez que a estética passou a ocupar um lugar central nas relações sociais online, já que o corpo acaba sendo visto como uma vitrine de aprovação social.

Soma-se a esse cenário, a forte procura pelos análogos de GLP-1, medicamentos originalmente desenvolvidos para o tratamento do diabetes e obesidade, que ganharam notoriedade mundial por promoverem perda de peso significativa. O fenômeno ultrapassou o ambiente médico e entrou definitivamente na cultura digital. O que preocupa hoje é o uso indiscriminado, já que a popularização das chamadas “canetas emagrecedoras” entre pessoas sem indicação médica levanta discussões sobre automedicação, dependência estética e banalização de tratamentos complexos.

Diferentemente das gerações anteriores, os jovens de hoje cresceram observando rotinas fitness, dietas restritivas e transformações corporais em tempo real. O feed tornou-se uma espécie de espelho social, onde a aparência frequentemente se confunde com sucesso, disciplina e aceitação.

O impacto psicológico é significativo. Estudos recentes da Academy Eating Disorders (AED), apontam aumento de casos de transtornos alimentares. Os transtornos alimentares são condições psiquiátricas complexas, multifatoriais e potencialmente graves, caracterizadas por alterações persistentes no comportamento alimentar e por sofrimento significativo relacionado ao peso, à imagem corporal e à alimentação. Entre os transtornos mais conhecidos estão a Anorexia Nervosa, a Bulimia Nervosa e o Transtorno da Compulsão Alimentar.

Em meio ao excesso de exposição a conteúdos que romantizam magreza extrema ou corpos considerados “perfeitos” cria-se um ambiente de comparação permanente. E então entramos na questão: Saúde ou performance estética?

A discussão vai além da balança. O que está em jogo é a maneira como a sociedade vem aprendendo a se relacionar com o próprio corpo. Ao mesmo tempo em que a tecnologia amplia acesso à informação, ela também acelera cobranças estéticas e cria uma cultura de performance corporal constante. Exercícios, alimentação e autocuidado deixam de ser apenas práticas de saúde e passam a funcionar como elementos de exposição social. Por isso, o desafio está em equilibrar.

A Educação digital, o acompanhamento psicológico e o diálogo familiar aparecem como ferramentas essenciais para reduzir os impactos negativos desse novo cenário. Enquanto os avanços tecnológicos seguem transformando hábitos e relações humanas, cresce a necessidade de discutir saúde física e mental de forma integrada, especialmente entre os mais jovens, que estão construindo sua identidade em um mundo onde a imagem nunca esteve tão em evidência.

Por isso, campanhas de conscientização ganham forte notoriedade. No mês de Junho, destacamos a Conscientização sobre Transtornos Alimentares, neste ano de 2026, a campanha teve o tema: “Diga não ao estigma!” A proposta é ampliar o debate sobre saúde mental, autoestima e pressão estética, principalmente entre adolescentes e jovens adultos, chamando atenção para os impactos silenciosos dos transtornos alimentares e para a importância do diagnóstico precoce.

Em uma era marcada por filtros digitais e métricas de aprovação social, a linha entre autocuidado e adoecimento pode se tornar cada vez mais tênue. Por isso, se torna necessário um cuidado equilibrado e sem estigmas.

Fonte: ACADEMY FOR EATING DISORDERS. Academy for Eating Disorders. Reston, 2026. Disponível em: https://www.aedweb.org/resources/publications

Daghilla Macedo, é psicóloga clínica e atua sob a abordagem da Gestalt-terapia. Possui Mestrado em Clínica Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e é especialista em Psicologia Hospitalar pela mesma instituição. Realiza atendimento em consultório particular, com especial interesse no acompanhamento de pessoas que enfrentam desafios relacionados à obesidade, aos transtornos alimentares e outras demandas emocionais e psicológicas. Respeitando o seu propósito de cuidado integral à saúde de modo humanizado e baseado em evidências científicas.

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