Dicas do Aquiles: As crianças de Dona Dalva

Alô, rapaziada! Segura a onda que o papo é reto. Aumenta o som porque o roquenrrol vem de Ian Ramil, um músico/compositor de 32 anos que lançou “Derivacivilização” (independente), seu segundo CD.

Ian é filho de Vitor Ramil, irmão mais novo de Kleiton, Kledir e Branca Ramil, seus tios, e primo de Gutcha, Thiago e João... mas não se deve falar desta família sem louvar a sua matriarca, Dona Dalva Ramil. Ela que, feito crocheteira, a todos abriga sob um vasto manto bordado e estendido por ela sobre sua casa, lá em Pelotas. Junto com o marido Kleber Ramil, Dona Dalva, hoje com 92 anos, propiciou que os Ramil crescessem num ambiente musical que direcionou gerações dos seus à criação artística.

– Ô leitores, vocês não fazem ideia do tamanho da encrenca em que me meti: um lado quer falar logo do CD do Ian; outro, quer seguir mostrando passado, presente e futuro dos Ramil.

Vamos em frente: dentre outras, ouvi músicas de Ian no Teatro do Sesc Vila Mariana, quando do show “Casa Ramil”, que reuniu sete deles: Gutcha, percussionista e cantora, João contrabaixista, cantor e percussionista, juntaram-se a Kleiton, Kledir, Vitor, Ian e Thiago para cantar suas músicas. Todos Ramil, todos crianças de Dona Dalva.

– Não tô dizendo: é como se eu quisesse escrever uma coisa e saísse outra...

– Guenta aí!, já vou falar do CD do Ian, juro!

– O show no Sesc foi num sábado...

– Chiii, lá vem você de novo?

– Calma aê, tou na pista.

– Tsk, tsk, tem jeito não...

O CD: a cada roquenrrol, liberdade e ousadia, como em “Coquetel Molotov” (Ian Ramil) e “A voz da indústria” (IR e Daniel Mã). Num estado de invencionice criativa, suas músicas têm sons inusuais, como “Artigo 5º” (Leo Aparto e IR) – participação de Gutcha Ramil. E versos mágicos, como os de “Derivacivilização” (IR) – participação de Filipe Catto.

O roquenrrol pode ser pesado, como “Corpo vazio” (IR), ou mesmo afetivo, como “Devagarinho” (IR), mas é sempre vigoroso, viril, mesmo, como em “Salvo-Conduto” (IR e Poty Burch).

Graças a seu frescor e fervor – num verdadeiro salto rumo ao futuro –, sinto semelhanças estéticas e conceituais do CD de Ian Ramil, com o furor inicial do manguebeat. Em suas veias gaúchas, noto correr o mesmo sangue ardente que um dia ferveu as veias de Chico Science. E como o poeta/músico pernambucano, Ian também radicaliza num som sedutoramente contemporâneo... e quem sabe, e porquê não?, o seu “Guaíbabeat”?

“Guaíbabeat” ou não, o fato é que a música de Ian é um coquetel arrebatado de experimentações instrumentais, destemperos poéticos e sons vocais extravagantes. Sendo assim, seu grande lance é seguir buscando, esquadrinhando, idealizando... portas abertas ao som do mundo; janelas arregaçadas à eloquência.

Eis Ian, mais um Ramil pronto para dar sua música ao mundo.

P.S. “Derivacivilização” foi gravado em Pelotas, produzido pelo próprio Ian, em parceria com Guilherme Ceron, e ganhou o Grammy Latino, 2016, como melhor disco de rock em língua portuguesa.