CORPO EM EQUILÍBRIO

Hormônios e o preço das soluções fáceis

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Por DR. RAFAEL MAZZUTTI

Publicado em 19/06/2026 às 14:03

Alterado em 19/06/2026 às 14:12

, Foto: Pixabay

O abuso de hormônios se tornou um dos pilares da promessa de otimização do corpo humano. Por meio de aplicações, cápsulas manipuladas ou implantes conhecidos como "chips", esses tratamentos são indicados para sintomas inespecíficos que, na maioria das vezes, não estão relacionados à falta de hormônios, mas sim a uma rotina exaustiva — cansaço, indisposição, diminuição da libido, ganho de peso. Os riscos do uso indiscriminado não são novidade: a medicina alerta sobre isso há décadas, e não por acaso o CFM proibiu formalmente, em 2023, a prescrição de anabolizantes para fins estéticos e de performance.

Mesmo assim, a prática persiste. Um estudo publicado em 2025 a revista Circulation confirma, com números expressivos, o que já se sabia: o uso de esteroides anabolizantes aumenta em até nove vezes o risco de algumas doenças cardíacas e em até três vezes o risco de infarto agudo do miocárdio. Além disso, níveis elevados de testosterona ainda podem levar ao aumento da pressão arterial, elevação da glicose no sangue e piora dos níveis de colesterol.

Esse cenário não surgiu do nada. Nunca tivemos tanto acesso a informações sobre saúde, mas nem sempre é fácil separar o que é evidência do que é opinião. A internet permite que qualquer pessoa escreva, opine e assuma o papel que desejar. É nesse cenário que a ciência passa a disputar atenção com narrativas mais simples e mais atraentes. Em um momento em que o tempo é escasso, soluções rápidas encontram terreno fértil. A dificuldade de conciliar trabalho, vida pessoal e saúde leva muitas pessoas a buscar respostas imediatas para problemas que são complexos e multifatoriais.

Com a expectativa de uma vida mais longa e melhor, cresce o interesse por produtos e serviços relacionados à saúde, tornando este um mercado atrativo para empresas, influenciadores e criadores de conteúdo. Nem sempre esse interesse vem acompanhado de compromisso com qualidade e segurança. A situação se agrava quando influenciadores atribuem suas conquistas exclusivamente à disciplina, omitindo fatores que podem ter contribuído para esses resultados como privilégios e recursos de edição ou até mesmo procedimentos estéticos e uso inadequado de medicamentos.

Um agravante no caso dos hormônios é que, muitas vezes, o paciente sequer sabe o que está usando — mas usa, por confiar no médico que prescreveu. Essa confiança é conquistada, em alguns casos, com base no número de seguidores, estética e discursos bem elaborados para vender uma imagem. Não é critério de competência.

Popularidade nas redes sociais e aparência física não devem ser confundidos com qualidade da prática médica. Um bom médico pode, sim, ter presença digital — mas ao indicar qualquer tratamento hormonal, vai explicar para que serve, quando é necessário, e quais são os riscos. Se isso não acontece na sua consulta, é um sinal de alerta. Hormônios não são suplementos. E sintomas de uma vida desequilibrada não se resolvem com uma receita.

Referência: Windfeld-Mathiasen J, Heerfordt IM, Dalhoff KP et al. Cardiovascular Disease in Anabolic Androgenic Steroid Users. Circulation. 2025.

Rafael Mazzutti Dutra Santana é endocrinologista e possui título de especialista em endocrinologia e metabologia pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia com atuação voltada para saúde metabólica, obesidade e medicina preventiva baseada em evidências.

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